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Conteúdo da conferência: As Igrejas da Europa Oriental no contexto atual

Pe. James McCann, SJ

Há muito tempo, numa Chicago longínqua, eu era aluno numa escola secundária que se chama Santo Inácio, dos Padres Jesuítas. Todos cursávamos latim e depois nos davam a escolha de uma língua moderna: espanhol, francês, alemão e russo. O francês foi minha primeira opção, depois o alemão, e por sorte, coloquei o russo em terceiro lugar. Poucos alunos escolheram o russo, então me colocaram no curso de russo. Tive uma grande surpresa: gostei muito da língua e logo a aprendi.

Por que os jesuítas ofereciam um curso de russo? Tinha um jesuíta, um padre americano, que fora sido enviado ao Russicum, de Roma, para estudar o russo a fim de eventualmente trabalhar numa paróquia, se a União Soviética abrisse suas portas aos padres estrangeiros. Porém, a União Soviética não se abria nunca. Após seus cursos em Roma, o Pe. Meyers foi a Harbin, na China, onde tinha uma importante população russa. Depois veio a revolução de Mao. O Pe. Meyers voltou aos Estados Unidos.

Naquela época os Soviéticos enviaram o primeiro satélite, o Spoutinik, ao espaço. Os Americanos ficaram então com medo de estarem atrás na corrida espacial. Por isso, acrescentaram mais ciências e matemáticas no currículo das escolas. Encorajavam também o estudo da língua russa. Nesse contexto foi pedido ao Pe. Meyers que ensinasse russo na escola onde eu estudava. Fui seu aluno.

O mesmo Pe. Meyers organizou uma viagem à Europa a um preço bastante interessante. Ganhei bastante dinheiro em um trabalho de verão para comprar a passagem. Visitamos muitos países, começando pela Irlanda, onde encontrei meus avós pela primeira vez. A viagem compreendia ainda Istambul e a União Soviética. Chegamos pelo Mar Negro a Odessa, onde se via a célebre escada. Depois tomamos o trem para Kiev, onde eu fiquei gravemente doente. A dor era tão intensa que eu mesmo chamei a ambulância. A equipe médica chegou perguntando onde exatamente eu sentia dor e quanto ganhavam os médicos nos Estados Unidos. Eles decidiram de me levar ao hospital, o Hospital clínico de Kiev em nome da revolução de outubro.

Lá experimentei a maior dor de minha vida. Meu apendicite estuporou.  Levaram-me logo para a sala de cirurgia. A médica, uma mulher de certa idade, com os cabelos cortados num coque, me salvou a vida. Também recebi sangue. Sangue soviético? Sangue ucraniano? Quem sabe? O certificado que me deram no fim de minha estadia de duas semanas dizia « data da saída do hospital ou data da morte – sublinhar». Deixei o hospital no dia 3 de agosto. Oito dias depois, a ferida ainda estava sendo drenada, entrei no noviciado da Companhia de Jesus, perto de Cincinnati, no estado de Ohio.

Conto esta história para explicar como fui parar no escritório de Reitor do Pontifício Instituto Oriental.

Continuei meus estudos de língua e literatura russa e depois de história, lei e política na Yale University e, mais tarde, na Princeton University. Entre os dois, terminei meus estudos de teologia para o sacerdócio no Centre Sèvres, de Paris, donde vem meu francês.

Gosto muito do ensino. Desde cedo ensinei o francês e o russo, e depois as relações internacionais e a política comparativa da Rússia e da Europa Oriental (sobretudo da Polônia e da Iugoslávia) na Loyola University, de Chicago e na Xavier University, de Cincinnati.  Em 2003 me pediram para deixar as aulas e dirigir o secretariado de ajuda aos países da Europa central e oriental junto à Conferência Episcopal Americana. Cada ano há uma coleta na maioria das paróquias dos Estados Unidos para a Igreja da Europa Central e da ex-União Soviética. Isso compreende vinte e oito países. O secretariado sustenta financeiramente todo tipo de projetos (a construção de igrejas, os mass media, as escolas, as bolsas de estudos, os seminários, a formação de leigos etc.). Esta coleta « provisória », iniciada há vinte anos, continua até hoje porque ainda há muita necessidade na região.

