Elton Vitoriano Ribeiro, SJ
A convivência humana é uma constante busca por sentido, e o diálogo para a filosofia constitui a ponte fundamental pela qual nos aproximamos do mistério do outro. No entanto, em nosso tempo, experimentamos com frequência exaustiva a desconcertante sensação de que a comunicação interpessoal e social estão se fragmentando. Onde esperávamos o encontro, encontramos o ruído. Onde buscávamos a construção coletiva do saber, deparamos com o impasse. Onde esperávamos a partilha, encontramos o dissenso. A questão filosófica que surge é: porque, às vezes, o diálogo pode falhar?
Ora, na maioria das vezes essa falha não decorre simplesmente da ausência de gentileza, boa vontade ou polidez verbal. Trata-se de um conflito estrutural profundo sobre como concebemos o conhecimento, a verdade e as condições sob as quais nos apresentamos ao outro. Por exemplo, ao olharmos para as intensas discussões identitárias do presente brasileiro, em especial aquelas centradas nas questões de raça, gênero e periferias sociais, percebemos o choque entre matrizes epistêmicas diferentes. Por um lado, a tradição que aposta em uma razão universal e comunicativa. Por outro lado, a tradição de que todo discurso traz consigo as marcas indeléveis do lugar social e histórico de quem o pronuncia.
Na verdade, nenhuma destas tradições são fechadas aos argumentos das outras. Talvez, a questão mesma seja a do foco que se dá a um determinado momento. Uma tradição filosófica de vertente iluminista, ergueu-se sobre o ideal do jogo de dar e receber razões. Aqui, o debate público supõe uma arena neutra e horizontal, na qual os participantes suspendem suas particularidades sociológicas para submeterem suas proposições ao escrutínio da lógica, das evidências e do melhor argumento. O diálogo legítimo exige que todos joguem sob as mesmas regras epistêmicas, oferecendo justificativas universais que possam ser compreendidas e avaliadas por qualquer agente racional.
Outra tradição filosófica de vertente contextualista lança, primeiramente, o olhar sobre as assimetrias históricas da sociedade. Percebemos por que esse modelo pode parecer, por vezes, insuficiente ou insincero. É aqui que emerge a relevância do conceito de lugar de fala, popularizado no Brasil por pensadoras como Djamila Ribeiro. Longe de significar uma interdição simplista, como se apenas indivíduos pertencentes a determinado grupo tivessem autorização para tratar de um tema, o lugar de fala recorda que a experiência vivida da opressão confere uma autoridade epistêmica singular. Trata-se de um saber corporificado, prático e existencial que não pode ser totalmente assimilado por quem observa o fenômeno apenas do lado de fora.
Ora, se por um lado, o universalismo abstrato corre o risco de ignorar o peso das desigualdades materiais e simbólicas; por outro lado a absolutização da identidade pode descambar em um impasse igualmente estéril. Quando o conceito de lugar de fala é distorcido nas redes sociais e em certos nichos acadêmicos, ele deixa de ser um instrumento de ampliação do debate e passa a operar como mecanismo de interdição.
O ponto culminante desse travamento ocorre mediante a falácia Ad Hominem. Essa falácia consiste em invalidar ou rejeitar um argumento não pelo seu conteúdo intrínseco, pela sua coerência interna ou por seus dados empíricos, mas tão somente pela identidade social, racial ou de gênero de quem o enuncia. Nesse cenário, a identidade transforma-se em um teste de pureza e em um salvo-conduto absoluto. O debate perde seu caráter de investigação racional da realidade e aproxima-se de uma dinâmica dogmática. Como nos alertam pensadores críticos do movimento negro e das ciências sociais, de Achille Mbembe a Frantz Fanon, hipertrofiar a identidade a ponto de torná-la uma barreira intransponível aprisiona o próprio sujeito marginalizado em um gueto epistêmico, retirando-lhe o direito de teorizar sobre o mundo, sobre a economia e sobre o universal. Assim, se a experiência subjetiva for colocada acima de qualquer crítica ou evidência, a própria ideia de ciência, empatia e solidariedade humana desmorona, pois ninguém mais poderia compreender a dor do outro ou construir pontes de transformação coletiva.
