Márcia Eloi Rodrigues
A afirmação de Jesus em Mateus 10,8, “De graça recebestes, de graça deveis dar”, ocupa um lugar central no discurso missionário dirigido aos doze apóstolos (Mt 10,1-16). Ela não aparece como uma recomendação secundária, mas como uma síntese da lógica do Reino de Deus e da identidade da missão cristã. O dom recebido de Deus deve transformar-se em dom oferecido aos outros. A graça recebida gratuitamente não pode ser convertida em instrumento de lucro, prestígio ou poder.
O contexto do texto ajuda a compreender a profundidade dessa afirmação. Jesus chama os doze, comunica-lhes sua própria autoridade e os envia para continuar sua obra. Eles recebem o poder de expulsar demônios, curar enfermidades e anunciar a proximidade do Reino de Deus. A missão dos apóstolos não nasce de iniciativa pessoal. Eles são enviados por Cristo e participam de sua própria missão. Existe uma clara continuidade entre a ação de Jesus e a ação da comunidade cristã. O que os discípulos realizam não é obra deles, mas expressão do poder salvador de Deus atuando na história.
Por isso, os apóstolos não são proprietários da missão. São servidores de uma graça que os precede. Tudo o que receberam lhes foi dado. Não conquistaram por mérito próprio a autoridade para anunciar o Reino nem os dons que exercem em favor das pessoas. A origem de tudo está na iniciativa gratuita de Deus. É justamente dessa consciência que nasce a exigência da gratuidade.
A missão apostólica possui duas dimensões inseparáveis: a palavra e a ação. Os discípulos anunciam que o Reino de Deus está próximo e, ao mesmo tempo, realizam gestos concretos de libertação. Curam os enfermos, libertam os oprimidos e tornam visíveis os sinais da salvação. Assim como Jesus não apenas falou do Reino, mas o tornou presente em suas ações, também a Igreja é chamada a unir anúncio e compromisso concreto com a vida humana.
Essa perspectiva possui grande relevância para os cristãos de hoje. Vivemos numa sociedade fortemente marcada pela lógica da troca. Muitas relações são construídas segundo critérios de interesse, vantagem e recompensa. Frequentemente, essa mentalidade também invade o campo religioso. A fé corre o risco de ser reduzida a uma negociação com Deus: oferece-se uma oração para obter uma bênção, realiza-se uma prática religiosa esperando uma compensação, faz-se uma promessa em troca de um favor divino.
Essa mentalidade encontra uma de suas manifestações mais visíveis na chamada teologia da prosperidade. Embora apresente diferenças conforme os contextos e os grupos religiosos, sua lógica fundamental consiste em associar a fé à obtenção de benefícios materiais, sucesso econômico, saúde ou realização pessoal. A bênção de Deus passa a ser medida pelos resultados alcançados, enquanto a contribuição financeira, as práticas religiosas ou determinados atos de fé são apresentados, explicitamente ou não, como condições para receber favores divinos. Desse modo, corre-se o risco de transformar a relação com Deus numa espécie de barganha, no qual o fiel oferece algo esperando uma recompensa proporcional.
Essa compreensão contrasta com a mensagem do Evangelho. Jesus jamais prometeu prosperidade material como sinal seguro da fidelidade de Deus. Ao contrário, chamou seus discípulos ao seguimento, ao serviço, ao desprendimento dos bens e, inclusive, à disposição de enfrentar perseguições por causa do Reino. No próprio discurso missionário, os apóstolos são enviados sem garantias materiais, confiando não na acumulação de riquezas, mas na providência de Deus. O centro da fé cristã não é a busca de benefícios, mas a adesão à pessoa de Jesus Cristo e ao projeto do Reino.
A graça de Deus não pode ser comprada, negociada ou merecida. Ela permanece sempre dom. Quando a fé é reduzida a uma estratégia para alcançar prosperidade, perde-se a novidade do Evangelho e obscurece-se a imagem de Deus revelada por Jesus. O Pai anunciado por Cristo não distribui bênçãos segundo uma lógica comercial, mas oferece seu amor gratuitamente aos seus filhos. A resposta cristã, por sua vez, não é o cálculo do que se pode ganhar, mas a gratidão de quem reconhece ter recebido tudo como dom.
Nessa visão, Deus deixa de ser reconhecido como Pai e torna-se uma espécie de fornecedor de benefícios. A relação com ele passa a ser determinada pelo cálculo e não pela confiança. A religião transforma-se num mercado de interesses espirituais. O fiel aproxima-se de Deus não para acolher sua vontade, mas para garantir vantagens pessoais. A gratuidade desaparece e cede lugar à lógica da troca.
O Evangelho segue na direção oposta. Jesus recorda aos discípulos que tudo começa com um dom. O Reino não é conquistado nem comprado. A salvação não é resultado de uma negociação entre Deus e os seres humanos. Ela é expressão do amor gratuito de Deus que toma a iniciativa de vir ao encontro da humanidade. Antes de qualquer resposta humana, existe a graça divina.
Por isso, quem compreende verdadeiramente o Evangelho descobre que a fé cristã não se fundamenta numa relação comercial com Deus. O discípulo não serve para receber recompensas nem ama para obter vantagens. Ele responde com gratidão ao amor que primeiro recebeu. A vida cristã nasce da consciência de que Deus nos deu gratuitamente aquilo que jamais poderíamos adquirir por nossas próprias forças.
As instruções que Jesus oferece aos missionários reforçam essa verdade. Eles devem partir sem garantias materiais, sem acumular recursos e sem colocar sua segurança nas próprias posses. O radical despojamento recomendado por Mateus não pretende estabelecer uma regra prática para todos os tempos, mas evidenciar uma atitude fundamental: a confiança em Deus e a liberdade diante dos bens. O missionário não deve apoiar-se no poder econômico nem transformar a missão em meio de enriquecimento. Sua segurança encontra-se no Senhor que o envia.
Essa mensagem continua atual. A Igreja corre sempre o risco de medir seu sucesso pelos critérios do poder, da influência ou dos recursos disponíveis. Contudo, a missão cristã só permanece fiel ao Evangelho quando conserva a consciência de que sua força provém da graça de Deus e não dos meios humanos. A eficácia do anúncio não depende principalmente de estratégias, mas da fidelidade ao Reino.
Ao enviar os discípulos de casa em casa oferecendo a paz, Jesus também mostra que a salvação não se impõe. Ela é oferecida e deve ser acolhida livremente. Deus respeita a liberdade humana. A paz messiânica torna-se realidade na vida daqueles que recebem o Evangelho com fé. A missão, portanto, não é um ato de dominação, mas de serviço.
A máxima “De graça recebestes, de graça deveis dar” permanece como um critério permanente para a Igreja e para cada cristão. Ela recorda que a fé autêntica nasce da gratuidade de Deus e conduz à gratuidade nas relações humanas. Quem recebeu o amor de Deus é chamado a compartilhá-lo. Quem experimentou sua misericórdia deve tornar-se instrumento de misericórdia. Quem foi alcançado pela graça deve viver e agir segundo a lógica da graça.
Num mundo marcado pelo interesse, pela troca e pelo cálculo, a gratuidade continua sendo um dos testemunhos mais eloquentes do Evangelho. Ela revela que o Reino de Deus não é mercadoria, mas dom; não é privilégio de alguns, mas oferta para todos; não é conquista humana, mas expressão do amor gratuito do Pai que, em Cristo, continua oferecendo vida, libertação e salvação à humanidade.
Márcia Eloi Rodrigues é professora e pesquisadora no departamento de Teologia da FAJE
11/06/2026

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