Após sete anos em Washington, me chamaram a Roma e ao Oriental. Era completamente imprevisto! Estou no Brasil pela primeira vez com o P. Massimo Pampaloni, SJ, para encontrar os meios de aprofundar nossos laços com vocês.

Hoje me pediram para falar sobre os desenvolvimentos na Europa Central e Oriental e na ex-União Soviética após a queda do comunismo, no fim dos anos 80 e no começo dos anos 90. Levando em conta minha formação, falarei da Igreja e da política.

Em breve celebraremos vinte a cinco anos da queda do muro de Berlim. Como o tempo passa rápido! Devo assinalar que nenhum especialista no domínio dos estudos soviéticos ou da história da política havia predito a queda do comunismo. Mesmo um homem de grande experiência como o famoso Henry Kissinger havia assinalado que o sistema político comunista tinha fraquezas evidentes, que enfraqueceria e, talvez, entraria em colapso ao redor do ano… 2015.

Quando olhamos a religião organizada da região em 1989, temos a tendência de ver algo cinzento e informe. Lembro-me desses grandes blocos de apartamentos soviéticos construídos nos anos 60 e 70. Eles pareciam tão uniformes que as crianças que voltavam da escola se perdiam desesperadamente, não sabendo em qual bloco sua família habitava. Para resolver isso, alguém teve a brilhante ideia de pintar pictogramas de animais nos blocos para ajudar as crianças a encontrar seu bom caminho.  “Moro no bloco com a girafa. Tu, tu vives no do elefante”.

Temos a tendência a pensar os países da Europa oriental e a ex-União Soviética do mesmo modo cinzento e informe. Mas isso não é realmente o caso. Na Polônia, havia uma tolerância relativa ,ao menos da religião cristã. Grupos cristãos, pastores, bispos, professores encontravam meios muito astuciosos para “jogar o jogo”, assegurando uma vida eclesiástica relativamente fácil em estreitos limites. A vida dos fiéis na Tchecoslováquia era radicalmente diferente. Conventos e casas religiosas fecharam suas portas definitivamente. As escolas religiosas não existiam mais. Uma rede complexa de denunciadores (sobretudo no clero) assegurava o controle estrito da vida religiosa.

A União Soviética, que se vangloriava da liberdade religiosa dentre outros “direitos”, desenvolvia meios mais complicados para restringir a religião organizada. As máquinas de datilografar e as fotocopiadoras eram rigorosamente registradas e frequentemente fechadas a chave. Se um grupo particular tinha conseguido anunciar sua mensagem, o KGB inundaria o mercado negro com papel especialmente tratado que poderia ser descoberto pelos detectores. A imprensa secreta, então, era estritamente limitada. De vez enquanto os líderes religiosos eram presos. A disseminação da religião era formalmente proibida às crianças.

Os cristãos continuaram a formar comunidades de culto durante aqueles anos, frequentemente sob circunstâncias muito difíceis e muito frequentemente sem padres nem pastores.

A Igreja Ortodoxa Russa foi efetivamente destruída nos primeiros anos do poder soviético. Havia um programa de ateísmo militante ou feroz.  Stálin “encontrou” a religião, podemos assim dizer, durante a Segunda Guerra mundial. Ele pensava que uma reintegração da Igreja Ortodoxa Russa seria útil para o desenvolvimento do patriotismo russo (e não soviético). Há aí muita ironia. Por certo tempo, Stálin foi seminarista em sua Geórgia natal. Certamente foi-lhe pedido para deixar o seminário por causa de sua atividade revolucionária e sua participação em roubos de bancos!

A reintegração da Igreja durante guerra teve certo sucesso. Soldados que iam para a morte gritando “Pela pátria, por Stálin!” A ideia de pátria tinha então ao menos um pequeno conteúdo religioso.

