Élio Gasda, SJ
As questões estruturais, culturais, socioeconômicas e política estão concentradas no trabalho. Sociedade, governos, empresas e instituições deveriam olhar mais para as pessoas e menos para números. De fato, “o trabalho é uma chave essencial de toda a questão social” (João Paulo II).
O Brasil tem 103 milhões de ocupados e uma taxa de desemprego entre 5,1% e 5,6% (PNAD – IBGE), com um rendimento médio de R$ 3.613,00. Parcela expressiva desta população trabalha sem carteira, por conta própria ou de forma intermitente. A menor taxa de desemprego da série histórica coincide com o recorde de informalidade: 38%!
A precariedade substituiu o desemprego como principal fantasma que assombra o brasileiro. Emprego para quem, em quais condições, com quais direitos? Não basta estar no mercado de trabalho para sair da pobreza. 2/3 dos trabalhadores formais recebem até 2 salários-mínimos. Entre o salário-mínimo (R$ 1.621,00) e o salário ideal há uma diferença de R$ 5.485,83 (DIEESE). Quem recebe o piso salarial nacional deveria receber 4, 42 x mais (R$ 7.164,94). 62 milhões de brasileiros têm rendimento referenciado no salário-mínimo. A disparidade entre o custo de vida (R$ 3.520) e o salário médio (R$ 2.200) é escandalosa (Serasa). “O bolso é a parte mais sensível do corpo humano” (Delfim Neto).
Quando se compara o custo da cesta básica nas capitais e o salário-mínimo líquido, ou seja, após o desconto de 7,5% da Previdência Social a situação fica ainda mais crítica: o trabalhador comprometeu em média, em fevereiro de 2026, 46,13% do rendimento para adquirir os produtos alimentícios básicos e, em janeiro, 46,08%(DIEESE/Conab). “É um homicídio negar ao trabalhador o salário necessário à sua vida” (Santo Ambrósio).
“O trabalho dignifica o homem?” É sério? O emprego não garante a superação da pobreza em contextos de salários insuficientes, alto custo de vida e desigualdade estrutural. Se trabalhar duro fosse sinônimo de prosperidade, a maioria da população já teria saído da pobreza. Para que o trabalho dignifique, ele deve ocorrer em condições humanas, justas e dignas. “Que haja trabalho para todos. Mas trabalho digno, não de escravo” (Papa Francisco).
Pobreza designa “falta do necessário à vida; penúria, escassez” (Dicionário Aurélio). A absoluta maioria dos brasileiros que vivem na pobreza são trabalhadores. As pessoas trabalham muitas horas por semana em troca de uma renda insuficiente que não garante sequer o mínimo de conforto. Longas jornadas de trabalho não constroem futuro, apenas compram mais 30 dias de sobrevivência: aluguel, transporte, gás, conta de luz, IPTU, água, telefone, internet, sacolão, supermercado, boletos. As pessoas não estão “nem vendo a cor do dinheiro”.
O pobre passa o dia trabalhando para pagar contas: o carro velho quebra, o celular estraga, o filho adoece, o remédio custa o ‘olho da cara’. A meta é chegar no fim do mês. A conta não fecha, apesar do esforço. 80,2% das famílias brasileiras estão endividadas. 50% dos inadimplentes estão atrasados há mais de 90 dias (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor). Cortar gastos significa cortar serviços essenciais. Enquanto isso, bancos lucram bilhões. É o suor do trabalhador alimentando os ganhos de poucos.
Desesperados e cansados porque trabalham demais e não conseguem quitar as dívidas. A vida é um pesadelo de tirar o sono. Como sonhar com o futuro? Uma casa com três quartos ou um carro “popular” são artigo de luxo. Consumo com culpa, exaustão como rotina de um trabalho que adoece. O trabalhador corre, corre… e continua no mesmo lugar. “Não há pobreza pior do que aquela que priva do trabalho e da dignidade do trabalho” (Papa Francisco).
O elevador social está quebrado. Frustração da juventude. Ter ensino superior não necessariamente significa encontrar trabalho condizente com o nível de formação. Milhares de jovens abandonam os estudos para ajudar na sobrevivência da família. A pobreza parece uma barreira insuperável. 90% dos meninos nascidos em lares pobres morrem pobres (Joseph Stiglitz). A juventude demanda transformações estruturais na sociedade.
Um descompasso: a pobreza persiste mesmo quando a economia melhora. O Brasil segue na ponta da desigualdade. Comparado a nações emergentes, é o país com maior proporção de trabalhadores pobres, apesar da queda do desemprego (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE). O crescimento econômico precisa chegar ao bolso do trabalhador. Sair do mapa da fome ou expandir o PIB não significa eliminar a pobreza. O problema é estrutural.
Não basta gerar empregos, é urgente transformar a qualidade das ocupações. Empregos informais e de baixa remuneração prolongam a permanência de milhões de pessoas na pobreza. Desesperados, os trabalhadores são coagidos a aceitar condições de trabalho indecentes em troca de salários de fome. “Mata o próximo quem lhe tira seus meios de vida, e derrama sangue quem priva o operário de seu salário” (Eclesiástico 34, 21-22).
Milhares de trabalhadores estão condenados a viverem asfixiados por uma vida duríssima sem possibilidade de acesso a direitos. A normalização da precariedade e da insegurança estão levando “as pessoas a se matar de tanto trabalhar”. As inovações tecnológicas, incluindo a Inteligência Artificial, implementadas de forma desregulada, destroem e ameaçam postos de trabalho. A expansão do trabalho por plataformas digitais, contratos intermitentes, flexibilizações, microtrabalho, “uberização” são ocupações inseridas nas estatísticas como “trabalho”, mas sem os traços do trabalho formal. Milhões de pessoas cumprem 44 horas, muitos extrapolam esse limite. As mulheres com duplas e triplas jornadas, tem salários menores e lideram metade dos lares brasileiros, enfrentam horas de transporte público caro, lotado e precário. O trabalhador que aparece como ocupado nas estatísticas talvez nunca chegue a experimentar plenamente os direitos que emanam do trabalho. O Brasil está se tornando uma sociedade caracterizada pela ausência de direitos no trabalho. De fato, “na maioria dos casos, os pobres são o resultado da violação da dignidade do trabalho humano” (Bento XVI).
Não basta gerar vagas, é preciso qualificar a oferta, aumentar a remuneração e garantir uma legislação de proteção social. Erradicar a pobreza significa oferecer trabalho decente, não qualquer trabalho. Talvez seja por isso que a melhora nos indicadores da economia não se traduza em avaliação positiva da população.
“O trabalho digno é um direito sagrado. Reivindicá-lo é Doutrina Social da Igreja” (Papa Francisco).
Escutemos os trabalhadores e trabalhadoras!
Élio Gasda, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
23/04/2026

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