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Patrícia Carvalho Reis

Numa das últimas idas de ônibus para a minha cidade, policiais de uma viatura pediram ao motorista que parasse, e uns cinco ou seis deles entraram no veículo. Parecia algo de rotina, talvez uma denúncia contra algum passageiro. Drogas na mala? Um criminoso ou foragido estava no ônibus? Não sei exatamente o motivo disso. De qualquer forma, eles abordaram algumas pessoas, inclusive a mim.

Primeiro, perguntaram para cada de um de nós: nome completo, CPF, profissão, motivo da viagem, se regularmente fazíamos esse trajeto e, por fim, pediram para ver nossas malas. Revistaram tudo o que estava lá. Um deles escrevia, no seu celular, as informações que lhes íamos passando. Depois desse interrogatório, revista e coleta de informações, agradeceram e se despediram.  Saíram felizes, sem dar explicações…. Para os investigadores, parecia algo natural, mas, para muitos de nós, não.

Logo fiquei pensando na ditadura vivenciada no nosso país, em que as pessoas não podiam ir e vir quando bem entendiam, na restrição de direitos como habeas corpus, prisões sem devido processo legal, falta de liberdade de expressão e de imprensa, ausência de eleições regulares… Imaginei também a figura do governante todo-poderoso, sem nenhum freio nem contrapeso, sem a presença de um Parlamento com deputados e senadores que pudessem limitar seus atos, e, também, sem um Judiciário com poder suficiente para barrá-lo.

Que estranho é saber que, na ditadura em nosso país, as salas de aulas nas universidades tinham um censor fiscalizando as ideias transmitidas. E chega a dar até um calafrio lembrar que havia violência política institucionalizada pelo Estado e, com isso, desaparecimentos, tortura, prisões ilegais, entre outras práticas.

A presença de um governante autoritário num país pode afetar, e muito, a liberdade de expressão na vida de várias pessoas – de modo direto ou indireto – como jornalistas, professores, estudiosos de economia, ciência política, sociologia (entre outras disciplinas das humanidades), líderes de sindicatos, sindicalizados, simpatizantes da democracia, gays…. Na nossa ditadura, várias pessoas inocentes foram consideradas subversivas e penalizadas, sem motivos legítimos.

Muitos afirmam que não gostam de política e que não se importam com as eleições, mas, gostem ou não, a política influenciará a vida de todos nós. Na escola das nossas crianças, na saúde, na cultura…. Outros defendem que, na política, existe somente corrupção, interesses mesquinhos, busca pelo poder desenfreado. Para alguns governantes e cidadãos, ela é isso, mas não para todos. Existe a boa política, a interessada nos laços entre os cidadãos, na justiça.

Antes de ter mais maturidade, eu considerava natural pensar que cada um devia votar no candidato que defendesse os seus anseios econômicos pessoais ou dos seus próximos. Há uns anos, penso diferente. Não que desconsidere as reivindicações e os direitos pessoais de cada um. Mas, desde então, tento ampliar essa visão que somente pensa em si, e considero que o candidato bom é aquele que pensa no bem comum da sociedade, mesmo que, em certos aspectos, atos deste se confrontem com os meus interesses. Por mais que a definição de bem comum possa apresentar diferentes interpretações, considero que a boa política é aquela que defende que todos ganham, em que há oportunidades iguais para todos, em que os mais privilegiados possam contribuir, de alguma maneira, para os que não são.… De modo algum defendo ideias comunistas ou pensamentos do gênero. Apenas sou a favor de uma maior justiça social em todos os países, ainda mais no nosso, um dos mais desiguais do mundo, em que a miséria, o racismo, o machismo, entre outras mazelas são vistas diariamente de modo tão cruel. Essa desigualdade é nociva para a sociedade em geral, inclusive para quem está num nível socioeconômico mais alto ou para quem não sofre, mais diretamente, os preconceitos numa sociedade.

Fato é que, nos últimos anos, em vários países, governantes e partidos autoritários de extrema direita estão tendo maior expressão. As causas disso são várias, desde aspectos mais gerais quanto conjunturais. Para mim, todo extremismo é condenável, seja de direita, seja de esquerda.

Hannah Arendt, filósofa judia que sofreu, na pele, o nazismo, afirmava que muitas teorias políticas associam o poder com a dominação, com a violência. Nessa perspectiva, a pessoa poderosa é aquela que manda, “tem poder” e tem a obediência dos outros. Diferentemente desse ponto de vista, para ela, o poder legítimo tem uma conotação positiva e surge onde existem seres humanos reunidos na modalidade do discurso e da ação e onde a violência não está presente. Essa pensadora não é contra a violência legítima realizada pelo Estado em determinadas circunstâncias, como numa prisão em flagrante, ou na própria existência de presídios. Ela somente não identifica a violência com o poder que, como mencionamos, está no diálogo, no discurso.

Esperamos que a luta pela democracia, pela paz e pela justiça possam não nos abandonar nunca mais. Mais do que isso, que haja repúdio por parte da população por todas as formas nefastas de se fazer e de se compreender a política.

Dizem que conselho, se fosse bom, se vendia, não se dava. Mas, como as eleições já passaram e não quero nem dar nem vender conselhos, me inspiro no artigo “Conselhos aos Eleitores”, de Condorcet, pensador francês que vivenciou a revolução francesa no século XVIII, para convidar o leitor a refletir a seguinte ideia:

“Não confunda nem os acontecimentos da vida de um homem com as suas ações (…) nem as palavras com as ideias, pois nós podemos pronunciar a cada instante ou em cada página o nome da liberdade e ter princípios que a destroem”.

 

Patrícia Carvalho Reis é professora e pesquisadora no departamento de Filosofia da FAJE

29/10/2026

Foto: Igor Rodrigues – Unsplash

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