Pe. Jaldemir Vitório SJ
Para início de conversa, carece dizer que fábula, gênero literário criado na Grécia, por volta do século VI a.C., refere-se a um pequeno conto, no qual os animais e outros elementos da natureza falam, agem e têm sentimentos e reações como se fossem humanos. As fábulas se concluem com um ensinamento sapiencial, de ordem moral, decorrente da história contada. A expressão popular “moral da história!” está ligada às fábulas.
Pois bem, a Bíblia contém versículos formulados com traços de fábula: “Ouço o sangue de teu irmão, do solo, clamar para mim” (Gn 4,10); “Os céus contam a glória de Deus” (Sl 19,2); “Se eles se calarem, as pedras gritarão” (Lc 19,40); “A criação inteira geme e sofre as dores de parto até o presente” (Rm 8,22). No entanto, nela se encontra uma fábula, como se entende, desde a Antiguidade, no mundo das narrações. Está no Livro dos Juízes 9,7-15, conhecida como a “fábula de Joatão”. Sugiro aos leitores e às leitoras lerem em suas bíblias esse texto, pois não será transcrito aqui. Com grande probabilidade essa fábula já existia, independentemente, tendo sido adaptada pelos autores do texto bíblico, para servir à mensagem a ser transmitida aos seus contemporâneos.
Faz-se necessário situar o texto em seu contexto literário-narrativo, para bem compreendê-lo. Lembremos que as histórias bíblicas não têm a pretensão de recuperar o passado do povo, como fazem os historiadores modernos; antes, descrevem a relação de Israel com o seu Deus, feita de altos e baixos. No tempo do Livro dos Juízes, havia um descontentamento entre as lideranças das doze tribos de Israel pela falta de alguém para falar em nome delas, como um todo. As decisões tomadas pelo conjunto das tribos encontravam dificuldade para serem implementadas. Seguir adiante, nessa situação, se tornava inviável! Sentiu-se, então, a necessidade de escolher um rei que centralizasse o poder e o comando, para o bem de todos. Porém, havia um problema: Deus era considerado o Rei de Israel; escolher um rei humano significava pôr em xeque a realeza de Deus. Daí ser considerada, por muitos, uma decisão afrontosa ao Deus do povo.
A narração dos fatos, que abarca Jz 9,1-21, põe em confronto dois personagens: Abimelec e Joatão, filhos de Gedeão, de quem se fala em Jz 6–8, escolhido por Deus para ser juiz em Israel. Juízes eram líderes militares temporários que comandavam as tribos, quando atacadas por inimigos; quando os adversários eram vencidos, cessava a liderança do juiz. Por ocasião da morte de Gedeão, seu filho Abimelec, cujo nome significa meu pai é rei, tentou se impor. Foi até sua cidade natal, Siquém, onde moravam seus setenta irmãos, e, com o dinheiro surrupiado do templo de uma divindade local, Baal-Berit, contratou um bando de mercenários, para matar todos seus irmãos e se tornar rei. Assim, “exerceu o poder sobre Israel durante três anos” (Jz 9,22).
Entretanto, Joatão, filho mais novo de Gedeão, cujo nome significa Deus é perfeito, escapou porque se escondeu. Quando soube que Abimelec estava para ser proclamado rei, em sua cidade natal, subiu ao cume do monte Garizim e, lá do alto, em voz alta, contou uma fábula, para denunciar o que estava acontecendo, chamando a atenção dos ouvintes: “Senhores de Siquém, ouçam-me, para que Deus os ouça! Um dia as árvores se puseram a caminho para ungir um rei que reinasse sobre elas” (Jz 9,7). E passou a listar a reação de cada uma ao convite para exercer a realeza. A oliveira recusou-se a renunciar ao seu azeite para se balançar sobre as árvores. Igualmente a figueira preferiu ficar com a doçura de seu fruto saboroso, a se balançar sobre as árvores. A videira preferiu seu vinho novo, alegria de deuses e homens, a se balançar sobre as árvores. Em vista disso, as árvores se reportaram ao espinheiro, dizendo-lhe: “Venha você, e reine sobre nós!” Esse aceitou, dizendo: “Se é de boa fé que me ungem como rei sobre vocês, venham e se abriguem à minha sombra. Se não, sairá fogo dos espinheiros e devorará os cedros do Líbano”.
Relendo o texto bíblico, com o pano de fundo do exercício da cidadania, no atual contexto sociopolítico brasileiro, se podem tirar muitas lições. De um lado, pensemos nas árvores boas – oliveira, figueira e videira – convidadas para liderar as demais, contrapostas à árvore má, o espinheiro.
Muitos cidadãos e cidadãs, capacitados para a liderança política, agem como o primeiro grupo de árvores:
- Preferem não se envolver em questões que afetam a coletividade, apesar de terem condições de fazê-lo, de maneira positiva, incentivados por quem os conhece;
- Seus interesses pessoais falam mais alto, levando-os a se desinteressarem pelo bem-comum;
- Pode ocorrer o medo de se comprometerem com causas de interesse de todos pelas consequências de sua opção;
- Esquecem-se que poderão encontrar muitos aliados, comprometidos com a sorte e o destino do povo, e com eles formar uma corrente de solidariedade em prol do bem-comum.
A omissão das árvores boas abre espaço para a ação dos que são como o espinheiro que quer ver todos em baixo de sua chibata: “venham e se abriguem sob minha sombra” (Jz 7,15). Essa gente:
- Quer chegar ao poder e se apropriar dele; como tem iniciativa e abraça a causa, acaba por ser aclamada pelo povo, que não tem outra opção;
- Conhece o caminho para se impor e se embrenha por ele, com arrogância e autoritarismo, atropelando quem ousa se contrapor;
- Carece de ética; eis porque lança mão de todos os meios, mesmo os mais sórdidos, para alcançar seus objetivos; hoje, tem as fake news como arma poderosa em suas mãos;
- Pensa em si mesma e seus interesses, bem como os de seus apaniguados, com quem se mistura, mesmo sendo gente da pior espécie.
A fábula bíblica serve de chave para entender o cenário atual da cidadania brasileira. A omissão de quem tem condições de se engajar na política partidária, com grandeza cívica, ético-moral, intelectual e cultural, em favor de um país mais justo e igualitário, abre espaço para a ascensão de falsos políticos que, sob a bandeira da religião e dos bons costumes, têm como projeto abolir o direito dos mais pobres, garantir o privilégio das elites, abrir mão da soberania nacional, dilapidar o patrimônio nacional, enfim, reduzir o Brasil a uma “republiqueta das bananas”, desprovida de relevância internacional e tutelada pelo poder hegemônico de plantão.
As juventudes estão implicadas, de modo especial. Nossa esperança renasce, quando desponta uma liderança política jovem com senso crítico e capacidade de discernimento político fundado na ética e no interesse de todos, mormente, os mais pobres. E, mais, com consciência republicana, com capacidade de expressar seus pontos de vista com clareza, com vocabulário de pessoas civilizadas, sem recorrer ao linguajar chulo, às ironias e, sobretudo, às mentiras. Com formação acadêmica e respaldo cultural, somados a um histórico de compromisso com as causas sociais. Sobretudo, com caráter tão sólido, que a torne infensa a qualquer cooptação pelos corruptores de plantão.
Que as oliveiras, as figueiras e as videiras, de hoje, deixem de lado os interesses pessoais, os medos e as inseguranças, e aceitem “balançar-se por sobre as árvores”. Deus nos livre dos espinheiros!
Padre Jaldemir Vitório, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
22/10/2026
