Aprender a habitar a própria existência: recordar a Martin Heidegger (1889–1976)

advanced divider

Luiz Sureki, SJ

No dia 26 de maio deste ano de 2026 recorda-se os 50 anos da morte do filósofo alemão Martin Heidegger, um dos pensadores mais influentes ‒ e mais desafiadores ‒ da filosofia contemporânea. Sua extensa obra não é de leitura fácil. Mas, por trás da linguagem exigente, encontra-se uma preocupação profundamente humana: o que significa, afinal, existir?

Heidegger parte de uma constatação simples, mas decisiva: nós existimos, mas raramente nos perguntamos pelo sentido dessa existência. Vivemos ocupados com tarefas, compromissos, preocupações cotidianas. Pensamos em muitas coisas, mas quase nunca paramos para pensar no fato de que somos. Essa é a sua pergunta central: o que significa Ser?

Não se trata de uma curiosidade abstrata. Trata-se de algo que atravessa a vida de todos nós. Existir não é apenas estar presente no mundo, mas estar lançado nele, sem ter escolhido nascer, sem saber plenamente para onde vamos. Somos seres que vivem no tempo, que projetam o futuro, que carregam o passado e que, ao mesmo tempo, sabem ‒ ainda que de modo difuso ‒ que um dia deixarão de existir.

Heidegger chama essa condição de ser-no-mundo. Não somos espectadores da realidade, mas participantes. Estamos sempre envolvidos em situações, relações, decisões. O mundo não é algo distante; é o lugar onde nossa vida acontece. Não obstante, há um risco constante: viver de modo superficial.

Podemos passar pela vida apenas repetindo hábitos, seguindo expectativas, ajustando-nos ao que “se faz”, ao que “se diz”, ao que “todos fazem”. Heidegger descreve essa forma de existência como um modo impessoal, no qual o indivíduo se dilui naquilo que ele chama de “o se” ‒ uma espécie de anonimato coletivo. Vive-se como se deve viver, pensa-se como se costuma pensar, sem assumir verdadeiramente a própria existência. Mas há momentos em que essa rotina se rompe.

A angústia, por exemplo, não é apenas um sentimento negativo. Para Heidegger, ela pode ser reveladora. Diferente do medo, que tem um objeto definido, a angústia nos coloca diante de algo mais radical: a percepção de que nossa existência é finita, que não temos garantias, que somos responsáveis por nossas escolhas. A angústia nos desperta. Ela nos retira da superficialidade e nos coloca diante de nós mesmos. Faz-nos perceber que a vida não é algo que simplesmente acontece, mas algo que precisa ser assumido.

É nesse contexto que surge uma das ideias mais conhecidas de Heidegger: o ser-para-a-morte. À primeira vista, pode parecer uma reflexão sombria. Mas seu sentido é outro. Não se trata de cultivar a morte, mas de reconhecer que a finitude dá forma à vida. Saber que somos finitos nos chama a viver de maneira mais autêntica, mais consciente, mais responsável. A morte, nesse sentido, não é apenas um fim, mas um limite que ilumina a existência. Ela nos lembra que o tempo é precioso, que as escolhas importam, que a vida não pode ser adiada indefinidamente.

Outro aspecto importante do pensamento de Heidegger é sua reflexão sobre a técnica. Ele percebeu, já em seu tempo, que o avanço técnico poderia transformar nossa relação com o mundo. Quando tudo passa a ser visto apenas como recurso ‒ algo a ser usado, explorado, controlado ‒ corremos o risco de perder a capacidade de nos relacionar com a realidade de maneira mais profunda. O mundo deixa de ser um lugar de sentido e se torna apenas um conjunto de objetos disponíveis.

Diante disso, Heidegger propõe algo surpreendente: aprender a habitar. Habitar não é simplesmente ocupar um espaço, mas viver de modo atento, respeitoso, aberto ao que se revela. É recuperar uma relação mais originária com o mundo, na qual não reduzimos tudo ao uso, mas nos deixamos tocar pelo que existe.

Essa proposta pode parecer simples, mas é profundamente exigente. Ela implica desacelerar, escutar, perceber. Implica também reconhecer que nem tudo pode ser controlado ou explicado. Num tempo como o nosso, marcado pela pressa, pela eficiência e pelo excesso de estímulos, essa atitude se torna particularmente desafiadora. Somos constantemente levados a fazer, produzir, responder. Mas raramente somos convidados a simplesmente ser.

Heidegger não oferece receitas nem soluções fáceis. Seu pensamento é, antes de tudo, um convite: parar e pensar. Pensar não no sentido de resolver problemas técnicos, mas de interrogar o sentido da própria existência. Esse é o seu legado mais importante: lembrar-nos de que a vida não se esgota nas tarefas que realizamos, nem nos papéis que desempenhamos. Há uma dimensão mais profunda, mais silenciosa, que só se revela quando temos a coragem de enfrentar a pergunta pelo ser. E essa pergunta não é apenas filosófica. É existencial.

Não basta viver como todos vivem. A tarefa mais difícil ‒ e mais necessária ‒ é viver a própria vida de verdade: fazer escolhas conscientes, não se perder na rotina e não adiar indefinidamente aquilo que dá sentido à existência.

Luiz Sureki, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE

28/05/2026

...