Elton Vitoriano Ribeiro, SJ
Na correria frenética do cotidiano das sociedades contemporâneas, marcado pela automatização das rotinas e pela dessensibilização dos corpos, a criação artística parece ser um ruído estranho na monótona regularidade dos dias. Um desses ruídos mais estridentes tem o nome de Desvio Coletivo.
Desvio Coletivo é o nome de uma rede de artistas que atuam na fronteira entre a arte urbana, a performance e as artes visuais. Eles querem ser uma força poético-política em meio ao espaço público, um coletivo que engaja artistas e voluntários não artistas em ações que geram, em suas palavras “ilhas de desordem efêmera na cidade”. A proposta é diluir as fronteiras entre arte e vida, retirando-nos de uma atitude contemplativa e passiva para fazer viver uma experiência crítica e transformadora. Para eles, a arte não é mero ornamento estético, mas assume a missão de desvelar contradições sociais estruturais que a naturalização do hábito insiste em ocultar (https://www.desviocoletivo.com.br/work ).
Destaco, para aqueles que não conhecem este coletivo, algumas das intervenções e performances que são, para mim, provocativas. Primeiro, a performance Cegos. Ela apresenta um contundente e provocativo diagnóstico da subjetividade sob o capitalismo neoliberal. Nela, voluntários vestidos em trajes executivos formais, cobertos de lama e com os olhos vendados, caminham em ritmo lento e silencioso pelos centros financeiros e espaços urbanos de grande circulação das metrópoles. Carregando pastas, computadores, celulares e relógios, a marcha dos cegos simboliza a alienação e o esvaziamento de sentido provocados pelo produtivismo exagerado e cansativo das nossas sociedades. A hipnose coletiva da rotina corporativa é interrompida pelo cortejo inexpressivo e petrificado dos performers, obrigando os pedestres a confrontar o espelho de sua própria condição de automação e alienação diárias.
Outra intervenção ético-política é a performance Mamil(a)s. Aqui, a tensão recai sobre a regulação dos corpos, o preconceito e as fronteiras da censura no espaço público. Ao propor a exposição de mamilos, femininos e masculinos, sem distinção de gênero, idade e raça, a obra evidencia o duplo padrão moral e a disciplina social imposta prioritariamente sobre o corpo da mulher. A ação gera atrito direto com o conservadorismo institucionalizado e põe em xeque a liberdade de expressão artística, expondo como o controle biopolítico, que nos recorda Foucault, gera interdições, principalmente, sobre o corpo feminino. Essas interdições funcionam como mecanismos velados de dominação e cerceamento da presença da mulher na cidade.
Para dar mais um exemplo neste âmbito de intervenções feministas, a obra O Fogão constrói uma crítica contundente às estruturas patriarcais e à divisão desigual do trabalho em nossas sociedades. Ao transpor um símbolo doméstico tradicional do fogão para o espaço urbano, a performance explicita a sobrecarga invisível do trabalho de cuidado e as tarefas domésticas impostas historicamente às mulheres. Muito interessante notar como aqui a descontextualização do eletrodoméstico em praça pública, na cidade, interroga os transeuntes. A interrogação é sobre até que ponto as opressões privadas repercutem no espaço coletivo e de que modo a dominação patriarcal se enraíza nas dimensões mais sutis e cotidianas da existência.
Ora, a Filosofia Social olha para esses eventos e percebe que o valor da crítica social feita pelo Desvio Coletivo está na sua capacidade de interromper o fluxo da vida cotidiana e devolver à sociedade a visibilidade de suas próprias mazelas, dificuldades e desafios. Por exemplo, tomando a performance Cegos como exemplo emblemático, nota-se que o impacto transformador da intervenção não está em oferecer respostas prontas, mas em desorganizar as certezas vigentes, o que, diga-se de passagem, é mais difícil! Ao vermos corpos executivos cobertos de lama vagando sem rumo e sem visão, somos provocados a parar, olhar e questionar o modo de vida agressivo, acelerado e desumanizador no qual estamos mergulhados. A arte, nessa perspectiva, torna-se uma pedagogia da percepção que abre nossos olhos para o que se convencionou não olhar.
Na minha leitura, é possível aprofundar teoricamente a força reflexiva dessas intervenções com a Filosofia Social de Nancy Fraser. Ela nos fornece chaves hermenêuticas valiosas para interpretar as performances do Desvio Coletivo em algumas dimensões. Primeiro, na dimensão do reconhecimento e dos padrões culturais de valor. Fraser adverte que a injustiça cultural decorre da subordinação do status de determinados grupos por meio de padrões institucionais de valor cultural. Em Mamil(a)s e O Fogão, é possível desmascarar os padrões androcêntricos que hierarquizam e hipersexualizam o corpo feminino, relegando o trabalho reprodutivo ao esquecimento e à desvalorização. A performance atua desconstruindo tais valorações, exigindo a paridade de participação e o reconhecimento da dignidade dos corpos no espaço público.
Outra dimensão é a da redistribuição e a da crítica ao neoliberalismo. Em Cegos, a crítica toca nos limites do valor de troca e da exploração econômica do capitalismo contemporâneo. A mercantilização da vida cotidiana e a precarização das subjetividades, temas centrais no diagnóstico de Fraser sobre o capitalismo financeirizado, ganham forma nos corpos incrustados de lama. Temos a denúncia da estrutura socioeconômica que transforma o indivíduo em mero recurso produtivo.
Finalmente, podemos trazer a dimensão da representação e do espaço público. Ao ocupar a cidade sem pedido prévio de licença estética ou comercial, o Desvio Coletivo reivindica o pertencimento político do cidadão no espaço público. Em termos fraserianos, o grupo constrói contra públicos subalternos, ou seja, espaços discursivos paralelos onde grupos e temas marginalizados podem formular suas próprias interpretações de necessidades e identidades que não são reconhecidas pelos poderes dominantes.
Portanto, para encerrar, eu penso que, ao fazer da arte urbana uma crítica social, o Desvio Coletivo demonstra que a práxis artística contemporânea preserva o poder emancipatório de desnaturalizar a opressão e restaurar o espaço público como lugar do encontro e transformação democrática. Como valor, isso desperta a nossa reflexão filosófica para a necessidade da construção de uma sociedade mais humana e humanizadora onde todos têm lugar.
Elton Vitoriano Ribeiro, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia, e reitor da FAJE
01/10/2026

Foto: Divulgação