A Odisseia de Nolan – Uma versão apolínia de Homero

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Bruno Pettersen

Longamente esperado por mim, neste último fim de semana, fui ver A Odisseia, filme escrito e dirigido por Christopher Nolan, que estreou nos cinemas no dia 17 de julho de 2026. Odisseu é interpretado por Matt Damon, acompanhado por uma série de outros personagens fundamentais da narrativa homérica, como Penélope, Telêmaco, Atena e Calipso.

Um aviso importante: antes de começar a tratar desse assunto, quero deixar claro que mencionarei, daqui para a frente, um ou outro spoiler do filme. Nada muito substancial, mas, caso você queira preservar inteiramente sua experiência, pode assistir ao filme primeiro e depois voltar a este texto.

Inicialmente, o filme se apresenta como uma adaptação direta da Odisseia, de Homero. Evidentemente, não se trata de uma adaptação ponto por ponto. A Odisseia é um texto longo, profundo e particularmente difícil de transpor para o cinema. Ainda assim, a adaptação percorre muitos dos episódios centrais da obra homérica: a presença do Ciclope, dos gigantes, de Calipso, a relação de Odisseu com Penélope, o reconhecimento pelo cão e vários outros momentos fundamentais da narrativa.

Sob essa perspectiva, esses elementos estão presentes no filme e, em geral, são muito bem representados. É claro que diversos outros episódios não aparecem, o que é perfeitamente justificável em uma adaptação cinematográfica. Que enquanto produção cinematográfica é impecável.

Além disso, o filme também dá bastante ênfase à Guerra de Troia, especialmente à história do cavalo de Troia. É importante fazer aqui uma pequena precisão. O episódio não é narrado na Ilíada, que termina antes da queda da cidade. O cavalo, entretanto, é mencionado na própria Odisseia, tanto nas recordações de Helena quanto no canto do aedo Demódoco sobre a tomada de Troia. A narrativa mais extensa e que se tornou predominante na tradição ocidental aparece posteriormente na Eneida, de Virgílio.

Nolan incorpora, portanto, o cavalo de Troia como parte dessa narrativa tradicional mais ampla. Nesse sentido, o filme é perfeitamente rico enquanto obra. Representa muito bem várias questões presentes no poema e consegue traduzir para a audiência atual uma parte significativa daquilo que Homero realizou em seu texto.

Existem várias polêmicas em torno do filme: o figurino talvez não seja apropriado ao período homérico; certas traduções poderiam ter recorrido a um inglês mais formal ou mais coloquial; e, inevitavelmente, perdeu-se algo do ritmo próprio da poesia de Homero. Para ser sincero, não tenho dificuldade com nenhum desses pontos. Tudo isso faz parte do processo de adaptação de uma obra.

A questão que me toca é outra.

Quero abordar a maneira pela qual o filme de Nolan trata os deuses e o modo como eles são vistos ao longo da narrativa. Esse é o ponto que me incomodou profundamente e que pretendo discutir aqui: qual é o lugar dos deuses na narrativa do filme?

Os deuses são citados com frequência. Entre os nomes mencionados estão Zeus, Poseidon e, mais brevemente, Apolo. Atena é aquela que recebe maior destaque e chega a estar algumas vezes com o Odisseu interpretado por Matt Damon. No filme, ela é interpretada por Zendaya.

A questão é que, enquanto na Odisseia de Homero os deuses desempenham um papel essencial, são descritos e participam ativamente da história, na Odisseia de Nolan eles funcionam como uma espécie de ponto de vista lateral. Sua intervenção nunca é apresentada de maneira inteiramente objetiva. Os deuses são colocados quase como alegorias das forças naturais, como se estivessem sendo substituídos por uma compreensão profundamente materialista da natureza. Isso me incomodou muito no filme.

Uma das características fundamentais de Homero é que não há uma separação absoluta entre deuses e seres humanos. Ambos fazem parte de uma mesma narrativa. Os deuses interferem nas decisões, nos deslocamentos, nas guerras, nos naufrágios e nos desejos humanos. O divino não constitui um plano separado ou apenas uma interpretação possível dos acontecimentos. Ele faz parte da própria realidade na qual os personagens vivem.

No filme de Nolan, isso não acontece. A narrativa é humana, profundamente humana, e os deuses permanecem como estruturas separadas, cuja existência e influência talvez sejam apenas projeções dos personagens. O que eles entendem como a ação de Zeus pode ter sido somente um raio atingindo o navio. A fúria de Poseidon pode ser apenas o mar em tormenta. Atena pode ser uma visão, uma lembrança ou uma manifestação psicológica de Odisseu.

Os deuses, assim, não fazem realmente parte da narrativa. Nem mesmo Atena exerce uma intervenção comparável àquela encontrada em Homero. Ela permanece ao lado dele em alguns momentos, mas não determina diretamente os acontecimentos. Na obra homérica, sua intervenção é explícita, constante e profundamente concreta. Essa questão também se relaciona com aquilo que considero um dos fenômenos mais importantes e problemáticos da nossa cultura: o completo desencantamento do mundo. O filme de Nolan é, nesse sentido, uma espécie de Odisseia situada em um mundo desencantado.

