Geraldo Luiz De Mori, SJ
“Por isso Deus soberanamente o elevou e lhe conferiu o nome que está acima de todo nome” (Fl 2,9)
O calendário litúrgico da Igreja católica é marcado nesses dias por duas celebrações que concluem o tempo pascal: a festa da Ascensão do Senhor, celebrada no Brasil em 2026 no dia 17 de maio, e a festa de Pentecostes, celebrada no dia 24 de maio.
A primeira destas festas, a da Ascensão, celebrada no Brasil no que seria o sétimo domingo do tempo pascal, deveria, na verdade ser celebrada 40 dias depois da páscoa, ou seja, na quinta feira da sexta semana da páscoa, correspondendo ao que narra o livro dos Atos dos Apóstolos (At 1,1-3). Como na bíblia hebraica os números possuem um valor simbólico, os 40 dias remetem ao significado deste número no imaginário judaico: 40 anos do povo na travessia pelo deserto, que culmina com o seu ingresso na terra prometida (Nm 14,33); 40 dias de dilúvio, que recorda a interrupção das chuvas e o início da nova criação (Gn 7,4); os 40 dias de jejum de Moisés no monte Sinai (Ex 24,18); os 40 dias de caminhada do profeta Elias até o monte Horeb (1Rs 19,8); os 40 anos dos reinados de cada um dos três primeiros reis de Israel: Saul (At 13,21), Davi (2Sm 5,4-5)e Salomão (1Rs 11,42); os 40 dias de profecia de Jonas em Nínive (Jn 3,4); os 40 dias de jejum de Jesus no deserto, após seu batismo (Mt 4,1-2; Mc 1,12-13; Lc 4,1-2). O fato de a quinta feira da sexta semana da páscoa não ser feriado no país, como também em outros países, levou o Vaticano a permitir a celebração desta solenidade no 7º domingo.
Para além desta referência litúrgica, qual o significado teológico da festa da Ascensão? O termo “ascensão” evoca o verbo que Paulo, ao citar um hino litúrgico antigo na carta aos filipenses (Fl 2,6-11), lembra ao falar do mistério de Cristo. O texto começa, no versículo anterior (Fl 2,5), com um convite: “tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus”. A partir daí, evoca a condição na qual ele existia (a da forma de Deus), que o fez não usar de seu direito de ser tratado como um deus, mas, pelo contrário, se despojando desta condição para assumir a forma de escravo, tornando-se semelhante aos seres humanos, e abaixando-se ainda mais, ao tornar-se obediente até a morte e morte de cruz. Nesse primeiro movimento, há uma “descida”, que é identificada com um “aniquilamento”, como mostra o termo “kénosis”, utilizado no hino. Em seguida, o movimento se inverte, pois fala que Deus “soberanamente o elevou”, conferindo-lhe um nome que está “acima de todo nome”, a fim de que “todo joelho se dobre, no céu, na terra e sob a terra”, e que toda língua proclame a senhoria de Jesus Cristo, para a glória de Deus Pai. Ao movimento vertical da descida da condição mais sublime, corresponde o da subida à mesma condição, mas já marcada por todos os efeitos da vida do elevado.
Segundo muitos estudiosos, o termo “ascensão” ou “elevação” é o mais antigo para falar do que aconteceu com Jesus depois de sua morte. Em geral, na maioria das línguas, predomina o termo ressurreição, que evoca dois termos gregos: o de ser despertado após o sono, ou o de se levantar estando prostrado. Ao dizer que Jesus ressuscitou, a linguagem do Novo Testamento quer justamente lembrar que ele não se encontra mais no “sono da morte”, que ele foi despertado, ou que ele não jaz mais prostrado no túmulo, mas que se levantou ou foi levantado, que despertou ou foi despertado. O termo “ascensão” ou “elevação”, que é utilizado para a solenidade que se celebra ao redor deste termo, evoca a nova condição na qual Jesus, humilhado na cruz, se encontra junto de Deus, a saber, a de alguém que foi colocado junto dele, ou, segundo alguns textos, à sua “direita”, que é justamente a condição de ser como Deus. Trata-se da linguagem privilegiada para evocar que aquele homem que havia caminhado com seus discípulos e realizado tantos sinais prodigiosos, que fora injustamente entregue, julgado, condenado e morto, tinha sido reconhecido como “Senhor”, ou seja, como Deus.
Nem todos os textos do Novo Testamento afirmam, porém, que a nova condição na qual o Crucificado ressuscitado se encontra, se deu 40 dias depois da ressurreição. Para João, por exemplo, Jesus já é Senhor no alto da cruz, ou seja, no momento mesmo de sua morte, quando ele entrega o “Espírito” (Jo 19,30). A cronologia dos 40 dias, em geral, se estabeleceu a partir do livro dos Atos dos Apóstolos, e coexiste, por exemplo, com a que é afirmada em João, Mateus e no próprio evangelho de Lucas (Lc 24,50-52) que fala que ele foi elevado aos céus. Além de remeter ao número 40, que lembra uma temporalidade plenamente realizada, o fato de muitas igrejas cristãs terem guardado essa cronologia em seu calendário, também quer recordar isso. Nesse sentido, é interessante perceber o que ocorre após a “ascensão” de Jesus nos Atos dos Apóstolos. Os discípulos ficam como que parados olhando para o céu e dois homens lhes perguntam por que estão olhando para o céu. No fundo, o que aconteceu em Jesus, que, após passar pela humilhação foi alçado ao mais alto do céu, possuindo um nome acima de todo nome, é o que é prometido para toda a humanidade, também chamada a realizar-se plenamente naquele que “aprendeu pela obediência o que significa ser Filho” (Hb 5,8).
Sob muitos pontos de vista a “volta de Jesus ao Pai”, celebrada na festa da Ascensão, não é só a entrega dele à condição que existia antes de vir ao mundo, nem tampouco um adeus de seus amigos, mas um recordar que seu caminho, que passa pela assunção plena do que significa ser humano, que implica muitas vezes não só padecer a condição humana, mas também tudo o que nela é atravessado pela maldade e pelo pecado, é o caminho de realização da verdadeira humanidade. Trata-se sim, de reconhecer e de se colocar de joelhos diante do “nome” que está acima de todo nome, mas também de descobrir no caminho por ele vivido, ou seja, o caminho do “servidor”, que se coloca aos pés de quem vive uma condição de humilhação e injustiça, o caminho que humaniza plenamente. Não por acaso, nas últimas décadas, do ponto de vista teológico, mas também filosófico, o tema da “kénosis”, ou seja, do abaixamento, identificado com a humilhação, tem sido visto como o caminho pelo qual se pode chegar à plena humanidade. Não porque a fé cristã queira canonizar o sofrimento, a humilhação e a injustiça, mas porque na forma como Jesus atravessou esse caminho se encontra a plena revelação do que é a forma da humanidade em sua plena realização. No contrário do que é o humano, ou seja, na humilhação, pode se realizar a plena humanidade, desde que se descubra como viver junto aos humilhados e desumanizados o que viveu Jesus. Na verdade, a fé cristã canoniza o “amor que dá a vida por seus amigos”, em gestos que reinstauram a verdadeira humanidade. Por isso, o “nome acima de todo nome” é a vocação para a qual é chamada cada pessoa que se deixa modelar por Aquele que, “sendo rico se fez pobre para nos enriquecer sobremaneira com sua pobreza (2Cor 8,9).
Geraldo Luiz De Mori, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
14/05/2026
