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A sabedoria da idade

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Geraldo Luiz De Mori, SJ

Com os anciãos e mais experientes está a sabedoria, e na idade avançada, a compreensão e o entendimento” (Jó 12,12)

 

Em 11 de março de 2024 algumas mídias noticiaram o 66º ano do ingresso de Jorge Mario Bergoglio no noviciado dos jesuítas. Dois dias depois, no dia 13, muitos comentários saudavam o 11º ano de sua eleição como Papa. Aos 87 anos, e nos últimos anos, acometido por várias enfermidades, locomovendo-se com dificuldade, quase sempre em cadeira de rodas e, em algumas ocasiões, com uma bengala, muitos se perguntam sobre sua capacidade de continuar à frente da Igreja, se não seria o caso dele renunciar, como fez Bento XVI. Outros, ao contrário, torcem para que ele continue a conduzir a Igreja ainda por alguns anos, fazendo florescer a primavera que nela inaugurou, o de sua real conversão pastoral e missionária, que a leve a uma “reforma permanente de si mesma por fidelidade a Jesus Cristo” (EG 26). Numa sociedade que valoriza a juventude, em sua plena potencialidade, criatividade e capacidade de sonhar e inventar o futuro, ter alguém com uma idade tão avançada à frente da maior instituição religiosa do mundo não deixa de ser provocante, e, sob muitos pontos de vista, faz pensar.

Em muitas ocasiões, em diversos discursos, mas também num dos livros que escreveu com o título A sabedoria das idades, Francisco reflete sobre o lugar dos idosos numa sociedade que os ignora ou os coloca à margem. Seguramente, muitas pessoas com idade avançada buscam um certo desfrute da vida, após terem se desdobrado em trabalhos e assumido responsabilidades importantes em suas carreiras profissionais. Outras, por sua vez, estão muito diminuídas em suas capacidades, por conta de doenças de todo o tipo, desde as que fazem diminuir as forças físicas, às que vão afetando a capacidade de raciocinar, de tomar decisões ou até mesmo de saber quem se é. As sociedades marcadas pela cultura ocidental acham que pelo fato de terem previsto a “aposentadoria” para os idosos, em alguns casos com recursos significativos, resolveram o “problema” tanto da juventude, que pode ocupar o lugar vago deixado pelos que foram jubilados de seus trabalhos, quanto dos próprios aposentados, pois eles terão recursos para uma vida digna. Elas esquecem, no entanto, que há uma sabedoria acumulada, que muitas vezes desaparece com a saída ou o desaparecimento daquela pessoa, e que essa sabedoria é o fruto de uma experiência feita de aprendizados, que podem ser compartilhados, que quem avançou em idade pode ainda ensinar muita coisa.

Nesse sentido, caminhar numa cadeira de rodas, com bengala, como o faz o Papa Francisco, é sinal de humanidade acumulada, feita dos traços que o tempo foi deixando no corpo, mostrando sua fragilidade e vulnerabilidade, e esses traços são marcas do humano, não devem ficar escondidos nos asilos ou nos clubes de terceira idade. No caso de Francisco, como ele tem dito, enquanto tiver forças e capacidade de discernimento e decisão, continuará à frente do rebanho que lhe foi confiado como pastor da Igreja universal. Não se trata, como muitos podem pensar, de apego ao poder, como pode acontecer em certas instituições, onde, às vezes, rejeita-se o novo, não lhe dando lugar nem vez e nem voz. Ao contrário, ninguém como Francisco é mais incentivador do novo, que pode irromper na Igreja com sua criatividade, paixão e capacidade de invenção. Sob muitos pontos de vista, ele é uma testemunha do lugar que pode ocupar no mundo e na Igreja a sabedoria da idade avançada, pois, mais do que ninguém, ele tem apontado os caminhos a serem trilhados pela Igreja e, também, pelo mundo, tendo como base coisas já vividas e que deram certo ou coisas vividas, que fracassaram e são contraproducentes.