O conceito de “desencantamento do mundo” está associado ao pensador alemão Max Weber. De maneira bastante geral, ele descreve o processo pelo qual as explicações religiosas, mágicas e sagradas da realidade são progressivamente substituídas por formas racionais, técnicas e científicas de interpretação. O mundo deixa de ser compreendido como um espaço habitado por forças divinas e passa a ser tratado como algo calculável, explicável e, ao menos em princípio, controlável.

Isso é particularmente perceptível na maneira como Atena aparece no filme. Em muitos momentos, ela parece ser menos uma deusa existente do que uma reação psíquica de Odisseu, quase uma consequência de seu trauma de guerra. Depois de presenciar o assassinato de uma sacerdotisa, ele passa a associar o rosto dessa mulher à figura de Atena. A deusa pode, portanto, ser interpretada apenas como uma manifestação de seu estresse pós-traumático. É nesse contexto de uma presença divina constantemente desfocada que se constrói a narrativa do filme.

Isso, para mim, é um problema, porque não é possível pensar a Odisseia sem deuses que interfiram efetivamente na vida dos homens. Seria algo equivalente a fazer uma adaptação do Evangelho de Mateus na qual a ressurreição de Cristo fosse transformada apenas em uma experiência psicológica dos discípulos. Não se trata de uma parte lateral da história. Trata-se de um elemento constitutivo de sua compreensão religiosa.

No filme, entretanto, esse aspecto mágico e religioso é colocado à margem. A Odisseia acaba sendo apresentada quase exclusivamente como um drama humano.

Mas a Odisseia transcende o drama humano. Ela trata dos seres humanos, evidentemente, mas também da natureza, do destino, da maneira como o mundo se manifesta na forma dos deuses e de como esses deuses são, ao mesmo tempo, forças da própria natureza. Ela mostra o ser humano à mercê de coisas maiores do que ele, de forças que não controla e que sequer compreende inteiramente.

Esse me parece ser um erro essencial do filme: não compreender que os deuses não constituem um mero detalhe da Odisseia. Eles são parte fundamental daquilo que nos faz humanos, justamente porque representam o limite de nosso controle diante de uma natureza maior do que cada um de nós.

O desencantamento do mundo presenciado no filme acaba retirando a própria realidade das coisas tal como elas existem na obra homérica. Isso torna o filme pior? Não necessariamente. Gosto bastante dele. É um filme muito bom, especialmente por conseguir traduzir a história para o presente e torná-la acessível a uma audiência contemporânea.

O problema está no mecanismo pelo qual as histórias de Homero são reorganizadas como se pertencessem a uma experiência exclusivamente humana. Com isso, perde-se algo que, tomando de empréstimo os conceitos de Nietzsche, poderíamos chamar de dimensão dionisíaca da obra. É preciso fazer uma ressalva: Nietzsche desenvolve a oposição entre o apolíneo e o dionisíaco para pensar sobretudo a tragédia grega, e a Odisseia é uma epopeia. Ainda assim, essa distinção pode nos ajudar a compreender o que se perde no filme.

O apolíneo está ligado à forma, à medida, à individuação e à produção de imagens capazes de tornar a realidade compreensível. O dionisíaco, por sua vez, está relacionado à dissolução das fronteiras individuais, à embriaguez, ao terror, ao excesso e ao reconhecimento de que existem forças mais profundas do que a consciência humana. Para Nietzsche, a grandeza da arte grega não estava na vitória definitiva de um desses impulsos, mas na tensão e na articulação entre ambos.

No filme de Nolan, o aspecto apolíneo parece prevalecer. A viagem é organizada como uma narrativa inteligível, delimitada e submetida à experiência individual de Odisseu. Até mesmo aquilo que poderia romper essa ordem, como a intervenção dos deuses, é traduzido em termos psicológicos, materiais ou naturais.

O problema, portanto, não é simplesmente a ausência da hybris, que é outra noção e não deve ser confundida com o dionisíaco. O que se perde é a tensão entre a forma humana e aquilo que ultrapassa o humano, entre a tentativa de compreender o mundo e a experiência de forças que dissolvem nossas categorias de compreensão.

É quase como se fosse uma Odisseia governada exclusivamente por Apolo. Permanece a forma, a imagem, a ordem narrativa e a trajetória individual do herói. Mas enfraquece-se a dimensão dionisíaca: o encontro com aquilo que excede a consciência, rompe os limites do indivíduo e mostra que o ser humano não é a medida de todas as coisas.

Quando os deuses são transformados em fenômenos naturais ou manifestações psicológicas, essa tensão desaparece. O mundo deixa de ser maior do que Odisseu e passa a existir apenas como cenário de seu drama pessoal. E, quando isso se perde, algo da própria Odisseia também desaparece.

O filme conta uma boa história. Mas não tenho certeza de que essa história ainda seja, verdadeiramente, a Odisseia.

Bruno Pettersen é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE

 

Foto: Divulgação

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