Geraldo Luiz De Mori, SJ
“Meu filho, não te esqueças do que te ensinei …” (Pr 3,1).
No dia 27/10/2026 a Igreja católica recordou o sétimo ano do encerramento do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, convocado pelo Papa Francisco em outubro de 2017 para debater os desafios pastorais, sociais e ambientais desta importante região do planeta. O Sínodo teve como tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Sua preparação foi o laboratório a partir do qual se realizou a última Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, conhecido como Sínodo da Sinodalidade. Por que “fazer memória” do sétimo ano do final deste evento eclesial?
O significado do número sete na Bíblia é uma boa provocação para este ato de fazer memória. Este número, derivado do termo hebraico “chevá”, remete à ideia de “estar cheio”, “satisfeito” ou à ideia de “ter o suficiente”. Em geral, ele é identificado com o termo “plenitude”. No relato da criação de Gn 1,1-2,4a, por exemplo, o sétimo dia é o dia em que Deus já não cria mais nada, pois toda a obra tinha sido completada, ou seja, tinha alcançado sua plenitude, pois Deus tinha feito o “suficiente”. O sétimo dia é então “shabbat”, termo bíblico que significa repouso, paz, e convite ao louvor e à ação de graças. Não por acaso se tornou o dia litúrgico por excelência no judaísmo. Além deste sentido litúrgico, o número sete também ganhou um sentido ético, como aparece na prescrição do “ano sabático” ou “jubileu”, que remete à memória da libertação recebida no passado e devendo ser concedida a quem não a tinha no presente. Em parte, ao mostrarem Jesus realizando seus gestos salvíficos de cura e libertação do mal no sétimo dia, os evangelhos conferem a este dia o caráter escatológico de um tempo que se “cumpre”, pois nele o “reino de Deus está próximo” (Mc 1,15). Até que ponto o Sínodo para a Amazônia pode ser celebrado como algo plenamente realizado? O que o sétimo ano de sua realização provoca no conjunto da Igreja e, em particular, no seio das Igrejas mais diretamente implicadas pelas questões amazônicas, pois se encontram na Amazônia?
O Papa Francisco, que convocou o Sínodo para a Região Pan-Amazônica, esteve fortemente implicado em sua realização, buscando mostrar o significado desta região para o conjunto do planeta, seja por conta da importância de seu bioma para o equilíbrio do ecossistema mundial, seja por conta de sua riqueza e diversidade sociocultural e religiosa. O processo de preparação do Sínodo foi extremamente inovador. O Pontífice argentino já havia inovado nos dois sínodos anteriores, o da Família e o da Juventude, ao propor uma ampla escuta às igrejas locais. O momento de escuta no Sínodo amazônico ganhou, porém, proporções até então desconhecidas. Mais de 80 mil pessoas participaram do momento da escuta, sobretudo através das atividades promovidas pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM). Durante sua realização, em 2019, vários grupos, muitos deles constituídos por representantes dos povos originários da região, realizaram atividades paralelas em Roma, suscitando interesse do conjunto da Igreja, mas também reações contrárias de certos setores, que acusaram a Igreja de idolatria. Alguns temas debatidos, como o da ordenação de homens casados e o da criação de novos ministérios, deram origem a reações diversas. O tema de um ritual amazônico igualmente suscitou debates.
O resultado final do Sínodo se encontra em dois documentos importantes: o Documento Final, articulado ao redor do apelo à conversão: integral (capítulo 1), pastoral (capítulo 2), cultural (capítulo 3), ecológica (capítulo 4), sinodal (capítulo 5); a Exortação Pós-Sinodal Querida Amazônia, articulada ao redor da metáfora dos “sonhos”: social (capítulo 1), cultural (capítulo 2), ecológico (capítulo 3), eclesial (capítulo 4). Três iniciativas importantes foram implementadas na região a partir desses documentos nos últimos sete anos: (1) a Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), organismo criado para implementar os compromissos do Sínodo e promover a ecologia integral e a sinodalidade na região; (2) o rito amazônico, ainda em processo de elaboração, que já deu passos significativos; (3) uma universidade amazônica, que, mais que a criação de uma nova instituição acadêmica, tem articulado instituições universitárias de países da região em vista de um trabalho em redes, privilegiando, sobretudo, propostas formativas online.
