Luiz Sureki, SJ
Perder a mãe não é apenas perder alguém. É perder o lugar invisível onde o mundo fazia sentido antes mesmo de sabermos explicar o mundo.
Durante a infância ‒ e muitas vezes durante toda a vida ‒ a mãe representa algo mais profundo do que uma simples presença afetiva. Ela é, de certo modo, o primeiro horizonte de segurança, o primeiro abrigo onde a existência se torna habitável. Antes mesmo de compreender a linguagem ou de formular conceitos, o ser humano aprende, por meio da mãe, que o mundo pode ser um lugar confiável.
Por isso a perda da mãe não produz apenas saudade. Ela provoca uma forma discreta de desorientação. A vida continua, os dias seguem seu ritmo, as tarefas permanecem as mesmas, mas algo fundamental parece ter se deslocado. É como se o eixo invisível da terra tivesse mudado ligeiramente de posição: tudo continua girando, mas um pouco fora do lugar.
Isso acontece porque a mãe não é apenas uma pessoa. Ela é também uma espécie de referência interior. Em muitos momentos da vida ‒ quando algo falha, quando algo dói, quando algo se rompe ‒ existe um movimento quase instintivo de retorno. Como se a vida soubesse para onde voltar.
Quando a mãe parte, esse endereço desaparece.
O luto da mãe possui também uma característica singular: ele não aparece apenas nos momentos de tristeza. Muitas vezes ele surge justamente nas horas felizes. Um acontecimento bom, uma conquista inesperada, um momento de alegria, desperta espontaneamente um pensamento simples: “Ela gostaria de ver isso!”
Nesse instante percebemos algo silencioso: a alegria permanece, mas agora acompanhada de uma ausência. É como se, no interior da memória, existisse sempre uma cadeira reservada que ninguém mais poderá ocupar.
Existe ainda outra dimensão desse luto que raramente é mencionada. Quando a mãe falece, não sentimos falta apenas do que ela foi. Sentimos também falta de uma parte de nós mesmos.
Cada pessoa possui versões de si que só existem em determinadas relações. Há algo em nós que só se manifesta diante de um amigo, algo que só aparece diante de um filho, algo que só existe diante da pessoa amada. Do mesmo modo, existe uma versão de nós que só existia porque nossa mãe estava viva. Quando ela parte, essa versão desaparece silenciosamente. Não há despedida formal para isso. Mas algo dentro de nós se transforma.
Por isso, a ausência da mãe nos confronta com uma experiência paradoxal. O mundo continua esperando de nós maturidade, força, autonomia. A vida adulta prossegue com suas exigências. No entanto, em algum lugar profundo da alma, permanece um sentimento de orfandade que não se dissolve completamente. Não se trata de fraqueza. Trata-se da marca da origem.
Na tradição bíblica, a vida humana é sempre compreendida como dom recebido. Ninguém se dá a vida a si mesmo. Cada existência começa com um gesto de acolhimento, um corpo que nos gerou, um cuidado que nos sustentou. A mãe, nesse sentido, torna-se um sinal concreto dessa gratuidade fundamental da vida.
Perdê-la significa também perceber com maior clareza essa verdade: somos, desde o início, seres recebidos.
É por isso que a memória da mãe nunca desapareçe totalmente. Ela não permanece apenas nas fotografias ou nas histórias contadas. Permanece também na forma como aprendemos a amar, na maneira como olhamos o mundo, na capacidade de cuidar de outros. De certo modo, aquilo que recebemos continua vivendo em nós.
Por isso o luto da mãe não é algo que simplesmente se supera. Ele se transforma. Com o tempo, a ausência deixa de ser apenas dor e torna-se também memória fecunda. A mãe deixa de ser presença física, mas permanece como origem interior.
Isso explica por que, às vezes, no meio de um dia comum, sem aviso e sem motivo aparente, sentimos uma saudade que não cabe em palavras. Não é apenas tristeza. É o coração lembrando, silenciosamente, de onde veio.
Talvez o título acima: “a ausência da mãe”, não seja apropriado. Afinal ela não está ausente. O que ocorre é que fomos obrigados a (re)encontrá-la de outro modo na nossa vida.
Porque a mãe é, para cada ser humano, o primeiro nome da palavra “casa”.
Luiz Sureki, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE
07/05/2026

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