Elton Vitoriano Ribeiro, SJ
Para uma sólida apresentação das sociedades contemporâneas, eu sempre começo meus cursos na pós-graduação em Filosofia com textos de David Harvey. O olhar atento deste pesquisador nos ajuda a sair da ingenuidade e a analisar os mecanismos sociais com mais perspicácia e crítica. Ultimamente, tenho discutido com os alunos o livro “Crônicas Anticapitalistas: um Guia Para a Luta de Classes no Século XXI” (2024). Em seus primeiros capítulos, de forma concisa e sintética, Harvey nos apresenta um quadro abrangente das lutas sociais do nosso século.
David Harvey, em suas Crônicas Anticapitalistas, começa analisando a onda global de protestos que eclodiu no outono de 2019 (em locais como Chile, Líbano, Iraque, França e Equador). Esses levantes massivos e generalizados sinalizavam na época que há algo cronicamente errado no mundo. As reclamações recorrentes apontam para o fracasso da governança democrática e, principalmente, do modelo econômico dominante, que prometia garantir empregos, saúde, educação, moradia e uma qualidade de vida satisfatória.
Para o autor, o fio condutor desses protestos é a percepção de que a economia está falhando com a população e que o processo político está viciado em favor dos mais ricos. A raiz dos problemas reside na crescente desigualdade social que afeta a maioria, inclusive as classes médias. Neste sentido, Harvey distingue duas visões sobre o problema: (1) O problema é o neoliberalismo, definido como uma forma particular de acumulação de capital. Essa visão defende um capitalismo consciente e socialmente responsável, argumentando que a solução é reformar o modelo neoliberal. (2) O problema é o capitalismo. Neste caso, a questão subjacente é o capitalismo em si, e não apenas sua vertente neoliberal.
Aqui, vale um breve comentário sobre a história do neoliberalismo, que é tema de um dos capítulos do livro. O neoliberalismo é definido por Harvey como um projeto de classe com o objetivo de concentrar riqueza e poder em uma pequena elite. Ele se articulou a partir dos anos 1970. O projeto buscou uma base popular (como a direita religiosa) e uma justificação teórica conveniente (o monetarismo ou economia pelo lado da oferta), cujo foco era reduzir o poder dos sindicatos e do trabalho. A monetização das eleições, a consolidação da mídia e a criação de pensadores de direita foram cruciais para o sucesso do projeto. Nos anos 90, o projeto neoliberal triunfou, desempoderando trabalhadores e desmantelando regulamentações. A ideologia passou a ser o individualismo e o aperfeiçoamento de si. A crise de 2007-2008 não encerrou o neoliberalismo, mas sim destruiu sua legitimidade. O resgate dos bancos, seguido pela austeridade imposta à população, expôs o sistema como sendo manipulado para favorecer os ultrarricos. O projeto neoliberal, embora deslegitimado, continua, e a tarefa é entender como ele busca se legitimar sob uma nova condição de crise.
Diante de todo esse complexo movimento social, o autor observa que, embora as mobilizações de massa urbanas tenham sido espetaculares nos últimos trinta anos, o que lhes falta é a organização de longo prazo para sustentar a luta. No entanto, a guinada à direita global pode estar estimulando um ethos mais colaborativo na esquerda, como visto no Líbano, onde facções antagônicas se uniram para protestar contra a cleptocracia, e no Brasil, onde seis partidos de esquerda se uniram em reflexão e manifestação conjunta.
Para Harvey, como marxista, a tarefa é identificar a contradição central na forma atual do capital. Além da evidente desigualdade social e degradação ambiental, há outro fator crítico: o capital é impulsionado pelo crescimento exponencial. O tamanho da economia global dobra a cada 25 anos, passando de US$ 4 trilhões em 1950 para cerca de US$ 80 trilhões hoje, uma trajetória que se torna um problema gravíssimo por desafiar todos os limites. Isso porque essa acumulação ilimitada só é possível com o capital-dinheiro ou capital monetário. Desde o abandono do padrão ouro em 1971, a oferta monetária cresceu enormemente. O problema atual é encontrar oportunidades de investimento lucrativo para os trilhões de dólares disponíveis, um problema de realização que o capital enfrenta.
Mas, a principal contradição da atualidade é que o capital é tão monstruoso para sobreviver, devido à sua trajetória de crescimento e às crises que gera, quanto é grande demais para quebrar (too big to fail). Ao contrário da época de Marx, onde grande parte da população era autossuficiente, hoje a maioria global depende da circulação ininterrupta do capital para seu suprimento de alimentos, energia e infraestruturas básicas. Se o fluxo de capital fosse interrompido por um período prolongado, as consequências seriam catastróficas e letais para uma parcela significativa da população mundial.
Portanto, a ideia revolucionária de destruir o capitalismo da noite para o dia é impossível. Um programa anticapitalista deve encontrar um caminho tênue entre preservar as infraestruturas essenciais para a população e confrontar o sistema. A tarefa, citando Marx, é um processo de longas lutas e processos históricos que transformem as circunstâncias e libertem os elementos de uma nova sociedade que já estão latentes na sociedade existente. Mas, fica a dúvida: essa transformação seria possível?
Elton Vitoriano Ribeiro, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia, e Reitor da FAJE
23/04/2026

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