Bruno Pettersen
Na quarta-feira, 01 de abril de 2026, depois de mais de cinquenta anos desde a última missão tripulada à Lua, a NASA voltou a enviar uma expedição com tripulação humana em direção ao nosso satélite natural. A última vez que isso ocorreu foi em 1972, com a missão Apollo 17.
A missão Artemis II, prevista como o primeiro voo tripulado do programa Artemis, conta com uma equipe composta por três norte-americanos e um canadense: dois homens brancos, um homem negro e uma mulher. Trata-se do grupo mais diverso já enviado em uma missão lunar, sendo a primeira vez que uma mulher e um homem negro participam de uma operação com destino à Lua.
Ver uma nave como a Artemis II, equipada com a espaçonave Orion, deslocando-se em direção à Lua, é também testemunhar um gesto simbólico. Os próprios nomes evocam isso: “Artemis”, na mitologia grega, é a deusa da Lua, irmã gêmea de Apolo; “Orion” é um caçador mítico transformado em constelação, presente no céu noturno. A exploração espacial, nesse sentido, reativa elementos simbólicos muito antigos, ligados à contemplação do céu e à tentativa de compreender o lugar humano no cosmos.
Nesse contexto, é importante situar o voo da Artemis II em seu devido horizonte de análise. Em primeiro lugar, trata-se de uma retomada de um espírito de exploração que parece atravessar a própria condição humana: o desejo de conhecer, de expandir limites, de renovar horizontes. A repercussão midiática da missão, o número expressivo de visualizações e o interesse global indicam que não se trata apenas de um evento técnico, mas de algo que mobiliza simbolicamente a humanidade. Além disso, o lançamento envolve o Space Launch System, o foguete mais poderoso já desenvolvido pela NASA.
Mas por que ir à Lua agora, em 2026? Algumas respostas são imediatas: a busca por minerais raros, o avanço de pesquisas científicas, o desenvolvimento tecnológico. No entanto, essas explicações parecem insuficientes. Há algo mais fundamental em jogo.
Nós vamos à Lua também por uma esperança. Por uma utopia.
Gosto de pensar a utopia como um espaço necessário à própria constituição da vida humana. Em um mundo marcado por crises constantes, conflitos, instabilidade e uma sensação difusa de esgotamento, a utopia funciona como um horizonte de sentido. Ela nos desloca do imediato, do urgente, do trágico, e nos reinsere em uma dimensão de possibilidade. A utopia não é um lugar que existe, mas um ponto que orienta.
Nesse sentido, enviar seres humanos à Lua não é apenas um feito científico. É um gesto simbólico. É parte da construção de uma imagem de humanidade que ainda é capaz de desejar, de imaginar e de se projetar para além de si mesma.
Ao assistir ao anúncio da missão Artemis II, lembrei-me imediatamente do prólogo de A condição humana, de Hannah Arendt, publicado em 1958. Logo na primeira linha, Arendt menciona o lançamento do Sputnik 1, o primeiro satélite artificial colocado em órbita pela União Soviética em 1957. Esse acontecimento, aparentemente técnico, é interpretado por Arendt como um marco profundo na história da humanidade. No prólogo, Arendt percebe com grande lucidez os entrelaçamentos entre ciência, técnica e política. O fazer científico não é neutro; ele transforma o mundo e redefine as condições da existência humana. Poucos textos são tão perspicazes ao analisar a modernidade quanto esse, escrito ainda no final da década de 1950.
Escrevo este texto em um contexto marcado por conflitos globais: a guerra na Ucrânia, iniciada em 2022; a Guerra no Oriente Médio, envolvendo Irã, Israel e Palestina, entre outros, muitos destes com o envolvimento direto ou indireto do mesmo EUA que agora envia a Artemis II. Em meio a esse cenário de destruição, fome e instabilidade, o retorno à Lua adquire um significado que ultrapassa o campo científico e se adentra ao território político.
É claro que não se deve ser ingênuo. A exploração espacial sempre esteve associada a disputas geopolíticas, interesses econômicos e estratégias de poder. O próprio lançamento do Sputnik, mencionado por Arendt, está inserido no contexto da Guerra Fria, na disputa entre Estados Unidos e União Soviética. Esse elemento não pode ser ignorado. Mas também não pode ser o único critério de interpretação. Da mesma forma, não há dúvida de que existem interesses científicos legítimos na exploração lunar. Pesquisas empíricas, testes tecnológicos e coleta de dados são dimensões centrais dessas missões. No entanto, reduzir o fenômeno a isso é perder algo essencial. Essa expedição representa, também, para tantos de nós, uma tentativa de reconstrução de um horizonte de esperança.
Talvez seja por isso que a ficção científica exerça um papel tão importante nesse imaginário. Uma série que me é particularmente cara é Star Trek. Seu lema, “Ad astra per aspera” (até as estrelas através das dificuldades), sintetiza bem esse movimento. Curiosamente, Arendt também menciona a ficção científica no prólogo de A condição humana, indicando como ela antecipa e reflete as transformações tecnológicas.
É nesse ponto que a missão Artemis II se torna mais significativa. Não apenas como um avanço técnico, mas como expressão de uma disposição humana fundamental: a de ultrapassar limites. Os quatro astronautas dessa missão não carregam apenas seus próprios interesses ou carreiras. De algum modo, carregam também uma projeção coletiva. Há, nesse gesto, uma dimensão representativa: a tentativa de afirmar que a humanidade ainda é capaz de olhar para além de si mesma.
Não deixa de ser simbólico que esse movimento coincida, no calendário cristão, com o período da Páscoa, tradicionalmente associado à ideia de renovação, de passagem e de esperança.
Enquanto escrevo este texto, a missão ainda não se completou. Resta aguardar seu desfecho e torcer pelo retorno seguro da tripulação. E com esse movimento, algo já foi recolocado: a possibilidade de pensar o futuro não apenas como ameaça, mas como abertura. É isso que vejo ao acompanhar a Artemis II. É isso que percebo ao observar cada segundo da contagem regressiva, tantas vezes imaginada e agora novamente vivida.
Que este seja apenas o começo.
Ad astra per aspera.
Bruno Pettersen é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE
09/04/26