Para desatar esse nó comunicativo faz-se urgente resgatar a intenção ética original da reflexão sobre o lugar de fala e articulá-la, de forma indissociável, ao conceito de lugar de escuta. O lugar de fala cumpre a função crucial de desmascarar a falsa neutralidade. Ele evidencia que até mesmo o discurso tido como universal fala de um lugar determinado. Trata-se de somar vozes ao debate público, enriquecendo o mosaico da compreensão humana. Todavia, o lugar de fala só realiza sua vocação emancipatória quando encontra reciprocidade no lugar de escuta.
Digo isso porque escutar não é mera atitude passiva ou silenciamento forçado; é a disposição interior para a acolhida e para a validação da experiência do outro. A escuta ativa antecede a disputa lógica. O interlocutor que fala de uma posição de privilégio deve assumir o compromisso ético de escutar com humildade, reconhecendo os limites de sua própria vivência e a legitimidade das urgências trazidas pelos grupos marginalizados. Por sua vez, o sujeito que enuncia a sua dor vivida precisa aceitar o desafio de traduzi-la no espaço público, submetendo suas formulações ao escrutínio coletivo para que se torne possível a persuasão e a aliança política. O diálogo verdadeiro caminha quando a urgência da vivência se une ao distanciamento crítico, estabelecendo regras mínimas de respeito e aprendizado mútuo. A superação das falhas do diálogo exige que não nos detenhamos apenas na denúncia dos impasses, mas que caminhemos na direção de propostas afirmativas e transformadoras. É na contribuição da filósofa e feminista Nancy Fraser que encontramos um horizonte fecundo para rearticular essa discussão.
Nancy Fraser nos chama a atenção para os perigos do que chama de neoliberalismo progressista, um fenômeno no qual as lutas pelo reconhecimento cultural (linguagem, representatividade, diversidade simbólica) foram divorciadas das lutas pela redistribuição econômica (trabalho, salário, moradia, saúde). Quando o debate se limita ao campo moral e simbólico, o diálogo tende a travar em disputas de autoridade e tribunal de regras de fala. Para que o jogo de dar e receber razões seja viável na prática, Fraser defende o princípio da paridade de participação, o qual exige duas dimensões indissociáveis: (1) A Dimensão Intersubjetiva (Cultural): O respeito igualitário às diferenças e ao valor de cada grupo social, garantindo o devido reconhecimento e o lugar de escuta. (2) A Dimensão Objetiva (Econômica): A distribuição justa dos recursos materiais, sem a qual os vulneráveis continuam impedidos de participar da vida pública como pares e iguais.
É nessa encruzilhada que se diferencia a eficácia política entre as lutas afirmativas e as lutas transformativas. Por lutas afirmativas entendemos aquelas que buscam corrigir as iniquidades dentro da estrutura existente, valorizando identidades ou redistribuindo recursos pontuais sem alterar a lógica de fundo. Embora necessárias em curto prazo, elas frequentemente mantêm intactas as divisões de grupo e podem gerar ressentimento ou fragmentação defensiva. Já, por lutas transformativas temos aquelas que visam reestruturar o próprio sistema que gera a exclusão. No âmbito cultural, desconstroem os essencialismos e as barreiras que impedem a comunicação; no âmbito econômico, alteram a divisão do trabalho e garantem condições materiais comuns de dignidade.
O diálogo, portanto, só pode triunfar quando superamos a tentação do isolamento e do fechamento dogmático. Quando integramos a centralidade da experiência vivida à busca rigorosa por justiça redistributiva e universal, o diálogo deixa de ser uma armadilha ou um monólogo de surdos. Ele volta a ser o que sempre deveria ter sido, a saber, um exercício dialógico e transformador capaz de construir uma comunidade em que a diferença seja celebrada sobre a rocha firme da igualdade humana.
Elton Vitoriano Ribeiro, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia, e reitor da FAJE
29/10/2026

Imagem: Kelly Sikkema – Unsplash