Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM
As comunidades eclesiais cristãs de tradição romano-católica celebrarão no próximo domingo a solenidade de Pentecostes. Desde muito cedo, a fé cristã considera a efusão do Espírito Santo, rememorada na solenidade litúrgica de Pentecostes, vértice do Mistério pascal de Cristo e, portanto, seu “fruto maduro”. O Espírito Santo é, de fato, o Dom por excelência que Pai e Filho fazem a suas criaturas como expressão de sua generosa proximidade. E, nesse sentido, é propriamente a acolhida do Espírito Santo que nos permite experimentar as reais extensões e a profundidade do Mistério pascal de Cristo.
As primeiras comunidades cristãs, cujo legado se encontra consignado nos textos do Segundo Testamento, oferecem-nos um testemunho esclarecedor acerca da peculiar missão do Espírito Santo. Derramado generosamente no seio da comunidade dos fiéis, o Espírito Santo opera lentamente a conformação a Cristo do gênero humano, da história e da inteira Criação. E, desta forma, Ele vai misteriosamente realizando a obra de reconciliação da inteira criação, por meio de Jesus Cristo, com seu Criador e Pai. O Espírito Santo, através de sua presença interior e misteriosa, vai modelando cada pessoa para que se assemelhe sempre mais a Jesus Cristo. Presente no seio da Igreja, Ele vai transformando a comunidade dos fiéis no corpo de Cristo. Presente na história, o Espírito a fermenta desde dentro para que se torne o Reinado de Cristo. O Espírito Santo vai, enfim, atuando misteriosamente no âmago da Criação até que ela se torne, para todos os efeitos, corpo cósmico de Cristo. E, assim, Ele opera a reconciliação da inteira criação, fazendo com que, contemplando o Cristo, irmão de toda criatura, ela se reconheça umbilicalmente ligada a seu Criador e Senhor e, assim, possa de novo ser reconduzida por Cristo, a Deus Pai, autor e princípio de tudo. Realizar-se-á, pois, a promessa expressa por Paulo de que “Deus será tudo em todos” (1Cor 15,28).
O Espírito Santo não age, porém, de maneira ostensiva, recorrendo a sinais e portentos extraordinários que se caracterizariam por impactante visibilidade. Ele age interiormente, vale dizer, de dentro para fora e de baixo para cima. Ele penetra nas fibras mais íntimas da natureza, se insere nos meandros sutis da história e vem habitar no âmago do ser humano. E somente a partir dessa interioridade, dá início à lenta obra de santificação, mediante aquele processo descrito como “conformação a Cristo”. Nem por isso sua presença é menos sentida e tampouco sua ação carece de eficácia. Sua maneira interior e silenciosa de operar revela que toda autêntica transformação vem sempre de dentro para fora e não, ao contrário, de fora para dentro.
A singularidade do Espírito Santo se revela, sobretudo, mediante sua peculiar maneira de se fazer presente e de agir interna e intimamente. Próprio do Espírito é ser Ele mesmo no outro, no diverso de Si. Assim, Ele se esconde no interior de cada uma de suas criaturas e na complexidade da história e do universo para potencializar no melhor dos modos as singularidades e alteridades que compõem as relações interpessoais, a trama da história e a complexa teia composta por todas as criaturas. Em suma, em seu Espírito, Deus se revela como a interioridade mais íntima de cada criatura e da inteira Criação. Ao contrário do que se poderia pensar, o Espírito não opera massificando. Seu modo peculiar de ser, na alteridade mais radical de cada criatura, faz com que possa emergir sua singularidade. E, assim fazendo, o Espírito Santo opera a mais perfeita comunhão entre as distintas singularidades, tornando-as disponíveis ao encontro e à comunhão.
Que a celebração da solenidade de Pentecostes possa reavivar em nós o desejo de se deixar conduzir pelo Espírito, mais íntimo nosso que nós mesmos, para que, seguindo fielmente as pegadas de Jesus, nos reconheçamos como filhos e filhas do Pai criador.
Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
21/05/2026

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