Os líderes soviéticos do pós-guerra utilizaram a Igreja para a política estrangeira soviética. Após 1946 o Patriarcado de Moscou tinha um Secretariado para as questões estrangeiras. A Igreja, apesar de ter sobrevivido, ficou irreversivelmente comprometida. A jovem geração de 1989 compreendeu bem isso.

Para os anos de minha infância, rezava-se no fim da missa de cada domingo pela conversão da Rússia. Como se dizia então: esteja atento ao objetivo de tua oração! A União Soviética desmoronou, e a Igreja Ortodoxa Russa entrava numa era de renovação autêntica.

Vocês conhecem a história da conversão ao cristianismo da Rus’ de Kiev (o ancestral da Rússia)? Segundo a tradição, a Princesa Olga (talvez Helga), de Kiev, tornou-se cristã. Ela tentava persuadir seu neto, o Grande Príncipe Vladimir, de também se tornar cristão. Vladimir convocou para um encontro representantes de todas as religiões conhecidas. Ele enviou sua delegação ao redor do mundo para conhecer os cultos de cada religião. Ele não gostava do Islã, mas nunca disse por que. A fé cristã latina, representada na época pelos alemães, “era sombria e cheirava mal”. Seu culto, pouco impressionante, não possuía beleza. Os judeus eram fascinantes, mas se sua lei e sua aliança vinham de Deus, por que estavam dispersos por todo canto em tantos países do mundo?  “O povo de Roma” tomava hóstias para a comunhão, mas Jesus não tinha abençoado pão?

A liturgia dos greco-cristãos persuadiu Vladimir.  Seus legados voltaram de Constantinopla com a célebre descrição da liturgia na Hagia Sophia.  “Estávamos maravilhados e não sabíamos se estávamos no céu ou na terra… Deus está lá com eles. Não podíamos esquecer tal beleza e harmonia” .

Vladimir se converteu no ano 988, e assim se converteu o povo da Rus’ de Kiev.  Como batizá-los? Ordená-los de descer no rio Dniepr ! Não é uma grande surpresa que a conversão total das pessoas não se realizou de uma só vez. Muitos costumes e usos pagãos permaneceram até hoje.

Do mesmo modo, quando a Igreja Ortodoxa Russa se encontrou de repente liberada de controles soviéticos, ela não podia planejar uma reintegração plena de repente. Os imóveis deviam ser restaurados, frequentemente de maneira radical. Muitas igrejas tinham sido utilizadas como depósitos, ringues, salas de cinema etc. Donde viria o dinheiro para empreender uma restauração tão radical? Sem nenhuma dúvida, do Estado. Devia se formar um novo clero numeroso. Aí se fez grandes compromissos. Dava-se aos seminaristas uma formação muito superficial em teologia. Eles se precipitavam à ordenação. Sua formação era provisória ao menos. Esta geração do clero está agora recebendo uma melhor formação e atualização, mas a Igreja tinha sofrido da fraca formação no começo.

O estado russo forte de Yeltsin e, mais tarde, de Putin, que sucedeu à União Soviética, desenvolvia laços estreitos com a Igreja Ortodoxa Russa.  Não somente Yeltsin, mas também Putin, retornaram pessoalmente à Igreja e frequentavam muito frequentemente os ofícios, ao menos durante as grandes festas. O dinheiro fluía abundante da parte do Estado russo pra restaurar e construir igrejas ortodoxas em todo lugar na Federação. Nos anos 30 a famosa Catedral do Cristo Salvador, em Moscou, tinha sido destruída por Stálin, que colocou a maior piscina do mundo em seu lugar.

Em 1992, o primeiro ano depois da queda da União Soviética, anunciaram um plano de reconstrução da Catedral exatamente como era em todo seu esplendor neogótico do século XIX. Acima desta estrutura imensa se previa a construção de escritórios para o Patriarca e sua comitiva. O custo total seria pago pelo Estado. Fala-se do equivalente de 500 milhões de dólares.

