A utopia de um mundo onde caibam todos os mundos: a “Globalização” e o desafio da inclusão social

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Sinivaldo S. Tavares

A maior contradição da assim chamada “Globalização” é, sem dúvida, a exclusão social. O fenômeno da “Globalização” é extremamente complexo. Há autores, como Ulrich Beck, que preferem distinguir “Globalização” de “Globalismo”: o primeiro termo caracterizaria aquele processo de articulação entre o local e o global, reordenando as diferenças e desigualdades sem suprimi-las; o segundo se referiria especificamente à a expansão do mercado neo-liberal e a supressão das diferenças regionais e locais.

O antropólogo argentino, radicado no México, Néstor Garça Canclini distingue criticamente os processos de diferenciação, desigualdade e desconexão. Embora não defina Globalização como simples homogeneização, García Canclini desmascara sua caracterização mais complacente e difusa, a saber: aproximações entre o que é distante propiciando interconexões crescentes e progressivas. Segundo ele, ao reorganizar a produção e o consumo em vistas do crescimento e da maior concentração dos lucros, o estilo neoliberal de globalização tem convertido as diferenças em desigualdades. Assim sendo, a Globalização desglobaliza muitas localidades e regiões a ponto de reduzir maiorias populacionais a minorias culturais.

Zigmunt Bauman lança mão de um trocadilho: “globaliza-se a riqueza e localiza-se cada vez mais a pobreza”. Ele salienta ainda, a tal propósito, a crise da clássica trindade moderna: território, estado e nação. Em sua opinião, uma das principais características desse interregno em que vivemos é o crescente divórcio entre o poder e a política. O poder se tornou global e a política não tem conseguido transpor o local.

Uma das mais lúcidas caracterizações que, talvez, possuamos da Globalização é aquela feita com invejável rigor e plasticidade por E. Morin. A nave espacial Terra dentro da qual navegamos, segundo ele, rumo a uma era planetaria, é movida por duas hélices. As hélices remontam propriamente aos modelos helicoidais do nosso DNA. A primeira se encontra sob a hegemonia do poder-dominação e é impulsionada por quatro motores: a ciência sujeita à técnica que, por sua vez, é submetida à indústria, que, por fim, é subordinada à lógica do lucro. Deste modo, segundo Morin, a nave espacial Terra é colocada em movimento por esses quatro motores interconectados. A segunda distingue-se pela luta pelos direitos da pessoa humana, pelo direito dos povos à soberania, aos ideais de liberdade, igualdade, fraternidade, democracia.

Isso posto, diríamos que o fenômeno da Globalização neoliberal possui um caráter intrinsecamente excludente. Seu principal resultado é, sem dúvida, a pobreza estrutural na qual vive nada menos que 2/3 da inteira população do Planeta. Precisamente aqui, se revela o caráter estruturalmente excludente da Globalização neoliberal. E essa situação de exclusão se agrava ainda mais quando se tem presente a exclusão não só de pessoas e de setores da população, mas de povos e continentes inteiros. Na sua raiz mais profunda, portanto, a globalização neoliberal provoca assimetria na economia, na política, na cultura e também na religião.

Temos testemunhado recentemente o despertar de um verdadeiro Imperialismo autoritário com discurso e prática fundamentalistas. Nesse sentido, o “novo imperialismo” encarna a síntese de todos os fundamentalismos: político, econômico, cultural e religioso. Embora os fiéis guardiães desse Imperialismo sejam os Estados Unidos da América com seu potente exército, seus reais detentores são os representantes do Capitalismo global. E estes, por sua vez, são apoiados e sustentados pelos mais poderosos organismos internacionais como o Banco Mundial, o FMI, a Organização Mundial do Comércio etc…

O recurso a alguns dados poderá ilustrar melhor essa situação estrutural de exclusão. Em 1960, para cada pessoa considerada rica no mundo havia 30 pobres; no início deste século, essa situação se radicalizou de maneira brusca, pois, para cada rico, existiam, no ano de 2000, 80 pobres no mundo. Dos 6,2 bilhões de habitantes, cerca de 2,85 bilhões de pessoas vivem na pobreza, dentre os quais, 1,2 se encontram na pobreza extrema. Os que vivem, portanto, na pobreza, corresponderiam aproximadamente a 46% da população do Planeta. Segundo as estimativas fornecidas pela FAO, a cada dia, morrem 35.000 crianças de fome, isto é, 10 vezes o número de pessoas mortas na destruição do World Trade Center. Na América Latina, a situação é alarmante: 44,4% da inteira população vive na pobreza e 19,4% na extrema indigência, perfazendo um total de 63,8% de excluídos.

O recurso a estes índices e cifras parece altamente esclarecedor. O fato de que ainda existam pessoas que morram de fome a cada dia, e que estes representam nada menos que 2/3 da inteira população do planeta, constitui o maior de todos os escândalos da nossa sociedade contemporânea. Existem pobres e famintos não por falta de alimento ou por qualquer disfunção climática. O problema está na injusta e perversa distribuição dos bens produzidos pela humanidade. O pobre não o é por uma questão de escassez de recursos e de condições. Ele é reduzido à condição de pobreza.

Diante da gravidade desta situação, que posições têm tomado as Igrejas cristãs, uma vez que, como lembrava o teólogo alemão J.-B. Metez, “A Igreja cristã é Igreja do Terceiro Mundo, com uma proto-história européia ocidental”? De fato, as maiores contradições e assimetrias se dão no Sul global, onde se encontram 70% dos cristãos. Isso posto, qual seria então nossa contribuição enquanto cristãos no processo de superação desta exclusão estrutural? Estaríamos dispostos a fomentar uma globalização não dos interesses do mercado e do capital transnacional, mas da solidariedade e da esperança, da justiça e da paz, dos direitos humanos, sociais e ecológicos? Seria utópico, de nossa parte, nos engajarmos na construção de um mundo onde caibam todos os mundos?

Sinivaldo S. Tavares, OFM é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

20/08/2026

Foto: Riccardo Mayer / Shuttertock

 

 

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