Na comemoração dos 10 anos de seu pontificado, vários balanços foram apresentados, trazendo as grandes intuições de sua liderança à frente da Igreja, mas também os limites de muitas de suas iniciativas ou as resistências ao que ele propunha como caminho para a Igreja neste momento de sua história. Passado mais um ano, o balanço, positivo ou negativo, tem dado lugar a apreciações sobre o “fim” de seu pontificado, como que já o dando por certo e para logo. O Pontífice, contudo, não deixa de surpreender, pois, mesmo com mobilidade reduzida, dificuldades em respirar, por conta das gripes e resfriados recorrentes, ele segue seu caminho, participando ativamente da 1ª sessão da XVI Assembleia do Sínodo dos Bispos, apresentando seu ponto de vista diante das grandes questões que angustiam o mundo, como as guerras na Ucrânia, na Palestina e em outros lugares na África. Mantém lucidez impressionante frente à idade já avançada e mostra sinais visíveis de ainda poder seguir à frente da condução dos destinos da Igreja. É como se a sabedoria que acumulou ao longo dos tempos não só o tornasse sábio, mas fizesse dele o farol indicando o caminho a seguir.

Certos grupos eclesiais opostos à direção que Francisco vem dando à Igreja, têm se manifestado cada vez com mais frequência em mídias de tipo neotradicionalista, com iniciativas como a de rezar por sua morte. Esse tipo de iniciativa é sem dúvida inusitado, profundamente anticristão, sem contar que quem faz isso comporta-se como se fosse o “oráculo” divino através do qual Deus revelaria possíveis desvios do pontificado ou de certos grupos na Igreja. Contudo, o sinal que Francisco continua dando é não só o de uma vitalidade a toda prova, mas também o de que não se pode desprezar a sabedoria da idade. Essa sabedoria é a mesma do “mestre da lei instruído nas coisas do reino dos céus”, que é capaz de encontrar em seu “tesouro coisas novas e velhas” (Mt 13,52). Ela tem feito a Igreja reencontrar no seu tesouro coisas novas e velhas, que a levam para o lugar por excelência para o qual seu Senhor desejou que estivesse: o dos que não têm poder, nem fama, são vistos como sem saber e nem interesse, mas que são os que são louvados por serem aqueles a quem o Pai revelou os segredos de seu reino (Mt 11,25).

O que a Igreja reza é o que ela crê. Esse princípio importante que guia não só a oração, mas também o agir e o pensar da Igreja, deveria ser capaz de ver na oração pelo Papa, feita em toda oração eucarística, o lugar de uma comunhão que não é só aparente, mas que brota do que é mais sagrado no ser humano: sua abertura, através da oração, para elevar-se a Deus, apresentando-lhe suas necessidades, dando-lhe graças pelos bens e graças recebidos, pedindo perdão por desvios e pecados, ou simplesmente louvando-o. Com relação à oração pelo Papa, ela está intimamente associada à oração pela Igreja, pelo bispo e pelos demais ministros e fiéis, ou seja, trata-se de uma oração para a Igreja viva a experiência da unidade e da comunhão. E o Papa é esse sinal da unidade e da comunhão em nível universal. Na diocese, o bispo é aquele que assegura a unidade e a comunhão. Quem ora pedindo a morte de quem tem como principal ministério o de assegurar a unidade e a comunhão, é porque então já não mais se encontra unido e em comunhão com todo o corpo que pede para que o Espírito transforme a assembleia que ora em corpo de Cristo, no qual não haja divisão, nem desarmonia, nem nada que rompa o que um corpo deve ser: a união de todos os seus membros, que o torna de fato corpo.

Que o 11º aniversário da eleição de Francisco seja motivo para continuar pedindo para que continue oferecendo a sabedoria de sua longa idade para o bem da Igreja e do mundo.

Geraldo Luiz de Mori, SJ é professor e pesquisdor no departamento de Teologia da FAJE

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