“Desperta, tu que dormes!” (Ef 5,14)

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Geraldo Luiz De Mori, SJ

“já é hora de despertarmos do sono” (Rm 13,11)

 

No dia 4 de outubro de 2026, uma parcela importante da população brasileira foi dormir como que em choque, enquanto outra, também importante, festejava e soltava fogos. Com efeito, 56.104.503 votaram num candidato de extrema direita, e 53.879.538 votaram num candidato de esquerda, totalizando 92,19% dos votos válidos, enquanto 33 milhões de cidadãos não foram votar, ou seja, 21% do eleitorado, sem contar os 2,2 milhões de votos em branco e os 3,6 milhões de votos nulos. Embora a eleição para o cargo majoritário do executivo nacional ainda não esteja decidida, devendo esperar o segundo turno, que deverá ocorrer no dia 25/10/2026, esses números apontam para o que muitos analistas têm chamado de virada do eleitorado na direção da extrema direita, fenômeno também presente em outros países do mundo. Confirma essa opinião o expressivo número de senadores e deputados que foram eleitos pelos partidos que representam essa tendência no espectro político nacional. Como pensar teologicamente esse resultado? O que eles revelam do que está acontecendo no imaginário brasileiro?

Várias interpretações têm sido feitas sobre essa extrema-direitização da política nacional. Segundo alguns analistas, o desencanto e a desconstrução da política é um projeto arquitetado pelas elites econômicas internacionais, às quais está aliada a “elite da Faria Lima”, em referência à Avenida Brigadeiro Faria Lima, que concentra as principais corporações do capitalismo hoje no país, e seus apoiadores na imprensa e na mídia nacional. Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, o liberalismo econômico arvorou-se em única narrativa e receita para a produção e a distribuição de riquezas. A narrativa marxista, que após a Segunda Guerra mundial tinha se tornado a alternativa ao modelo liberal, saía derrotada, optando, desde então, por apoiar as pautas de grupos alternativos, em geral, identificados com o que se convencionou chamar de grupos “identitários”, por defenderem identidades negadas ou não reconhecidas, como as dos “coletivos” que lutavam pelos direitos das mulheres, ou assumiam as lutas dos LGBTQIA+, ou denunciavam o racismo, ou defendiam as pautas da questão ambiental.

A reconstrução da política pós-Guerra-Fria foi inicialmente protagonizada pelo modelo unipolar da hegemonia norte-americana. Paralelamente, vários blocos econômicos e políticos foram sendo construídos, como o Mercosul, o NAFTA, o ASEAN, o Europeu. Com o atentado às Torres Gêmeas, em 2001, o que parecida a “nova ordem mundial” sofreu um grande golpe, pois passava por cima de outros projetos civilizacionais, como o do mundo árabe e o do mundo asiático. Ao mesmo tempo em que os que se arvoravam em representantes do Ocidente se envolviam numa espécie de “guerra santa” contra o “terrorismo islâmico”, outros “sujeitos” entravam em cena na política internacional, como a Rússia, a China e alguns representantes do Sul Global, que deram origem aos BRICS. Para “ressignificar” a hegemonia perdida, com os novos recursos tecnológicos do mundo digital, os grandes representantes da elite ultraliberal internacional revisitaram as narrativas autoritárias do século XX, de caráter populista, e, na maioria dos casos, fascista. Investiram para isso nos formadores de opinião e na criação de laboratórios de ideias (think tanks) e na manipulação da psicologia de massas, estratégia utilizada pelo nazifascismo europeu antes, durante e após a Segunda Guerra.

O que os resultados recentes da eleição brasileira têm a ver com essas mudanças da política internacional e sua articulação com os grandes representantes do capital internacional? Tudo. Como tem sido divulgada em vários meios de comunicação, a luta por hegemonia do principal representante dos interesses do capital internacional, os USA, tem investido pesado para influenciar pleitos eleitorais em diversas partes do mundo, em geral, apoiando partidos e grupos ligados à extrema direita. No caso do Brasil, o alinhamento a essa ideologia começou há vários anos, com a formação de setores importantes da “inteligência nacional”, os famosos think tanks, que levaram à eleição, em 2018, de Jair Bolsonaro e, em 2026, querem fazer o mesmo com seu filho.

