Moisés Nonato Quintela Ponte, SJ
“Com a guerra, quem perde é a humanidade”. A frase, tantas vezes repetida por João Paulo II em meio às guerras ocorridas durante o seu pontificado, ganha um peso particular diante do atual conflito no Irã, cujo potencial de devastação ultrapassa fronteiras e reacende uma pergunta antiga e urgente: como pensar a guerra à luz da fé cristã? É possível seguir legitimando-a com a teoria da “guerra justa”?
A reflexão cristã sobre a guerra nasce do choque entre o ideal evangélico e a dureza da história. Santo Agostinho, em meio ao colapso do Império Romano, reconhecia que a guerra é sempre um mal, mas um mal que às vezes se tolera para impedir injustiças maiores. Em A Cidade de Deus, ele afirma que guerras justas são aquelas que “punem as injustiças” e que só podem ser travadas com “intenção de paz”, jamais por ódio ou ambição.
Séculos depois, Santo Tomás de Aquino sistematizou essa intuição. Na Suma Teológica (II-II, q. 40), ele estabeleceu três critérios para a guerra justa: autoridade legítima, causa justa, intenção reta. Tomás não canoniza a guerra; ele a cerca de condições tão estritas que ela se torna exceção extrema. A paz, para ele, é “obra da justiça”, e a guerra só pode ser tolerada quando visa restaurá-la.
Essa tradição, embora realista, nunca perdeu de vista o horizonte evangélico. Com o século XX — duas guerras mundiais, genocídios, Hiroshima e Nagasaki — a Igreja percebeu que a guerra moderna já não se encaixa nos pressupostos da teoria clássica.
João XXIII, na encíclica Pacem in Terris (1963), afirmou sem contornos: “não é mais possível pensar que nesta nossa era atômica a guerra seja um meio apto para ressarcir direitos violados.” A própria lógica da guerra se tornava incompatível com a dignidade humana.
João Paulo II, na mensagem para o XXXIII Dia Mundial da Paz, descreveu o século XX como uma sucessão “infinda e horrenda” de guerras, genocídios e limpezas étnicas. Ele identificou as raízes desse sofrimento na lógica da prepotência, no desejo de dominar, nas ideologias totalitárias, nos nacionalismos insensatos e nos ódios tribais. Ao afirmar que as guerras “espezinham a dignidade e os direitos das pessoas”, que não resolvem os problemas que as motivaram e que, além de devastadoras, são “inúteis”, João Paulo II mostrou que a violência armada não apenas destrói vidas, mas compromete o próprio tecido moral que sustenta a civilização: “com a guerra, quem perde é a humanidade”.
Em discurso à Pontifícia Academia das Ciências (12 de novembro de 1983), João Paulo II denunciou a participação de cientistas e técnicos na produção de armas indiscriminadas, interpelando-os à objeção de consciência: “Quando, numa situação histórica determinada, é quase inevitável que uma dada investigação científica seja utilizada com objetivos de agressão, [o cientista] deve fazer uma opção que lhe permita contribuir para o bem dos homens, para a construção da paz”.
Em várias alocuções e escritos, bem como em seu testamento espiritual, condensado no livro “Esperança: a autobiografia”, o papa Francisco leva o magistério contemporâneo sobre a guerra a uma de suas formulações mais contundentes. Para ele, a mera posse de armas nucleares é imoral, algo inédito na história da Igreja. No texto, a guerra é sempre descrita com palavras duríssimas: “De forma alguma heroísmo, de forma alguma retórica: a guerra não é senão vileza e vergonha no mais alto grau.”
Com 80% de vítimas civis, destruição ecológica, drones, armas autônomas… a guerra contemporânea tornou-se estruturalmente injusta. Não há mais como falar de “guerra justa” sem trair a realidade. Por isso, o Papa Francisco recorre a São Vicente de Lérins, que no século V escreveu que o dogma cristão “progride, consolidando-se com os anos, desenvolvendo-se com o tempo” para repensar os novos cenários e desafios: “a consciência dos homens se aprofunda. Pensamos em quando a escravidão era admitida ou a pena de morte não suscitava problemas — no entanto, são inadmissíveis e de modo algum constituem soluções; ao contrário, são um veneno para a sociedade”. A guerra, que antes podia ser tolerada em condições excepcionais, hoje se revela — talvez sempre — moralmente inaceitável.
Em suas primeiríssimas palavras após a eleição, o papa Leão XIV apresentou-se ao mundo como um pontifex da paz. Retomando a saudação do Ressuscitado — “A paz esteja convosco” —, definiu a paz cristã como “desarmada e desarmante”, capaz de romper a lógica da ameaça e da retaliação. Em suas intervenções recentes, como em sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz, de 2026, Leão XIV tem advertido contra a normalização da guerra e do rearmamento, bem como contra a transferência das decisões de vida e morte para sistemas tecnológicos cada vez mais autônomos.
Em tudo isso se vê que a tradição cristã não é estática. Como tanto insistiu o papa Francisco — cujo nome nos evoca o santo da Paz e do Bem, que atravessou campos de batalha para encontrar o sultão e chamou todos de irmãos e irmãs —, ela respira, cresce, aprofunda-se. Hoje, diante da ameaça nuclear, da guerra global “em pedaços” e da indústria da morte, a traditio progride em remissio: em remissão de tantos anos sangrentos testemunhados pela Igreja em sua própria história, e enquanto nos remete ao coração do Evangelho de Jesus: “Ouvistes o que foi dito: ‘Amarás teu próximo e odiarás teu inimigo’. Mas eu vos digo: amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem (…). Se amardes os que vos amam, que recompensa tendes?” (M 5,43-44.46). Sem glosa, a Igreja deve novamente ouvir, com atitude de discípula e discípulo, a ordem daquele a quem chama Mestre (magister) e Senhor: “Pedro, guarda a espada!”.
Moisés Nonato Quintela Ponte, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
07/05/2026

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