Deram à Igreja Ortodoxa muitos privilégios, inclusive uma licença especial para a venda de cigarros e licores sem taxas.

A Igreja Ortodoxa Russa, novamente revitalizada, achava-se confortável em sua nova e recente posição. A base teológica para isso pode ser encontrada na noção de symphonia, que data da época de Bizâncio e, sobretudo, do reinado do Imperador Justiniano. Via-se o império como uma reflexão do Reinado de Cristo. “A Igreja e o estado deviam colaborar para a realização de um destino sublime do povo sob sua jurisdição e não existe conflito entre os meios utilizados pela Igreja e o Estado na promoção do bem comum de seus cidadãos”. A Igreja e o Estado são separados em suas próprias esferas, mas desenvolvem uma “relação íntima” cuja linha de demarcação “resta incerta”.  Descreveu-se essa relação como “uma maneira de exercer o poder político (‘para baixo’), mas também como uma estratégia para obtê-lo (‘para o alto’)”.  Dito de outro modo, cada lado aproveita politicamente da situação.

A Duma, ou o Parlamento russo, aprovou um projeto de legislação regularizando o estatuto oficial dos grupos religiosos no país. Nos primeiros anos pós-soviéticos havia uma grande consternação no que concernia a atividade livre de certas “seitas” que vinham, majoritariamente, do Ocidente. Numa colaboração muito estreita com a Igreja Ortodoxa Russa, a Duma reconheceu quatro “religiões tradicionais” na Rússia: o cristianismo ortodoxo, o islã, o judaísmo e o budismo. Alicja Couranovi? escreveu, “Eventualmente, mecanismos de cooperação (o que se chamava uma associação social) foram criados na esfera pública, sobretudo na educação e no bem público”.  A Igreja Ortodoxa Russa continuava ao mesmo tempo uma atividade muito vigorosa na diplomacia internacional, gozando, desde 2003, dos laços estreitos com o Ministério das Relações Exteriores, sob Sergeï Lavrov. Segundo esse regulamento, “o território canônico da Igreja (ou seja, o território sobre o qual exerce sua jurisdição) se estende ao espaço pós-soviético inteiro – exceto a Geórgia e a Armênia”.  A atividade das outras “religiões tradicionais” é até agora mínima. Notem que a ortodoxia é a única forma aceitável do cristianismo “tradicional”. Os outros cristãos, como por exemplo, os católicos, foram assim marginalizados do ponto de vista legal.

A presença da Igreja Ortodoxa Russa em outros domínios sociais é impressionante. A Igreja joga um grande papel nas forças militares com a presença onipresente dos capelães. Aqui o patriotismo e a fé estão estreitamente ligados. A Igreja tem boa reputação no que concerne a proteção dos soldados contra abusos arbitrários do poder e contra o bullying.  Na educação, a EOR pediu cursos sobre a Ortodoxia em todas as escolas do Estado na Rússia. Com o tempo, chegou-se a um compromisso. Cada aluno deve escolher um curso entre as quatro “religiões tradicionais” ou um curso sobre a ética secular. No trabalho caritativo, a Igreja fornece os serviços que eram assegurados antes pelo Estado sob o regime soviético.

A Igreja Ortodoxa Russa desenvolveu uma vida intelectual vigorosa nos anos pós-soviéticos. Várias instituições de ensino superior foram fundadas ou restauradas. Algumas gozam do favor do Patriarca, outras menos. Pode-se falar do desenvolvimento de certas faculdades bastante independentes e de certas universidades independentes com um grande programa de estudos. Estas avançam lentamente segundo as normas do Ocidente.

A biblioteca extraordinária do Pontifício Instituto Oriental me recorda a energia da vida intelectual da Igreja Ortodoxa Russa antes da Revolução de Outubro. Temos a tendência, no Ocidente, de ver na Rússia uma Igreja sempre isolada e não engajada no mundo mais amplo. Não é o caso. Quando nosso Instituto organizou um seminário sobre o ponto de vista ortodoxo relacionado ao Concílio Vaticano I, pensei que o mesmo seria muito breve. Mas, quando olhei as numerosas revistas de seminários do interior (não em Moscou ou em São Petersburgo) que temos em nossa biblioteca, me dei conta de quanto os movimentos intelectuais (religiosos e seculares) na Europa interessavam os ortodoxos russos do séc. XIX.

