Pensar em tempos de muitas opiniões

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Luiz Sureki, SJ

Nunca foi tão fácil opinar. Nunca foi tão difícil pensar.

Vivemos numa época em que qualquer pessoa com um celular, boa dicção, presença digital e alguma capacidade de atrair atenção pode tornar-se referência para milhões. Jovens com poucos anos de vida e escassa experiência acumulam seguidores e passam a emitir opiniões categóricas sobre temas complexos: sexualidade, família, relacionamentos, religião, sofrimento psíquico, felicidade, sentido da vida. Não raro, falam com uma convicção impressionante sobre assuntos cuja profundidade mal começaram a entrever.

O mais inquietante, porém, não é que opinem. Opinar é humano. O problema é outro: em nosso tempo, opinião e conhecimento passaram a parecer equivalentes. Convicção virou sinônimo de verdade; segurança retórica passou a valer mais que consistência argumentativa; o número de seguidores tornou-se, para muitos, um critério de credibilidade. Mas desde quando popularidade é critério de verdade?

A história humana está repleta de consensos equivocados, modas intelectuais passageiras e certezas coletivas que se revelaram profundamente frágeis. A multidão frequentemente aclama com entusiasmo aquilo que o tempo depois desmente com facilidade. Por isso, a sabedoria sempre exigiu algo mais difícil que aderir ao que está em alta: exigiu discernimento. E discernir exige critérios.

Uma das grandes fragilidades do nosso tempo é a crise dos critérios. O excesso de informação não produziu necessariamente mais lucidez. Pelo contrário: frequentemente produziu saturação, dispersão e superficialidade. Sabemos cada vez mais coisas, mas nem sempre compreendemos melhor o que realmente importa. Estamos hiperconectados e, ao mesmo tempo, frequentemente desconectados da profundidade. Nesse contexto, torna-se urgente reaprender a escutar aqueles que vieram antes de nós. Isso não significa defender um culto ingênuo ao passado, como se os antigos tivessem respostas prontas para tudo. Os antigos também erraram, tiveram limitações históricas, culturais e conceituais. Não se trata de canonizar o passado. Mas tampouco se trata de descartá-lo com arrogância. Há uma diferença entre espírito crítico e presunção cronológica.

A presunção cronológica consiste em imaginar que, por vivermos depois, pensamos necessariamente melhor. Como se a simples passagem do tempo garantisse superioridade intelectual ou moral. É preciso ter presente que não estudamos filósofos antigos porque são antigos. Estudamo-los porque pensaram com radicalidade questões que permanecem atuais. O que é a verdade? O que é o bem? O que significa viver bem? O que é justiça? O que é liberdade? O que torna uma vida digna? O que é amar? O que significa morrer? Existe Deus? Essas perguntas não envelhecem.

Mudam as linguagens, mudam os contextos, mudam os cenários históricos, mas as grandes questões humanas permanecem. É precisamente por isso que Sócrates, Platão, Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino, Immanuel Kant ou Friedrich Nietzsche ainda têm algo a nos dizer. Não porque pertençam a um museu de ideias, mas porque tocaram algo estrutural da condição humana. A filosofia, por isso, não é apenas história da filosofia. Ela é também filosofia da história.

Pensar filosoficamente implica reconhecer que o presente não brotou do nada. As raízes do presente estão fincadas no solo do passado. Nossos conceitos, valores, instituições, crises e sensibilidades possuem genealogias. Ignorar isso significa interpretar mal o presente e, por consequência, comprometer o futuro. Quem despreza a memória torna-se refém do imediato. E o imediato raramente pensa bem. É por isso a filosofia causa tanta estranheza numa cultura dominada pela utilidade, pela produtividade e pela lógica do desempenho. Cada grande sistema filosófico é, no fundo, uma resposta a perguntas que também nos constituem. Quando lemos os filósofos, não encontramos apenas ideias antigas; encontramos espelhos. Encontramos perguntas que revelam nossas próprias certezas, ilusões, limites e contradições. A filosofia incomoda porque obriga a desacelerar. Ela exige algo raro em nosso tempo: demora, silêncio, atenção, paciência conceitual, rigor argumentativo, humildade diante da complexidade.

A filosofia pergunta não se pensamos diferente, mas se pensamos melhor. Temos mais dados, mas será que temos mais sabedoria? Temos mais informação, mas será que temos mais discernimento? Temos mais liberdade de expressão, mas será que aprendemos a falar melhor? A pergunta decisiva não é se somos mais modernos que os antigos, mas se somos mais profundos que eles. Uma sociedade que perde a capacidade de pensar criticamente torna-se presa fácil da manipulação, da polarização e do espetáculo.

Quando a opinião vale mais que o pensamento, a superficialidade passa a ser confundida com sabedoria.

Luiz Sureki, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE

22/10/2026

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