A fuga da vida

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Marília Murta de Almeida

O cardeal José Tolentino, teólogo e poeta, escreveu assim em seu Elogio da sede: “Fica sempre tanta vida por escutar, não é? E como não estremecer perante isso!”. Duas frases entre tantas outras, e que quase poderiam ter escorregado para o fundo do que elas apontam, a vida que fica sem escuta. Mas escutei. E estremeci.

A vida “por escutar” é como o mato que nasce e morre sem que ninguém tenha notado. Mas na dimensão da existência humana essa constatação assume o tom da tragédia que leva ao estremecimento. Mais do que tomar consciência da limitação de nossa capacidade de conhecer, gera a dor implícita em nossa incapacidade de perceber tudo o que vive em torno e dentro de nós.

Sem escuta, não há cuidado, não há como acompanhar nem como favorecer. A vida não percebida é como uma inexistência. Se somos responsáveis pelo cuidado com a vida, não a perceber parece ser a primeira negligência, ainda que inevitável em algum grau. Podemos acompanhar trechos do romance O lustre, de Clarice Lispector, em que essa perda é notada e lamentada. Leiamos um trecho de quando a protagonista Virgínia está num trem voltando para casa na cidade grande depois de visitar a família na granja em que viviam e para onde ainda não tinha voltado desde que saíra de lá havia muitos anos:

A vaga noção do que sempre quisera parecia ter se debatido constantemente dentro dela sem jamais tomar forma. (…) Ela própria, contra si mesma, talvez tivesse concordado secretamente com o sacrifício da massa da sua vida, cumulando-se de mentiras, de falso amor, de ambições e prazeres – assim como protegeria a fuga silenciosa de alguém prendendo a atenção de todos com tumulto e confusão.

O que foge, em analogia com a proteção da fuga de alguém por meio da distração dos outros, é a própria vida mais íntima, o que a narradora também chama de “verdadeiro”. Há então em nós algo mais vivamente verdadeiro e ligado ao nosso desejo – o “que sempre quisera” – que escapa como quem foge, e nós mesmos protegemos essa fuga com excesso de ocupação e preocupação. O lamento de Virgínia fica prenunciado na ideia de que essa fuga é um sacrifício.

A massa de nossa vida sacrificada é algo nosso que fica perdido, e por isso lamentado. Podemos perceber mais claramente esse lamento na página seguinte quando ela se lembra de que não olhou para o lustre da sala nos dias em que estivera na granja, de modo que nem sabe se aquele objeto para o qual tanto olhara na infância ainda está na casa. Ao perceber isso, sente que perdera “uma de suas coisas” e diz a si mesma: “Que pena, disse surpreendida. Que pena, repetiu-se com arrependimento. O lustre…”.

Neste ponto podemos perceber que toda a narrativa do romance se assenta sobre essa perda, não apenas da percepção do lustre em si, mas da vida que se afigura como sua.  Perda que se dá como o escorrer da água por entre os dedos. O lamento de Virgínia ressoa em nós como o estremecimento sugerido por Tolentino. Que pena.

Antes de corrermos a procurar saídas, estratégias e conselhos de como aguçar nosso ouvido para escutar cada vez mais vida – e sim, podemos fazer isso – parece valer a pena parar um pouco nesse lamento. Nessa parada nos percebemos mais. Vemos toda nossa precipitação que nos põe rapidamente a caminho ou em luta, sem antes ter escutado bastante. Podemos ver surgir também a pergunta sobre se seria mesmo necessário tratar de aguçar a escuta, afinal pode não haver problema algum em deixarmos tanta vida sem escuta.

Este então é um ponto de encruzilhada, que chama por nossa escolha: quero seguir deixando para trás tanta vida por escutar, olhando apenas para a frente em direção a objetivos e tarefas, ou quero parar e olhar em torno, escutar e acolher mais e mais vida, mesmo que isso me atrase e talvez me faça desviar de alguma meta?

Está aí implicada uma pergunta sobre como vemos a vida, o que esperamos dela e o que estamos dispostos a dar por ela. A mim me parece que quanto mais vida eu for capaz de perceber, mas alargada será minha consciência e mais diversas minhas possibilidades de amar, assim como maior será o âmbito de liberdade alcançado – e a liberdade aqui aumenta para mim e para o mundo, na medida em que mais e mais formas de vida são percebidas e aceitas, em mim e fora de mim.

A diversidade é um valor ecológico sobre o qual não se tem dúvidas: quanto mais diversa a vida, maiores as possibilidades de que todos os seres vivam melhor. Analogamente, para além do sentido biológico, podemos pensar que a diversidade de vida que se apresenta a quem mais e mais a escuta favorece as vidas escutadas assim como a de quem as escuta.

Por isso o lamento, que pena. Que pena que tenhamos aprendido tanto a deixar escapar a vida mais delicada que nos habita interna e externamente, para nos ocuparmos com o que nos pede a vida mais apressada. No ritmo em que temos caminhado coletivamente, vemos a diversidade ser minada, na natureza e em nós. Como não estremecer diante disso?

Marília Murta de Almeida é professora e pesquisadora no departamento de Filosofia da FAJE

17/09/2026

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