Geraldo Luiz De Mori, SJ
A cada ano as igrejas cristãs celebram o que em cada celebração eucarística, após o que comumente se conhece como “consagração” das espécies do pão e do vinho, o presidente da celebração proclama ser o “mistério da fé”. A palavra “mistério” é, em geral, identificada pelo saber comum como aquilo que não se compreende, que é escondido ou de difícil acesso ao conhecimento. No entanto, o “mistério da fé” proclamado em cada eucaristia remete àquilo que sintetiza a vida de Jesus, confessado depois da Páscoa como Cristo, Senhor e Filho de Deus. De fato, segundo as narrativas da última ceia, já marcadas pelas liturgias feitas nas primeiras comunidades, como aparece em 1Cor 11,23-27, em Mc 14,22-25, em Mt 26,26-29 e em Lc 22,17-20, na véspera de sua paixão, Jesus realiza alguns gestos que interpretam ou dão sentido ao que ocorreria nos momentos que se seguiram: sua prisão, julgamento, condenação, crucifixão e morte. Esse desfecho final de sua vida e missão, que aos olhos da história parece um fracasso, é, porém, visto pelo próprio Jesus como expressão de uma “entrega”: a de seu corpo “dado” pelos discípulos, a de seu sangue “derramado” por “muitos”, para o “perdão dos pecados”, para estabelecer a “nova aliança”. No fundo, o mistério que se celebra é o resumo de toda uma vida “dada” para a salvação do mundo.
Muitos estudiosos dos textos do Novo Testamento notam a ausência, no evangelho de João, desses elementos da última ceia, ou seja, da cena da bênção sobre o pão e sobre o cálice e de sua entrega com as palavras com as quais comumente se faz memória desse último momento de Jesus com seus discípulos nas eucaristias cristãs. Ao invés da memória dos gestos e palavras sobre o pão e sobre o cálice, o Quarto Evangelho introduz a cena do lava-pés, seguida de uma explicação do gesto realizado, do anúncio da traição de Judas, da entrega do “mandamento novo”, do anúncio da negação de Pedro. Tudo isso se encontra no capítulo 13 do evangelho joanino, que prossegue nos quatro capítulos seguintes com vários discursos que Jesus teria feito após a última ceia.
A ausência da narrativa do que hoje se entende como relato eucarístico no evangelho de João, apesar de intrigante, é também reveladora. Para alguns estudiosos, isso pode ser interpretado de duas maneiras: (1) em muitas comunidades do final do primeiro século, a última ceia tinha sido capturada pelo “ritualismo”, ou seja, mais que reenviar os que dela participavam aos gestos de Jesus, que traduziam o sentido que ele tinha dado à sua vida e à sua morte, o ritual estava se tornando algo mecânico, que não implicava os que dele participavam, ou seja, não os faziam realizar o que eles realizavam, a saber, entregar a vida até o fim, como havia feito o Senhor; (2) ao colocar no centro da última ceia a cena do lava-pés, João recordaria o que era central no mistério cristão, a saber, aquilo que Jesus diz após ter lavado os pés dos discípulos: ele, o mestre e senhor, lhes havia lavado os pés, eles deveriam fazer o mesmo, e se eles compreendessem o que ele fazia e o colocassem em prática, eles seriam felizes. Portanto, os “gestos eucarísticos” evocados por Paulo, Marcos, Mateus e Lucas só tinham sentido se, de fato, se traduzissem em “lava-pés” na vida de quem deles fazia memória. Não é o ritual que salva, mas o que ele quer transmitir para quem o celebra.
É interessante notar que a liturgia da Igreja católica, apesar de ter se ritualizado muito ao longo dos séculos, como atesta a tradição da adoração eucarística, não esqueceu isso, como se percebe na celebração da Quinta Feira Santa, que propõe como evangelho a ser proclamado, o do lava-pés, seguido, inclusive, de um ritual de lava-pés. Embora a Igreja não tenha esquecido, no imaginário de muitos católicos o que importa é “adorar” o “Santíssimo” ou “comungar” o “Corpo do Senhor”, sem que esses dois atos se traduzam depois naquilo que a própria eucaristia diz no ato mesmo que é realizada, a saber, as espécies pão e vinho se transformam no corpo e no sangue do Senhor, para que os comungantes, por sua vez, se tornem, no mundo, o corpo e o sangue do Senhor que entrega a vida para que outros tenham vida, lavando os pés de tantos homens e mulheres que vivem em condições abjetas, e que encarnam no cotidiano da maioria dos fiéis os rostos e as vidas de pessoas que passam fome, sede, estão nuas, na prisão, nos hospitais, são estrangeiras, como bem recorda a parábola do juízo final de Mt 25,31-46.
A articulação entre lex orandi (= lei da oração), lex credendi (= lei da fé) e lex agendi (= lei da ação) na celebração do “mistério da fé”, que recolhe o que foi o sentido da vida de Jesus e o que deve ser o sentido da vida de seus seguidores e seguidoras, nunca pode esquecer o que está em sua origem, e que aparece no início de dois dos relatos da última ceia: em Lc 22,15, em que Jesus diz que desejou “ardentemente comer” aquela ceia pascal com seus discípulos antes de padecer; em Jo 13,1, em que o narrador diz que, “sabendo Jesus que chegara sua hora de passar deste mudo ao Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. Nessas duas afirmações, “desejar ardentemente” e “amou até o fim”, se condensa não só o que foi a vida de Jesus, mas também o que a atravessa desde seu âmago: “desejar” e “amar”.
A teologia e a mística cristãs deram muita importância ao tema do “desejo”, já presente em muitos salmos, mas também naquilo que motiva a busca do amado pela amada no livro do Cântico dos cânticos. Em geral, o desejo místico, como o desejo amoroso é movido pelo amor. E no caso preciso da última ceia, é Jesus que desejou partilhar o último instante de amizade e alegria com seus discípulos, no qual, segundo João, ele expressa um amor até o fim, ou seja, um amor total, sem reservas, que a tradição cristã vai identificar como sendo o amor de Deus pela humanidade. No dom de seu corpo e sangue, expresso no lava-pés como o dom do Senhor que se torna escravo, aparece aquilo que Paulo, tentando dizer o mistério do messias, chama de “loucura” e “escândalo”. Um Deus que deseja que aqueles que ele criou à sua imagem e semelhança, também sintam desejo, não só dele, como expressa toda a tradição da mística cristã, mas também de amar e se entregar à humanidade padecente, lavando-lhe os pés, num gesto que a eleva, reconhecendo sua dignidade muitas vezes espezinhada e humilhada.
Iniciar o Tríduo Pascal com a contemplação do “mistério” da fé, expresso no dom do corpo e do sangue do Senhor, e de sua tradução nos gestos múltiplos de lava-pés da humanidade ferida, eis a grande provocação que a fé cristã continuamente lança aos que se dizem cristãos e cristãs, mas também ao mundo. Somente o amor que deseja partilhar o que de mais profundo move os corações pode se tornar digno de fé e introduzir a humanidade numa situação de real eucaristia, dom de si que produz vida.
Geraldo Luiz De Mori, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
01/04/2026
