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A força da convicção

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Manoel Godoy

“Ninguém pode viver sem crença. Nenhuma sociedade humana pode sobreviver sem uma convicção mínima que a mantenha de pé.” Assim se expressa Jean-Claude Guillebaud em seu livro “A Força da Convicção”. O problema, porém, que ele percebe, é que as convicções estão se tornando estranhas, cotejando o fanatismo. Em nome de algumas convicções, se engendram violências de todo o tipo. Matam em nome de Deus, por exemplo. Dessa forma, vamos assistindo ao emergir de inúmeras patologias vinculadas a crenças, a formas do crer. Entre nós, a articulação (ou justaposição sem muito nexo) entre religião e fascismo tem nos atemorizado. Para qualquer mente sã, essa união é patológica; fruto de mentes doentias que buscam seguranças com âncoras atiradas a esmo.

O que assistimos em nosso país nos deixa estarrecido, pois essa praga se espalhou por inúmeras comunidades cristãs de vertentes pentecostais, evangélicas e católicas. E são forças agressivas que se servem da estratégia de intimidação, colocando, muitas vezes, seus líderes em situações constrangedoras. A título de exemplo, nesses dias, numa celebração religiosa, frente à reflexão do agente religioso sobre as leituras bíblicas, que destacava o amor de predileção de Deus pelos pobres, um homem de meia idade se levantou e contestou. Ele argumentava que se Deus amasse mesmo a pessoa, ela jamais seria pobre, porque Deus quer todo mundo bem, com dinheiro no bolso e feliz. Esse não é um exemplo isolado. Muitos fiéis têm se revestido de coragem, ancorados em suas ideologias, e enfrentado aqui e acolá seus líderes religiosos.

Ignácio Ramonet, em sua obra “A geopolítica do Caos”, argumenta que a degradação das sociedades fortemente marcadas pelas desigualdades sociais faz emergir uma insurreição do irracional. A verdade pode ser identificada com uma falsa impressão do real repetida inúmeras vezes. As pessoas são levadas a crer e formar suas convicções sem nenhuma referência ao real. E aqui se destaca o poder das crenças. Muitas vezes, as pessoas revelam com enorme ferocidade suas crenças, defendendo suas convicções cegamente. Aliás, a cegueira, não a física, faz parte das patologias de um grupo significativo de pessoas que optam por não ver, quando a realidade contraria suas ideias. Nessa perspectiva, vale a pena lembrar a afirmação do Papa Francisco: “A realidade é mais importante que as ideias”.

Tratando do mundo das convicções, nada é mais perigoso do que o evento chamado de “novos convertidos”. Um convertido, seja em qualquer área, uma pessoa que mudou de crença, de ideologia, de posição, comumente se torna violenta contra os que ainda permanecem naquilo que um dia acreditou, gerando uma espiral de polêmicas sem chão na realidade. Guillebaud afirma: “Boa parte da violência polêmica cotidiana, com seu lote de excomunhões recíprocas e de ódios requentados, tem sua origem na estranha troca cruzada de crenças”. E mais interessante é perceber que os opositores se aproximam em inúmeros pontos. Como ainda fala tão sugestivamente Guillebaud, ao abordar essa guerra entre oponentes: “Penetra-se no infindável labirinto dos jogos de espelhos, das simetrias encadeadas e das sujeições recíprocas.” Daí que é preciso muito cuidado com os “novos convertidos”, pois facilmente eles passam de um extremo ao outro e se tornam profundamente intolerantes na defesa de suas novas convicções.

Muitas vezes, a intolerância, o ódio que serve de combustível nas lutas aguerridas dos novos convertidos, advém do fato de que suas novas convicções lhe provocam uma sensação de terem sido enganados quando esposavam antigas posições. De extremos a extremos, eles surfam com uma celeridade que não lhes permite tocar nos fundamentos de sua nova forma de encarar o mundo e suas contradições. Entre nós, não raro percebemos no mundo político e religioso essas conversões, que nos assustam.

Porém, quero deixar essa reflexão aberta a novos olhares e posicionamentos, sem afirmações dogmáticas. Pelo contrário, creio que a dúvida ainda possa ser uma boa conselheira quando se quer sentir a força da convicção. Como dizia Lutero: “A dúvida é a irmã-gêmea da fé – enquanto caminham juntas”. Ou ainda como dizia Santo Agostinho: “A fé está mais próxima da dúvida do que da certeza”. Isso nos leva a uma outra aventura: a buscar o essencial. A busca do essencial também pode se configurar num bom método, desde que seja sempre dinâmica e dialética. Nunca ponto de chegada, mas sim de partida. E para concluir, ainda vale a pena relembrar Edgar Morin: “De tanto sacrificar o essencial em favor do urgente, acabamos por esquecer a urgência do essencial”.

 

Pe. Manoel Godoy   é professor e pesquisador no departamento de Teologia da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE)

 

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