O mais impressionante é como um setor significativo do eleitorado nacional deixou-se envolver por esse tipo de ideologia (1/4 da população) que terá consequências graves para o futuro do país, como mostra o alinhamento aos interesses dos USA por parte do atual candidato do PL, colocando em questão a soberania nacional. E o mais grave é que para convencer eleitores, o recurso à religião e à fé cristã é feito sem nenhum pudor, colocando a mensagem cristã ao serviço daquilo que ela é mais radicalmente contrária: a dignidade humana, sobretudo a dos mais vulneráveis, como já parece acenar o que será a política econômica do futuro presidente, caso ele seja eleito no segundo turno. É terrível ouvir pessoas que se dizem cristãs, que comungam a cada domingo e que desejam a morte, a tortura, a prisão e o banimento de certos grupos sociais, sem contar que muitas dessas pessoas serão as primeiras atingidas pelas medidas previstas.

A filósofa judia Hannah Arendt escreveu, a propósito do regime nazista na Alemanha, sobre o que ela chamou de “banalidade do mal”, mostrando como esse regime foi sustentado durante anos por “pessoas do bem”, muitas delas religiosas praticantes. É como se a consciência ética de muitas pessoas simplesmente estivesse entorpecida, numa letargia, da qual precisava ser despertada. Quando alguém apoia a pena de morte de outra pessoa, é porque o sentido de humanidade já começou a desaparecer de sua consciência. O mesmo se pode dizer de quem acusa um candidato de ladrão e corrupto e vota em outro que comprovadamente recebeu recursos do maior escândalo de corrupção que já atingiu o Brasil nos últimos tempos, o do Banco Master.

O autor da carta aos Efésios (Ef 5,6-14) tem um texto muito lúcido dirigido a quem, de fato, se deixa iluminar pela fé cristológica. O texto começa exortando os fiéis a não se deixarem iludir com “palavras fúteis”, pois, por “meio delas vem a ira de Deus sobre os desobedientes”. Em seguida, o autor adverte: “Não sejais cúmplices deles”, ou seja, de quem promove palavras fúteis, que, no caso atual do Brasil, correspondem às Fake News. Segundo o texto, no passado, antes de se converterem, os Efésios eram “trevas”, mas agora são “luz no Senhor”. Por isso, devem proceder como “filhos e filhas da luz”. E o “fruto da luz”, continua o texto, é “toda espécie de bondade e de justiça e de verdade”. Por isso, é necessário “discernir o que agrada ao Senhor”, não se tornando “parte das obras estéreis das trevas”, mas, pelo contrário, denunciando-as. E o texto traz uma afirmação que parece feita para o que acontece hoje no Brasil: “O que essa gente faz em segredo, é vergonhoso até dizê-lo”. Mas, tudo o “que é denunciado é manifestado pela luz, e tudo o que é manifestado torna-se claro como a luz”. E o texto conclui: “Desperta, tu que estás dormindo”. Para muitos fiéis que se dizem cristãos, sejam eles católicos ou evangélicos, esse texto é uma advertência e um convite. Deixar-se enredar pela lógica do mal, da mentira e de propostas que vão contra a vida, contra os vulneráveis, contra a paz e a justiça, é deixar-se encobrir pelas trevas, das quais os fiéis já foram libertados. Daí a necessidade de serem despertados, deixando que a luz de Cristo, possa iluminar, ajudando a discernir o que, de fato, conduz, no caso atual do Brasil, à justiça, à verdade e à paz. Oxalá, nessas semanas que antecedem o segundo turno, muitos possam despertar.

Geraldo Luiz De Mori, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

08/10/2026

Foto: Magnific

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