Neste ano há um grande debate no Parlamento russo sobre a possibilidade de dar à Igreja Ortodoxa Russa uma posição especial na Constituição do país. O Patriarcado de Moscou sustenta esta proposição, mas pediu um debate mais amplo na sociedade. Existe a possibilidade de se mudar o Estado russo de um estado secular (como hoje) a um estado onde o cristianismo ortodoxo constituirá a “fundação da identidade nacional e a herança da Rússia”.

Não pode haver dúvida sobre a posição de favorecimento da ortodoxia na Rússia de Putin. Este fala muito do modo como o estado russo tinha se tornado fraco. Ele fala também muito pouco do colapso da União Soviética. Nesta mentalidade a ortodoxia se torna um instrumento do Estado e uma parte integral da civilização russa. Na perspectiva de Putin, as grandes mudanças provocadas pela globalização poderiam roer a identidade russa e diluir a natureza específica da cultura russa. O mundo do Islã também põe seus desafios à civilização russa. A Igreja Ortodoxa poderia compensar seus desenvolvimentos.

Os católicos do mundo pós-soviético descobriram logo que a EOR defenderia com vigilância suas prerrogativas do território canônico. Em 2001, quando o Vaticano declarou a instalação de quatro dioceses na Federação russa, a resposta foi imediata e furiosa. Os católicos são acusados ainda hoje de se engajar no proselitismo, de perseguir sem justificação cidadãos ortodoxos inocentes e de leva-los à conversão. Agências católicas caritativas, como orfanatos, eram atacadas abertamente e várias foram fechadas sob o pretexto de falta de proteção contra incêndio.

Os jesuítas fornecem um exemplo interessante do destino dos católicos na Rússia pós-soviética. Primeira entidade religiosa baseada no estrangeiro a pedir um reconhecimento legal, a Companhia de Jesus recebeu tal reconhecimento oficial (da parte do Ministério da Justiça) em 1992, menos de um ano depois do colapso da União Soviética. Fiéis a seu voto ao Pontífice Romano, os jesuítas são frequentemente enviados em qualquer parte no mundo com uma tarefa específica. A Rússia era diferente. O Papa pediu aos jesuítas para irem à Rússia e descobrir quais eram as necessidades da comunidade católica. Este caminho não era fácil. Mesmo agora, mais de vinte anos depois, a situação não é clara.

Por deferência com os ortodoxos russos, os jesuítas de rito bizantino trabalham na Ucrânia, e não na Rússia. Todos os jesuítas na Rússia (exceto o Bispo de Novosibirsk) celebram a liturgia exclusivamente em rito latino. Isso criou uma confusão cultural. Uma velha russa, que visitava uma de nossas casas, via a capela, cujos desenhos tinham sido concebidos por um irmão polonês. Ela pensava instintivamente que, talvez, se tratasse de um lugar santo, mas não estava segura. “É permitido rezar aqui?”, perguntava ela de um modo muito russo.

Os esforços dos jesuítas em fundar um Instituto de ensino superior em Moscou encontraram dificuldades consideráveis. No fundo deste problema há a realidade de que existem poucos jesuítas de origem russa. Parecia, no começo dos anos 90, que havia muitas vocações, mas isso não se confirmou. Com efeito, poucos candidatos permaneceram na Companhia. A lei russa pede que o diretor de um instituto de ensino superior, em qualquer lugar que seja na Federação, seja um cidadão russo. Mas os jesuítas russos são pouco numerosos. Por causa disso, o Instituto de Moscou possui dois reitores: um reitor de jure e um reitor de facto. Outras questões burocráticas tinham forçado o Instituto a mudar radicalmente seu programa de estudos ou então o mesmo corria o risco de ser fechado através de um processo legal. A população católica é pouco numerosa e muito dispersa em grandes territórios. Assim é difícil para os jesuítas discernirem e encontrarem um papel. Buscamos ainda.

