Priscila Cirino Teixeira, fmvd
No próximo domingo, a Igreja Católica, assim como algumas Igrejas da Reforma (como a Luterana, por exemplo), celebram a Santíssima Trindade. Esta festa litúrgica volta nossa atenção para a dimensão mais específica da fé cristã: cremos no Deus que é Uno e Trino. Ao longo do tempo, essa afirmação, ainda que fielmente professada em nossas celebrações e ensinada em nossas catequeses, tornou-se algo distante da realidade cotidiana, parecendo mais um enigma matemático confuso e inacessível.
Felizmente, desde a segunda metade do século passado, a teologia contemporânea viveu – e vive – um momento de revitalização da fé trinitária, favorecendo a “redescoberta” da centralidade do Deus Triúno tanto para a reflexão teológica quanto para a existência cristã concreta. Por outro lado, infelizmente, essa revitalização alcança a passos muito lentos nossas comunidades de fé, seja no âmbito da práxis, seja nas catequeses e homilias. Nesse sentido, pode ajudar o recurso a um vocabulário mais conforme a nossas realidades e que “aproxime” o mistério divino – aparentemente inalcançável – a nossas vidas.
Falar do Deus Trinitário supõe, em primeiro lugar, a necessidade de tomar consciência – e expressar isso em nossas catequeses e homilias! – de que toda linguagem usada será sempre analógica, comparativa, simbólica. As palavras escolhidas – mesmo as do dogma – jamais serão a expressão total e certeira de quem Deus é. Ainda assim, acompanhados/as por algum silêncio orante e uma atitude de adoração, com justa hesitação, podemos assumir o risco de nos pronunciar sobre o mistério do Deus Triúno e de procurar as palavras para falar, “com sinceridade” e “na presença de Deus” (2Cor 2,17), sobre o “que excede todo conhecimento” (Ef 3,14-19).
Nessa busca pelas palavras mais adequadas possíveis, considero de especial relevância referir-nos à inter-relacionalidade divina como elemento fundamental da fé trinitária. Crer em Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo significa crer no Deus que é essencialmente relacional, que não existe senão como relação e em relação. Para caracterizar as relações entre Pai, Filho e Espírito Santo, poderíamos dizer que são relações de plena mutualidade, de comunhão total, de absoluta comunicação de vida e de amor. No intuito de expressar isso, a teologia cristã usou, tradicionalmente, o termo “pericorese”, que originalmente “significa um movimento cíclico, uma ação que gira em círculo, como a rotação de uma roda”[1]. Busca-se, assim, exprimir que “a vida divina circula sem qualquer anterioridade ou posterioridade, sem qualquer superioridade ou inferioridade de uma pessoa em relação às outras”[2].
Com a intenção, previamente enunciada, de aproximar o mistério trinitário de nossa realidade, esse conceito teológico pode – e deve – ser “traduzido” com uma imagem bastante sugestiva: a da “divina dança”. A experiência de relação, parceria, reciprocidade e envolvimento mútuo vivenciada na dança se mostra um símbolo adequado para figurar a relacionalidade divina, professada pela fé cristã. A esse respeito, a teóloga Catherine LaCugna afirma: “não há nem líderes nem seguidores na dança divina, apenas o eterno movimento recíproco de dar e receber, dar novamente e receber de novo”[3].
A eterna dança divina não é, porém, um “círculo fechado”. Ela se abre, com um dom gratuitamente oferecido, chamando-nos a participar desse movimento recíproco e envolvente de amor e comunhão. Celebrar a fé no Deus Triúno é celebrar também o convite a que sejamos parceiras e parceiros na amorosa dança da Vida. Ao ritmo da “melodia” trinitária, somos inspiradas/os e animadas/os a viver relações que, à imagem da inter-relacionalidade divina, se caracterizem pela reciprocidade, pela mútua afirmação, pela liberdade e pela comunhão, sem espaço para qualquer tipo de subordinação, desigualdade ou hierarquia. Tomara que o convite divino seja aceito e que sejamos aprendizes atentos/as dos passos dessa Dança Vital!
Priscila Cirino Teixeira é professora e pesquisadora no departamento de Teologia da FAJE
28/05/2026
[1] Johnson, Elizabeth A. Aquela que é: o mistério de Deus no trabalho teológico feminino. Petrópolis: Vozes, 1995, p. 314.
[2] Johnson, Aquela que é, p. 315.
[3] LaCugna, Catherine M. God for Us: The Trinity and Christian Life. San Francisco: Harper One, 1993, p. 272.

Fonte: catequesehoje.org.br