Coragem! Em memória do Pe. Mac Dowell

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Silvia Contaldo

Coragem! Com essa palavra e sorriso largo, Pe. Mac Dowell nos encorajava a todos. Nos curtos trajetos entre salas de aula e biblioteca, entre biblioteca e áreas administrativas, nas passagens comuns das bonitezas de um campus chamado FAJE, Pe. Mac Dowell nunca se furtou a uma saudação que se materializava nessa expressão: Coragem! Todos podemos confirmar que, desses encontros casuais, seguíamos nosso caminho mais fortalecidos e mais animados.

Nesse 9 de junho de 2026, Pe. Mac Dowell completaria 92 anos de idade. Nascido em Belém, em 9 de junho de 1934, dedicou vários anos de sua vida ao ensino e à pesquisa em vários ambientes acadêmicos do Brasil. Muito jovem, com apenas 16 anos, ingressou na Companhia de Jesus. Concluído o curso de Filosofia, em Nova Friburgo, em pouco tempo obteve o Mestrado em Teologia (1963), em Frankfurt e, em seguida, o Doutorado em Filosofia (1968), em Roma. Vocação filosófica, vocação teológica, homem de estudos e de incontáveis leituras, de volta ao Brasil tornou-se um professor sem igual. Professor na Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, em São Paulo – onde foi também Diretor, de 1968 a 1974. Na PUC do Rio de Janeiro foi Vice-Reitor e Reitor. Tinha apenas 42 anos! Naquele período em que sobre o Brasil parecia pairar, para sempre, uma nuvem cinzenta, Pe. Mac Dowell foi membro da Comissão Nacional de Pós-Graduação (1977-1979), membro do Diretório do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (1977-1979), membro do Conselho Internacional das Universidades Católicas (1978-1980) e membro da Comissão do Ministério da Educação para Reintegração dos Professores Cassados pelo AI-5 (1979-1980). Coragem, Pe. Mac Dowell! O Brasil viveria ainda sob muitas outras nuvens cinzentas e tempestades danosas à educação.

Em 1997, para nossa sorte, Pe. MacDowell mudou-se para a capital mineira. Na FAJE (então Instituto Santo Inácio), professor de Filosofia, querido e admirado, não descuidou da construção de uma bela academia. Foi Reitor, fundou o Programa de Pós-Graduação em Filosofia, em 2006. Foi editor da Revista Síntese por vários anos. Além das atividades acadêmicas, conduzidas com maestria, foi também fundador da Academia Brasileira de Educação e da Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos.

Antes, porém, de estabelecer-se em solo belorizontino, ainda no Rio de Janeiro, Pe. MacDowell foi Provincial da Província dos Jesuítas do Centro-Leste, e Pesquisador do Centro João XXIII, no Ibrades. Em Roma, de 1990 a 1997, foi membro do Conselho Geral e Assessor do Superior Geral para a América Latina da Cúria Geral da Companhia de Jesus.

Aqui na FAJE, Pe. MacDowell esteve à frente do Memorial Pe. Vaz, do qual todos nós nos orgulhamos. Por ocasião de seu falecimento, em 13 de setembro de 2022, a Profa. Claudia Maria Rocha de Oliveira escreveu: “Somos privilegiados por termos tido a oportunidade de assistir como estudantes às suas aulas e de termos desfrutado de sua presença como colegas de trabalho. Sua partida deixará uma saudade imensa. Sua presença sempre amiga fará muita falta. Contudo, seu testemunho continuará a iluminar nossa caminhada” (https://jesuitasbrasil.org.br/nota-de-pesar-pelo-falecimento-do-pe-joao-mac-dowell-sj/).

No dia anterior ao seu falecimento, Pe. MacDowell havia completado 60 anos de sacerdócio, de vida vivida com a sabedoria da razão e a gentileza do coração, para ele, indissociáveis.

Ainda guardo os e-mails que dele recebi, ao longo dos anos – desde 2008 quando aceitei o convite para organizar o Estágio Docente do curso de Licenciatura e lecionar as disciplinas que ele nunca chamou de pedagógicas. Na aula inaugural do curso de Filosofia da PUC-Minas, em 13 de fevereiro de 2008, Pe. Mac Dowell não deixou por menos: “No mundo atual a filosofia apresenta-se, em primeiro lugar, como uma prática social, uma atividade profissional, ao lado de outras, própria daqueles que se dedicam ao estudo e ao ensino neste campo específico do saber. Embora não se exerça exclusivamente no âmbito universitário, ela se encarna preferentemente na pessoa do professor, com sua rotina docente, suas preocupações acadêmicas, seus livros, suas bibliotecas, suas pesquisas. A imagem do filósofo como um sábio, venerável, mas distante das preocupações quotidianas, pode ainda sobreviver no imaginário popular, mas não tem qualquer incidência em nossa realidade. A profissionalização da atividade filosófica é de certo modo inelutável. Não se trata, aliás, de um fenômeno inédito”.

Gratidão, Pe. Mac Dowell, por termos aprendido a ser um pouco mais corajosos.  E a não desanimar!

 

Silvia Contaldo é professora no Departamento de Filosofia da FAJE

11/06/2026

 

 

 

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