Gostaria de falar brevemente da Ucrânia. A situação religiosa antes da crise atual era caracterizada por divisões profundas. Na Igreja católica os greco-católicos dominam pelo número e influência. Recentemente eles se transladaram: o patriarcado de Lviv está agora em Kiev. Os católicos de rito latino são muito pouco numerosos e estão concentrados na região oeste do país, sobretudo ao redor de Lviv. Como vocês sabem, por razões políticas delicadas, o chefe da Igreja greco-católica é o “arcebispo maior”, apesar de a Igreja ser em princípio patriarcal. Reza-se pelo “patriarca” na liturgia.

Até hoje, no período pós-soviético, os greco-católicos e os latinos não manifestaram uma grande harmonia. Irromperam disputas ao redor do programa acadêmico da Universidade Católica Ucraniana, uma escola fundada pelos greco-católicos. Grandes debates se desencadearam ao redor da posse dos imóveis, cada vez que o Estado “devolvia” uma igreja aos católicos. Em minha opinião esta falta de solidariedade entre os católicos levou-os a uma perda preciosa de influência.

A Igreja Ortodoxa da Ucrânia é dividida em três grupos diferentes: a Igreja Ortodoxa Ucraniana (Patriarcado de Moscou), a Igreja Ortodoxa Ucraniana (Patriarcado de Kiev), e a Igreja Ortodoxa Ucraniana Autocéfala. Também aqui, a falta de unidade fez diminuir a presença da Igreja nas esferas social, cultural e política. A mesma falta de unidade enfraqueceu a autoridade moral da Igreja.

A situação atual na Ucrânia é extremamente séria. Ela muda a cada dia. Então, se falará no dia onze de março, mas eu não falarei aqui no texto escrito.

Falei muito da Rússia, mas é muito importante! Farei agora algumas generalizações sobre a situação na Europa central e oriental antes de nosso debate.

Como em toda parte na Europa e na Ásia pós-comunista, as Igrejas manifestaram sua falta de experiência com a democracia. O novo sistema político, embora ostentasse muita liberdade, era frequentemente (e isso foi uma surpresa) muito intolerante com a religião organizada. Em certos países, uma rigorosa separação da Igreja e do Estado foi introduzida na lei. Em outros países, as Igrejas foram forçadas a estabelecer compromissos com os homens políticos a fim de exercer uma influência política. Foram ainda forçadas a aceitar o dinheiro público ou a estabelecer compromissos a fim de transmitir em todo canto sua voz.

A Polônia, onde a Igreja católica foi dominante durante séculos, apresenta um caso interessante. A hierarquia católica na Polônia tinha ao longo dos anos de comunismo desenvolvido meios muito astuciosos para evitar ser oprimida pelo sistema comunista. Após a queda do comunismo, muitos bispos acreditavam com confiança que a grande influência da Igreja seria inscrita na lei do país. Com a evolução de um novo sistema político, entretanto, isso não se deu.

Os primeiros anos da Polônia pós-comunista foram marcados por um grande caos no domínio político, com ao redor de 40 a 50 partidos que lutavam para chegar ao Sejm (Parlamento). Um grupo, o Partido Polonês dos Amadores da Cerveja, por exemplo, conseguiu 16 cadeiras no parlamento após a eleição de 1991. Os partidos eventualmente se consolidaram a fim de ir adiante. Naquele momento, alguns bispos pensavam que a promoção do ponto de vista católico demandava o apoio da Igreja a um partido particular. Fazer isso (embora muitos bispos não tenham participado) era um bacio di morte, um golpe fatal no partido em questão. Sem nenhuma dúvida os poloneses não queriam uma relação muito estreita entre a Igreja e o Estado. Após esta experiência, a maioria dos bispos se retirou desse tipo de jogo.