Se se leva em conta o significado simbólico do número sete ao se fazer memória dos sete anos deste evento na Igreja em geral e na Igreja do Brasil em particular, haveria que se perguntar: as conversões e os sonhos propostos nos dois documentos realmente se realizaram? Até que ponto, de fato, o conjunto da Igreja se “amazonizou”, como indicavam os apelos às diversas conversões presentes no Documento Final? A Amazônia tornou-se uma questão que, efetivamente, faz parte das preocupações de cada Igreja local, no caso do Brasil, ou é somente um jargão retórico, que não tem desdobramento nenhum nas práticas pastorais e na vida cotidiana? Do ponto de vista pastoral, em 2025, a CNBB realizou uma Campanha da Fraternidade ao redor do tema da Ecologia integral, mas até que ponto tudo o que foi então realizado fez com que se convertessem mentes e práticas?
Um sinal de que tanto os sonhos da Querida Amazônia, quanto as conversões do Documento Final ainda não realizaram o “suficiente”, presente na simbólica do número sete, é dado pelas contínuas queimadas na região, fortemente presentes nas últimas semanas no noticiário nacional, e pelos resultados das eleições em alguns estados importantes a Amazônia Legal, que votaram massivamente em candidatos que não têm como agenda o cuidado desse bioma vital para a humanidade. O mesmo se pode dizer das autorizações para a prospecção do petróleo na Margem Equatorial da bacia amazônica, região de maior biodiversidade do planeta, e, por isso mesmo, que mais necessita ser protegida e cuidada, pois muito do futuro da vida depende do que acontece nesse lugar.
A implementação dos documentos do Sínodo não diz respeito apenas aos que vivem na região amazônica, mas a todos os países cujos territórios pertencem a essa região e, mais ainda, a toda a humanidade. Esta, talvez, tenha sido a grande intuição de Francisco ao convocar o sínodo. A Amazônia não diz respeito apenas ao continente sul-americano, mas à humanidade inteira, e por isso, o verbo difundido ao redor do que foi discutido neste importante evento eclesial, a saber, “amazonizar”, concerne e todos. É como que um convite para implicar-se com o “fazer o suficiente”, ou seja, ajudar o mundo a se amazonizar, a entrar no “sétimo dia”, a conhecer certo “repouso”, respeitando os ciclos da terra, deixando-se efetivamente converter à perspectiva de uma ecologia integral. O mesmo se pode dizer da Encíclica Laudato sí, que, apesar de ter despertado muitas consciências ao cuidado da casa comum, ainda está nos preâmbulos de uma verdadeira recepção, tanto na vida de cada seguidor e seguidora de Jesus de Nazaré, quanto nas distintas iniciativas que implicam grupos, tanto os da pastoral, quanto os das diferentes formas como se convive com o mundo como casa, da qual se cuida, pois é o habitat que permite que cada pessoa possa ter uma vida digna, mas não só da que é compartilhada pelo ser humano, mas também a de tantos seres vivos, cuja interrelação é fundamental para que o mundo seja de fato casa para todas as criaturas queridas por Deus.
Oxalá a celebração do sétimo ano do final Sínodo para a Amazônia desperte em cada mente e coração o apelo a não esquecer o que nele foi ensinado e o que dele se deve aprender. Que o amazonizar faça de fato parte dos sonhos de toda a Igreja e que toda ela também possa se deixar converter pelas diferentes dimensões às quais ele a todos chamou. Que o fazer memória do sétimo ano deste sínodo seja um compromisso profético para que, efetivamente, toda a Igreja celebre e realize o “sétimo dia” antevisto neste Sínodo.
Geraldo De Mori SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
29/10/2026

Foto: Vatican News