Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM
É próprio da Eucaristia, mistério de fé, dizer-se em múltiplas e distintas formas, considerada sua irredutível pluralidade de dimensões. No intuito de privilegiar algumas delas – memorial, ético-social e cósmica -, será inevitável operar distinções. Distinguir, porém, não é o mesmo que separar ou dividir. Essas distintas dimensões estabelecem entre si uma relação de reciprocidade – cada uma delas afeta e, ao mesmo tempo, é afetada pelas demais. Acolher a Eucaristia como Testamento de Jesus implica reconhecer o nó em torno do qual se enlaçam suas dimensões plurais.
Concebida como Testamento, a Eucaristia encarna o sentido dado por Jesus à própria vida e missão culminadas no evento de sua paixão, morte e ressurreição. O binômio semita, corpo entregue e sangue derramado, exprime a entrega generosa e solidária de Jesus que, caracterizando sua vida, atinge o ápice em sua morte de cruz. O passivo dos verbos – corpo entregue e sangue derramado – é expressão do sentido por ele dado à sua vida e, consequentemente, à própria morte trágica. Este é precisamente o sentido que Jesus entrega aos seus como testamento. Isso posto, não há como não reconhecer a singularidade da entrega generosa e solidária de Jesus. Trata-se, para todos os efeitos, de uma entrega existencial, pois, dada a sua peculiar natureza, se deu “uma vez por todas” (Hb 7,27; 9,12; 10,10).
A motivação de se compreender a Eucaristia como memorial reside no mandato de Jesus, conforme atesta a tradição paulino-lucana: “Fazei isto em memória de mim” (1Cor 11,24.25; Lc 22,19). Na perspectiva bíblica, o memorial não se resume a uma recordação de caráter subjetivo. O fazer memória atinge o próprio húmus na celebração litúrgico-sacramental das comunidades eclesiais. É precisamente nesse contexto que o evento salvífico do passado se faz contemporâneo, isto é, torna-se presente de maneira simbólico-real, no aqui e agora da comunidade celebrante. Nesse sentido, o memorial bíblico abraça o tempo em sua complexidade, na medida em que, ao se fazer memória, o evento histórico se torna contemporâneo e, assim, reaviva a esperança na plenitude prometida.
Ao reconhecermos, no entanto, a conexão íntima entre celebração eucarística e testemunho de vida das comunidades eclesiais, deparamo-nos com uma questão que nos aflige profundamente. Como celebrar a Eucaristia – sacramento de comunhão – num mundo onde 2/3 da população do planeta vivem excluídos, econômica, social e culturalmente? Como celebrar a Eucaristia – ágape fraterno – em situações de injustiça, discriminação, violência e morte?
Ocorre, portanto, resgatar aquela conexão íntima entre vida e celebração. No caso específico, torna-se urgente recuperar a dimensão ética e social da Eucaristia. Que sentido há em celebrar a Eucaristia se no dia-a-dia não houver empenho em testemunhar os valores do evangelho? Convém, pois, ter presente que celebração eucarística e missão se encontram estreitamente unidas. Nesse sentido, a nomeação da celebração eucarística como “Missa” – legado da tradição eclesial – se nos afigura como extremamente sugestiva. Afinal, missa vem de missão e, portanto, a celebração eucarística nos remete ao testemunho cotidiano, nas concretas situações em que nos encontramos, dos valores pelos quais Jesus viveu e morreu.
Sendo assim, entre celebração eucarística e missão vigora uma circularidade ininterrupta: por um lado, a participação eucarística pressupõe e, por outro, se consuma no testemunho de vida, isto é, no empenho em encarnar os valores eucarísticos. Convém aqui lembrar as contundentes palavras de são João Crisóstomo: “Queres honrar o Corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm com que vestir, nem O honres aqui no templo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez. Aquele que disse: ‘Isto é o meu Corpo’, […] também afirmou: ‘Vistes-Me com fome e não me destes de comer’, e ainda: ‘Na medida em que o recusastes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o recusastes’. […] De que serviria, afinal, adornar a mesa de Cristo com vasos de ouro, se Ele morre de fome na pessoa dos pobres? Primeiro dá de comer a quem tem fome, e depois ornamenta a sua mesa com o que sobra” (Homilias sobre o Evangelho de Mateus, 50,3-4).
Por ser a Eucaristia memorial do mistério pascal de Cristo, ápice do mistério da encarnação do Filho de Deus, a consideração de sua dimensão cósmica, além de legítima, é extremamente relevante. Pois o mistério da encarnação desvela, em última instância, a dimensão intrinsecamente crística de toda a Criação. Segundo o testemunho dos escritos neotestamentários, Cristo é Aquele pelo qual todas as coisas foram criadas e, ainda, Aquele mediante o qual todas as coisas retornam a Deus-Pai, único princípio e fim da Criação. Ele é, por um verso, primogênito de toda criatura e, por outro, recapitulador da inteira realidade criada. A Criação inteira torna-se, portanto, “corpo de Cristo”, pois ao se encarnar, o Filho de Deus assume cada uma das criaturas e as criaturas todas como membros de seu corpo.
Também aqui caberia a pergunta: como celebrar a Eucaristia, num mundo caracterizado por despóticas atitudes antropocêntricas que reduzem as criaturas a meros objetos à disposição de interesses arbitrários? No mesmo ano em que foi redigida A Missa sobre o Mundo, Teilhard de Chardin escreve: “Quando Cristo desce sacramentalmente em cada um de seus fiéis, não é apenas para conversar com ele […]; quando ele diz, por meio do sacerdote: ‘Hoc est corpus meum’, essas palavras transbordam o pedaço de pão sobre o qual são pronunciadas: elas fazem nascer o Corpo místico inteiro. Para além da Hóstia transubstanciada, a operação sacerdotal estende-se ao próprio Cosmo. […] A Matéria toda sofre, lenta e irresistivelmente, a grande Consagração”.
Gostaríamos de concluir, recorrendo aos versos de Rubem Alves, em seu poema intitulado: “O corpo”:
Deus nos fez corpos. Deus fez-se corpo. Encarnou-se.
Corpo: nosso destino, destino de Deus.
Eterna divina solidariedade com a carne humana.
Nada mais digno.
É o Espírito que escolhe fazer-se visível, no corpo.
Corpo: realização do Espírito: suas mãos, seus olhos, suas
Palavras, seus gestos de amor…
Jesus: corpo de Deus entre nós,
Corpo para os corpos, como carne e sangue, pão e vinho.
E o corpo de Deus, Jesus Cristo, se expande, incha, tomando o
Universo inteiro,
O corpo é o Espírito gracioso, capaz de sorrir, capaz de ficar
Grávido, gerar, morrer de amor…
É bem aí, no corpo, que Deus e o ser humano se encontram.
Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
03/06/2026

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