Apesar de o consenso político ser raro na Polônia, o que é demonstrado pela multiplicidade dos partidos, havia um acordo entre os poloneses sobre a necessidade da nação se confrontar com seu passado comunista. Num processo que se chamou de “lustração”, várias pessoas que tinham ocupado posições importantes na Polônia comunista foram examinadas minuciosamente para discernir seu papel no regime. Um Instituto para a Memória Nacional (Instytut Pami?ci Narodowej) assumiu esse delicado trabalho.

Certas figuras católicas foram examinadas, mas para a maioria dos casos a hierarquia escapava a um exame rigoroso. Esperava-se que a própria Igreja tratasse o passado de seus líderes. Este não é um capítulo muito bonito na Igreja Católica pós-comunista. Um dos piores momentos foi o da nomeação, em dezembro de 2006, pelo Papa Bento XVI, de Stanis?aw Wielgus como Arcebispo de Varsóvia. Confessado por ele mesmo, e mencionado na imprensa, Wielgus tinha tido contatos com os serviços secretos de inteligência na Polônia comunista. Por causa do furor dos poloneses, Wielgus teve que pedir demissão já em janeiro de 2007.  O embaraço foi extremo. Ou a Igreja não tinha examinado suficientemente o candidato a um posto tão importante ou, implicitamente, ela queria embaralhar as pistas de um passado colaboracionista. O caso deu impulso ao movimento da lustração. Ao mesmo tempo, a Igreja prometeu olhar com lupa o passado de cada prelado em cada diocese. Pode-se duvidar que tenha realizado suficientemente esta tarefa.

A nova prosperidade da Polônia pós-comunista coincidia com um fenômeno já conhecido em muitos países, e, sobretudo, no Quebec e na Irlanda. Numa sociedade dominada por uma só tradição religiosa, quando a nova liberdade coincide com a prosperidade, a frequentação da igreja cai e a igreja dominante perde sua influência. É o caso na Polônia, onde a frequência caiu e as vocações ao sacerdócio e à vida religiosa são menos numerosas que antes. No entanto, a Igreja possui uma vida ainda muito vigorosa e resta uma das mais fortes igrejas da Europa.

A Igreja, com tudo isso deve lutar com o assalto da modernidade e de um relativismo moral. Este fenômeno criou certas posições extremistas. Como indica Keely Stauter-Halsted, “o fato de a Igreja se concentrar em certas questões éticas como a contracepção… ajuda a explicar a irrupção de uma ala radical e chauvinista do catolicismo [na Polônia]”.

Quando se olha toda a região, se vê em muitos lugares a evidência de um velho modo de pensar soviético que se poderia chamar em inglês “zero-sum thinking” – o que é bom para mim é mau para ti, o que é mau para ti é bom para mim. Este modo de pensar toca mesmo as Igrejas, que veem as outras Igrejas como “concorrentes”. A Igreja Ortodoxa Russa não aceita os católicos porque eles, de um modo ou de outro, ameaçam os ortodoxos russos, e, sobretudo as crianças. Os greco-católicos e os latinos na Ucrânia se disputam publicamente a posse legal de igrejas devolvidas. Tais combates “intestinos” levam a situações que se tornam escandalosas.

Em muitos países pós-comunistas, uma única Igreja domina, em detrimento das outras. Pequenos grupos religiosos sofrem por causa disso. As atividades das religiões em minoria são frequentemente limitadas, como também seu acesso à população. Eles recebem frequentemente um estatuto legal inferior. Assim, a vida religiosa de todo o mundo é diminuída.

Pode-se perguntar em nossa discussão quanto de autoridade moral as igrejas teriam, levando em conta as dificuldades que mencionei. Pode-se igualmente perguntar o que explica a concentração sobre o interesse em si no lugar de concentrar sobre a unidade diante da invasão do poder do Estado. Finalmente, pode-se perguntar como as igrejas são responsáveis por seus atos, nos domínios social, político e mesmo econômico. A quem elas respondem?

 

Obrigado pela vossa atenção.
Alegro-me com uma discussão vigorosa!