A experiência mística

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Alfredo Sampaio Costa, SJ

Com esse terceiro texto, completamos nosso comentário sobre a compreensão de Domínguez Morano sobre a Mística, a partir de sua obra “Mística y Psicoanálisis”.

Ele centra sua atenção na caracterização da experiência mística como experiência de encontro com o Mistério mais profundo de nossa existência.

Morano apoia-se nas afirmações de J. Martín Velasco, que  afirma que ali “onde se dá uma experiência do Mistério, em termos religiosos, do fundo da realidade, em termos profanos, estamos diante de um fato que podemos com razão denominar “místico”, ainda que em um grau e sob uma forma que pode não comportar aspectos que caracteriza a experiência desses sujeitos aos quais costumamos denominar de “místicos” no sentido em que a história da espiritualidade atribui a esta palavra (J. Martín Velasco, El fenómeno místico. Madrid: Editorial Trotta 2009, 290-291 e 437-438).

Para Morano, o místico não é mais do que um crente que exercita de uma forma determinada, quiçá com uma peculiar intensidade subjetiva, sua experiência de fé.  

A mística constitui, assim, uma vertente fundamental de toda experiência religiosa, enquanto em tal experiência (ainda que não só nela) há de ter lugar, de um modo ou de outro, um desejo de comunicação, união, encontro amoroso e gozoso com aquela realidade última na qual se crê.

O grau no qual essa união se experimente poderá ser muito diverso e com modalidades muito diferentes. Mas poderíamos afirmar que ao falar de experiência mística, vamos nos referir a um tipo de experiência de vinculação amorosa e gozosa com o Mistério que todo sujeito crente pode reconhecer nele.

Com efeito, não se pode pensar em uma experiência religiosa na qual o anelo de união com Deus não se encontre presente de um modo ou de outro, ainda que não se possa reconhecer o que historicamente se veio a se chamar “místico”. Mas, tanto nas experiências unitivas mais extraordinárias como nas mais simples e cotidianas, podemos falar com fundamento de mística enquanto vivência de relação, contato, vinculação amorosa com o que se considera o fundamento e origem da própria existência.  

Como assinala muito bem Martín Velasco ao tratar do núcleo originário da experiência mística, esta é vivida com frequência como uma petição ardente a Deus para que diga seu nome, mostre seu rosto, descubra sua presença: “mas todo esse processo está animado, movido por um desejo ardente, pela força atrativa do amor, e esta só se aquieta na união com o “objeto” amado”. “Por isso”, continua, “os escritos dos místicos que contêm uma infinidade de ensinamentos, que abordam uma infinidade de temas, em última instância só tratam de uma coisa: da união com Deus” (Martín Velasco, El fenómeno místico, 2009, 386).

Para Evelyn Underhill, a mística é a expressão da tendência inata do ser humano para a completa harmonia com a ordem transcendental, seja qual for a formulação teológica com que se entenda essa ordem. Daí que toda pessoa que desperta – ainda que ligeiramente – à consciência do transcendente inicia o mesmo caminho seguido pelos místicos (E. Underhill, La práctica del misticismo, Madrid: Editorial Trotta 2017,10).

Mesmo que seja de um modo fragmentário, de iniciantes, cada vez que nós nos debruçamos na contemplação e vivemos uma experiência de encontro com o Absoluto, tocamos algo da experiência mística dos grandes santos.

Desde uma perspectiva católica, Karl Rahner criticava com razão toda uma teologia da mística que acentuava muito o caráter extraordinário e elitista dos fenômenos místicos, fazendo pensar que estes encarnassem um nível superior ao resto dos crentes, quando na realidade só manifestam um momento interno e essencial da fé comum a todos (K.Rahner, Experiencia del Espíritu. Madrid: Narcea 1978, 67ss).

O místico nos abre ao misterioso, ao que não pode ser manipulado, ao que nos ultrapassa, ao invisível, ao não evidente para o entendimento. E a fé não pode se identificar nem com a ética nem com doutrina, mas sim com a mística (K. Berger, Jesús, Santander: Sal Terrae 2009, 137-147).

No mesmo sentido, Martín Velasco afirma que “identificar a perfeição cristã com o exercício da vida mística pareceria excluir da mesma a imensa maioria dos cristãos” (J. Martín Velasco, El fenómeno místico, 2009, 451. Em uma linha coincidente, o teólogo A. Torres Queiruga nota que o místico o que faz é descobrir algo que, de alguma maneira, todo crente pressente (A. Torres Queiruga, La constitución moderna de la razón religiosa. Prolegómenos a una filosofía de la religión. Estela: EVD1992, 238-240).

Temos que diferenciar, pois, o que seria a mística como uma vertente sempre presente em toda experiência religiosa enquanto desejo de Deus e união amorosa e gozosa com ele e o que se poderia reconhecer como uma experiência de particular intensidade e características (extraordinárias ou não), mas que, por sua intensidade e pelo modo em que sobrevém ao sujeito, rompe seu nível existencial ordinário, marcando um “antes e um depois” dela.

Esse tipo de experiência mística, entendida em um sentido mais estrito, atrai o interesse particular daqueles que a consideram desde uma perspectiva psicológica.

O seu estudo, assim realizado, poderá manifestar de modo paradigmático o que em todo sujeito crente tem lugar quando a pessoa se põe em contato com a realidade suprema em que crê, ainda que esse contato não possua as características específicas que podemos observar nas grandes experiências das pessoas que consideramos grandes personalidades místicas.

Portanto, podemos afirmar que as grandes experiências místicas põem de manifesto de modo paradigmático as grandes questões que podem ser suscitadas para o entendimento e avaliação de toda experiência de fé e que, se o louco ou o gênio nos ajudam a compreender melhor o que, em um grau ou outro, existe em todo sujeito humano, também as experiências místicas extraordinárias, sãs ou insanas, nos ajudarão a compreender melhor o que subjaz e joga nessa vertente obrigada de toda experiência de fé que é a dimensão unitiva vivenciada com um ser que, de um modo ou outro, nos transcende. (Domínguez Morano, Mística y psicoanálisis, 35).

Por outra parte, o que essas experiências dos grandes místicos têm também de extraordinário, seja por sua intensidade ou por sua qualidade (visões, revelações, êxtases etc.) ocuparão também a atenção de muitos estudiosos em razão do caráter especial, fora do comum, que essas experiências possuem. Elas atraíram desde sempre a atenção de psiquiatras, psicólogos clínicos e psicanalistas interessados em todo fenômeno psíquico e, em especial, aqueles que, como ocorre na experiência mística, comportam chocantes semelhanças com o que eles observam e analisam em hospitais psiquiátricos ou gabinetes psicoterapêuticos.

Por fim, hoje tem atraído um especial interesse uma aproximação a uma mística profana, em consonância com os processos de secularização que acontecem em nossa sociedade ocidental. Essa mística não-religiosa, com efeito, se nos apresenta como um fenômeno cada vez mais extenso e reconhecido que obriga a repensar e a compreender melhor aspectos importantes da experiência mística tradicional, geralmente de caráter religioso.

Que possamos nos lançar cada vez mais com tremor e temor a viver no cotidiano de nossas experiências esse contato vivo e afetivo com Aquele que nos ultrapassa e que se revela no mais íntimo de nossas existências!

Pe. Alfredo Sampaio Costa, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

26/02/2026

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