Cala, amigo…Cuidado, amiga…

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Sílvia Contaldo

Esses são versos do poema Canção de Vidro, de Mário Quintana, publicado em 1985, quando já se havia passado 14 anos desde que Buzz Aldrin e Neil Armstrong pisaram o solo lunar.  Dois astronautas, dois homens, brancos e norte-americanos. Ficaram 21 horas e meia na Lua. Sua alunissagem foi transmitida ao vivo, naquela época, pela televisão. Transbordamento de emoções, pois foi “um pequeno passo para um homem, um passo gigante para a humanidade”, que desde então habitam nossa memória.

De lá para cá a humanidade agigantou-se ainda mais. Antes da missão espacial de Armstrong e Aldrin houve outras 67, sendo que a maioria delas foi mal sucedida. Muitos países sempre estiveram direta e pretensiosamente envolvidos nessa aventura cósmica:  Estados Unidos, China, Índia, Israel, Japão além dos países que integram a Agência Espacial Europeia. Depois  de Apolo 11 até 2020  foram mais 55 empreitadas, também nem sempre bem sucedidas.  De qualquer forma, a humanidade  continuou excedendo-se,  sem levar em conta medidas e limites.

De todas essas viagens espaciais já participaram homens e mulheres e criaturas não humanas. Vejamos. Dois ilustres representantes da espécie Macaca mullata, Albert 1 e Albert 2, foram pioneiros em 1949.  Enos, um chimpanzé, embarcou em 1961. Ratos e camundongos, gatos, tartarugas, moscas, porquinhos da índia também deram sua contribuição para esse agigantamento. Criatura especial foi Laika, uma linda vira-lata que deixou de perambular pelas ruas de Moscou para  ser conhecida como o primeiro ser vivo a orbitar a terra. Laika fez parte da missão Sputnik 2, realizado há 69 anos.  Não viveu o suficiente para contemplar outros céus, pois faleceu poucas horas depois de ser embarcada para cruzar o espaço.

Em 10 de abril de 2026 Christina Koch, Jeremy Hansen, Reid Wiseman e Victor Glover retornaram de mais uma missão espacial à Lua, contribuindo para agilizar os passos gigantescos que a humanidade tem dado.

Entre Apolo 11 e Artemis II passaram-se apenas 57 anos, considerando o tempo cósmico e não o tempo humano, esse cada vez mais encurtado pelas urgências de sub-missões.

Em 1969 assistíamos a esses acontecimentos de tamanha grandeza na sala de casa, se porventura, houvesse ali uma televisão. Não havia tela colorida, mal distinguíamos a textura da roupa desses viajantes sideristas.  Mas ouvíamos os nomes! Ficávamos atento às palavras, para  serem guardados  na memória, esse palácio interior – como escreveu santo Agostinho em suas Confissões. Na memória estão “à disposição o céu e a terra junto com tudo aquilo que pude sentir neles” (Conf. X, VIII, 13).  Lá estão Laika, Albert, Copérnico,Galileu, Sagan e tantos outros que provocam em nós espanto e perplexidade frente a tantos desvelamentos científicos.

Atualmente temos à nossa disposição – e em tempo contínuo – todas as informações em tempo real, demasiadamente coloridas que ficamos até sem saber distinguir entre o natural e o artificial… No entanto, parece que andam se esquecendo – também no campo das ciências experimentais – das mulheres.  Lembro aqui o nome de algumas, não mais nem menos importantes. Apenas com o propósito de chamar a atenção para os versos do poeta gaúcho, que enseja esse texto.  Cuidado, cara jornalista, com as palavras: “Uma palavra só / pode tudo perder para sempre”.  Ada Lovelace (1815-1852), britânica, primeira programadora de computadores; Caroline Herschel (1750-1848), alemã, descobriu as nebulosas; Elizabeth Blackburn, nascida em 1948,  australiana, pesquisa Biologia molecular contribuindo diretamente para tratamentos do câncer;  Hedy Lammar (1914-2000), austríaca, inventora e atriz, criou o  que hoje conhecemos por wi-fi; Jacqueline Goes de Jesus, nascida em 1989, brasileira, biomédica, coordenou a  equipe que sequenciou o genoma da Covid; Jane Goodall (1934-2025), britânica, a mais importante pesquisadora de chimpanzés que o mundo já teve;  Lisa Meitner, sueca (1878-1968), pesquisadora dos elementos radioativos; Marie Curie (1867-1934), polonesa, pioneiríssima nas pesquisas sobre radiação; Mary Jackson (1921-2005), norte-americana, primeira engenheira aeroespacial; Rosalind Franklin (1920-1958), britânica) foi a primeira a demonstrar, por Raio X, a dupla hélice das moléculas de DNA.

A lista é interminável mas pode ser de alguma valia para aqueles e aquelas que, apesar de tanto refinamento midiático, ainda noticiam, no século XXI, que na recentíssima missão espacial estavam dois homens brancos, um negro e uma mulher. Não custa repetir o poeta gaúcho: cuidado amiga, uma palavra só, pode tudo  perder para sempre.  Tripulantes humanos e não humanos, nessa jornada milenar, têm nome, identidade e um incomensurável amor pela humanidade.

Silvia Contaldo é Professora no Departamento de Filosofia da FAJE

16/04/2026

Foto: Shutterstock

 

 

 

 

 

 

 

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