Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM
As recentíssimas eleições no Brasil constituem uma excelente ocasião para analisar as relações atuais entre mídia e poder. De saída, diríamos que novamente as redes sociais roubaram a cena do debate político. Verificou-se, na prática, o esvaziamento das discussões políticas em espaço público. E, como sabemos, o espaço das redes tem fomentado, na maioria dos casos, situações de monólogo e de endogenia. Informações são veiculadas e partilhadas entre grupos constituídos por afinidades e, quase nunca, refletidas. A preocupação obsessiva com a velocidade da transmissão e com a quantidade das informações veiculadas vem se sobrepondo à reflexão e confrontação necessárias no tocante às informações recebidas. Faz, de fato, pensar a afirmação de Luiz Gonzaga Belluzzo: “O totalitarismo do terceiro milênio não usa coturnos nem câmaras de gás. Usa a informação que não pensa a si mesma”.
Outro fenômeno que teve a mídia como cúmplice foi deslocar as discussões políticas para o âmbito moral e religioso. Construiu-se, no fundo, uma verdadeira “guerra cultural” no intuito de encobrir a real agenda política “ultraliberal”. E a “guerra social” inventada pela ultradireita com o apoio do mercado e da mídia se deu mediante o apelo aos afetos e sentimentos mais recalcados da sociedade brasileira que, acreditando defender seus valores conservadores, acabou engolindo a isca e reagindo violentamente. Trata-se do fenômeno da “narrativa do ódio” que vem se espalhando pelo Brasil há algum tempo.
Em certo sentido, caíram as máscaras da sociedade brasileira. O mito do “brasileiro cordial” se desfez face à violência que se encontra nas bases de nossa construção cultural. Constituímos, de fato, uma nação que nunca se permitiu reconciliar com as mazelas de seu passado histórico: colonialismo, escravagismo, patriarcalismo, sexismo e regimes ditatoriais. E, justamente por isso, pôde-se viver durante tanto tempo na ilusão de ser um país miscigenado e não racista, ou ainda de anistiar torturadores e títeres sem jamais submeter a juízo os crimes da ditadura civil-militar. Talvez tenhamos feito cicatrizar superficialmente muitas de nossas feridas sem limpá-las por dentro e, nos últimos tempos, elas tenham se inflamado.
Essa “narrativa do ódio”, tão bem inoculada pela mídia e pelas redes sociais, cria situações de histeria coletiva e falta de polidez no trato com as pessoas, tornando-se expressão de uma moral violenta e hedionda. Excogitada por parte dos setores endinheirados do país, conta com a tolice dos que permanecem entre os dois polos, a “classe mediana”, e provoca a subserviência dos “negativamente privilegiados”. Talvez a expressão mais boçal dessa invenção tenha sido o disparo via WhatsApp de Fake News. E, assim, pela internet e outras redes sociais pessoas e grupos, auxiliados por maquinações robóticas, se sentiram à vontade para mentir, caluniar, destruir os outros.
Já sabíamos, pelas leituras feitas dos diálogos platônicos, dos textos de Maquiavel, Spinoza, Freud e Marx, apenas para citar alguns, que os demagogos constroem ideologias para cegar as massas despertando e potencializando seus mais baixos interesses, à maneira de um velho controlador de marionetes. Com razão, dizia Marx, em A Ideologia Alemã, que as ideias dominantes são as ideias da classe dominante. E, nesse sentido, os disparos de Fake News pelo WhatsApp foram utilizados para a pedagogia da servidão. Interesses e teses da FIESP, banqueiros e outros empresários se transformaram em milhões de votos ao serem internalizados em eleitores de massas empobrecidas de nosso país. E, por isso, diríamos que o que vivemos recentemente não se tratou apenas de uma parcial derrota eleitoral, como tantos nos querem fazer crer, mas a consagração eleitoral de uma vitória social e econômica.
Fomos habituados a separar e contrapor civilização a barbárie. E não estamos nos dando conta de que a maior de todas as barbáries tem sido engendrada justamente pela civilização ocidental. Por mais paradoxal que isso possa parecer. Em sua fase senil, o capitalismo se apresenta em nossos dias na versão histórica do “neoliberalismo”. Trata-se, nas palavras de Horacio Machado Araóz, da “era da acumulação em tempos de esgotamento do mundo e de crise terminal das energias vitais, tanto das primárias (que brotam da Terra) como das sociais (que surgem e se mobilizam pelo trabalho)”. E para progredir, o neoliberalismo necessita de “fraturar as conexões vitais-existenciais entre corpos-trabalho e Terra-territórios de vida”.
Somos vítimas, portanto, de uma “civilização da barbárie” – perdoem-nos o uso do oxímoro – onde formas de violência colonial coexistem e convergem: desde a violência explícita de expulsar populações de seus territórios e de despojá-las de suas fontes de nutrientes como água, ar e energia, passando pelo terror da repressão e a criminalização dos protestos até a “sutil” violência do fetichismo. Cúmplice do mercado, da tecnociência e da mídia, o fetichismo anestesia os corpos, sequestrando-lhe emoções e sentimentos, além de dominar as almas colonizando seus desejos.
Trata-se da violência imposta por um regime de regulação e de expropriação das emoções que se constitui como violência material e simbólica: usurpação de energias físicas, capacidade de trabalho, emoções, sentimentos e desejos. E esta expropriação alienante se dá mediante a redefinição das relações, sociabilidades, sensibilidades e subjetividades sob a lógica do interesse econômico, da funcionalidade e da espetacularização.
Essa violência se inscreve na própria pele, assinalando de maneira indelével os corpos, de modo a criar aquela sujeição tão bem caracterizada por Franz Fanon como “epidermização”. Corpos e almas, portanto, que trazem a marca da subalternidade internalizada. E, porque expropriados de sua própria sensibilidade, se tornam incapazes também de perceber e sentir a dominação sob a qual se encontram. Mais do que a razão, nossas sociedades estão perdendo o coração. Encontramo-nos – para citar uma afirmação frequente de nosso querido e saudoso papa Francisco -, em uma situação de “globalização da indiferença”. E talvez por isso não haja mais reação social possível nem emergência de energias de indignação, posto que, cegados, os olhos não veem e, anestesiados, os corpos não sentem. E, infelizmente, a mídia tem desempenhado um papel fundamental e imprescindível em tudo isso.
Sinivaldo S. Tavares, OFM é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
08/10/2026

Foto: Reza Gholipour – Unsplash