Ir. Rosana Araujo Viveiros, ANSP
Há corações que passam pela vida procurando respostas, sentido, um lugar onde possam repousar. Neles mora uma inquietação profunda, uma sede que nenhuma realidade do mundo consegue saciar. Já outros corações, depois de encontrarem a fonte que sacia a sede de sentido, não conseguem guardá-la para si. Tornam-se presença, caminho, cuidado e serviço.
O dia 28 de agosto coloca-nos diante de duas pessoas separadas cronologicamente por séculos e também por contextos históricos diferentes, mas unidas por uma mesma luz. Refiro-me a Santo Agostinho e ao Servo de Deus Monsenhor Domingos Evangelista Pinheiro – dois homens de fé, dois corações tocados por Deus, dois caminhos atravessados pela experiência de que o encontro com Deus transforma a vida abrindo-a para algo maior.
Agostinho conheceu profundamente a inquietação do coração humano. Sua vida foi uma longa busca pela verdade, pela felicidade e pelo sentido da existência. Procurou em muitos lugares aquilo que pudesse saciar sua sede mais profunda, até compreender que nenhuma realidade criada é capaz de preencher o espaço do Criador. Na experiência da conversão descobriu que o coração humano foi feito para Deus e que somente n’Ele encontra seu verdadeiro repouso. Sua inquietação, porém, não era simples ausência de paz – era uma sede que o colocava a caminho, uma busca que o abria à Verdade. Ele, quando encontrou Deus, não fechou o coração sobre a graça recebida. Pelo contrário, tornou-se pastor, servidor e anunciador do Evangelho. Aquele que buscava passou a testemunhar; aquele que perguntava passou a ensinar; aquele que foi alcançado pela graça entregou-se à Igreja e aos irmãos.
É justamente aqui que podemos unir Agostinho a alguém mais próximo de nós no tempo e na história: Domingos Evangelista Pinheiro. Semelhantemente ao santo, este também foi profundamente marcado pela experiência de Deus. Sua fé era encontro, oração, intimidade… e dessa relação nasceu seu profundo amor à Mãe da Piedade. Porém, o amor a Deus jamais permaneceu restrito à devoção pessoal. Quanto mais contemplava o amor divino, mais seus olhos se abriam para os pobres, os vulneráveis, aqueles que viviam à margem. Para Mons. Domingos, amar a Deus significava deixar-se tocar pela vida do outro. Sua oração conduzia ao serviço; sua contemplação, à ação. O amor a Deus transformava-se em compromisso com a dignidade humana. Domingos compreendeu que não bastava falar de Deus, mas que era preciso ajudar homens e mulheres a experimentarem, na própria vida, que eram filhos e filhas amados por Ele.
Desse olhar emerge sua inspiração fundadora e, em 28 de agosto de 1892, nasce a Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade. Mons. Domingos desejava que aqueles que mais necessitavam pudessem recuperar a dignidade e viver em liberdade sua condição de filhos e filhas de Deus. Seu olhar para os vulneráveis não era apenas de compaixão diante da necessidade. Ele tinha, sobretudo, um olhar de fé ardente para com as pessoas cuja vida precisava ser acolhida, protegida e restaurada. Assim, oração e ação, contemplação e missão, amor a Deus e amor ao próximo tornaram-se, em sua vida, uma única realidade. Rezava porque amava, e porque amava, servia. Servir não significava apenas oferecer algo a quem precisava. Significava algo mais, o desejo de que a pessoa reencontrasse aquilo que nenhuma situação de pobreza ou vulnerabilidade deveria lhe subtrair: sua dignidade, sua liberdade e sua condição de filha ou filho de Deus.
Essa visão permanece profundamente atual. As formas de vulnerabilidade são muitas: pobreza, exclusão, solidão, abandono, falta de oportunidades, ausência de reconhecimento, perda da esperança, sensação de não ter valor. Seja qual for a expressão, a forma de vulnerabilidade, o carisma de Mons. Domingos continua sendo uma voz profética. Servir é caminhar com o outro; é cuidar sem dominar, acompanhar sem substituir e oferecer presença sem retirar liberdade. É amar de tal maneira que o outro possa novamente acreditar em si mesmo e na vida. Por isso, sua vida merece ser conhecida. Mons. Domingos encontra-se em processo de beatificação, caminho pelo qual a Igreja procura discernir os sinais de santidade presentes em sua vida e reconhecer o que seu testemunho pode dizer à Igreja de hoje. Conhecê-lo é encontrar um homem de oração que não permaneceu indiferente diante da realidade; um pastor que compreendeu que o amor a Deus abre necessariamente o coração para o irmão, um fundador que colocou a própria vida a serviço da dignidade e da liberdade dos mais necessitados.
É justamente nessa perspectiva que o colocamos em diálogo com Santo Agostinho. Este fala-nos do coração inquieto que procura Deus; o outro nos mostra o coração encontrado por Deus que se coloca a serviço. Agostinho nos ajuda a compreender a sede enquanto Mons. Domingos nos ensina o que fazer depois de encontrar a fonte. O significado maior da aproximação desses dois grandes homens pode ser sintetizado simplesmente assim: encontrar Deus não é o fim da caminhada, é começar uma nova, pois o encontro com Deus nos desloca, tira-nos do centro e abre nossos olhos para os irmãos. Com isso, a experiência de Deus torna-se missão; a oração, serviço; a contemplação, cuidado; a graça recebida, vida entregue.
Talvez Agostinho nos ensine a perguntar: onde está o meu coração? E Mons. Domingos nos ajude a acrescentar: para quem o meu coração se coloca a serviço? As duas perguntas estão profundamente unidas. Um coração que verdadeiramente encontra Deus não se torna indiferente, ele torna-se mais humano, sensível, compassivo e disponível. É essa dinâmica que permanece viva na missão das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade. Os tempos mudam, as necessidades mudam, as formas de servir também, mas permanece a inspiração fundamental: estar junto daqueles cuja dignidade está ferida e colaborar para que possam recuperar a esperança e a liberdade de viver plenamente.
Celebrar o dia 28 de agosto é, portanto, mais do que recordar duas figuras importantes da história da Igreja. É um convite à conversão do nosso próprio coração. Agostinho nos pergunta sobre nossa sede, Mons. Domingos sobre nossa disponibilidade. Um nos convida a buscar a Deus enquanto o outro nos recorda que quando encontramos Deus, somos enviados aos irmãos. Que Santo Agostinho nos ensine a buscar a Verdade com todo o coração! Que o Servo de Deus, Mons. Domingos, nos ensine a transformar a experiência de Deus em serviço! E que seu processo de beatificação seja uma oportunidade para que nossa vida, espiritualidade e testemunho sejam cada vez mais conhecidos por toda a Igreja.
Que muitos possam descobrir nele um homem de Deus, de oração e de ação, como alguém que amou profundamente e acreditou na dignidade de cada pessoa. Que seu exemplo continue a recordar-nos de que a santidade começa quando permitimos que Deus alcance nosso coração e transforme nosso modo de olhar, amar e servir. No fundo, o caminho é sempre o mesmo: de um coração inquieto a um coração que encontra Deus; do coração que encontra Deus ao coração que ama; por fim, do coração que ama ao coração que serve. Seja este também o nosso caminho!
Ir. Rosana Araujo Viveiros, ANSP é professora e pesquisadora no Departamento de Teologia da FAJE
27/08/2026
