Doutrina social da Igreja: um patrimônio de sabedoria (Leão XIV)

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Élio Gasda sj

É dever permanente da Igreja “examinar atenciosamente os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho” (Gaudium et spes, 4). A atual civilização tem muito epítetos: sociedade de consumo, capitalismo digital, modernidade tardia, era dos extremos, sociedade de risco, era da estupidez e, mais recentemente, era da Inteligência Artificial.

“A poluição, a ganância e a estupidez são as maiores ameaças ao planeta” (Stephen Hawking). Quando o déficit é de inteligência, a era da Inteligência Artificial pode coincidir com a era da estupidez. Não é difícil chegar a essa dedução. De fato, a internet, como espaço democrático, está inundada de coaches, youtubers, Instagramers, tiktokers, influencers, políticos, religiosos, artistas, chefes de estado, o que comprova nossa hipótese. E, quanto mais poderosos, famosos e ricos, mais danificam a inteligência e a moral dos usuários. Muitos deles encontraram sua cara-metade. Desinformação, fake-news e besteirol se espalham na velocidade da luz. “Não há nada mais caro na vida que a doença – e a estupidez” (Sigmund Freud).

Nem sempre o indivíduo estúpido é sinônimo de ignorante. “Ignorância: não saber algo por falta de informação, estudo, experiência ou conhecimento. Estupidez: qualidade do que é estúpido; procedimento de pessoa sem discernimento ou bom senso; grande indelicadeza e incivilidade, grosseria e ausência de sensibilidade” (Houaiss). A estupidez é a recusa consciente em reconhecer evidências e agir com discernimento diante da verdade dos fatos. Inventar, defender e propagar mentiras é sua essência. Juntas, estupidez e ignorância, se tornam uma combinação perigosa. “Tudo se desmorona se falta a verdade”, observou Bento XVI.

A estupidez coletiva é ainda mais perigosa. Dietrich Bonhoeffer, em Cartas da Prisão, escreveu que o estúpido não reconhece sua própria estupidez e despreza argumentos racionais. É facilmente manipulável e, por isso, é fantoche de líderes autoritários. Sem vontade própria, o estúpido será capaz de todo o mal, é incapaz de ver maldade nos seus atos. O mal pode ser revelado e ser evitado. Já da estupidez, lamentava Bonhoeffer, não há como defender-se. Não há fatos nem argumentos que convençam um estúpido. “A estupidez insiste sempre” (Albert Camus). Não é uma falha intelectual, mas ética.

Não podemos subestimar o poder mortal da estupidez, nos alertou Bonhoeffer condenado à morte em um campo de concentração nazista. Como lemos em Magnifica Humanitas (MH), “na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos” (MH, 15). O que estamos construindo? Babel novamente?

O contrário da estupidez é a sabedoria. A Igreja, consciente da força renovadora do Evangelho, oferece um patrimônio de sabedoria: sua Doutrina social (MH, 3). “Nela encontramos princípios para pensar, critérios para discernir e julgar, orientações concretas para agir (…). É um caminho de discernimento comunitário que nasce do encontro entre a verdade eterna do Evangelho e as questões da história. Porque, quando a dignidade dos irmãos é desfigurada, quando a política não responde aos dramas da humanidade, quando a economia se volta contra a pessoa ou a ciência ultrapassa os limites do seu método, a Igreja – com as outras confissões cristãs e os crentes de outras religiões – deve erguer a sua voz não para dominar, mas para servir a comunhão” ((MH, 27).

A doutrina social como uma teologia da comunhão na história (MH, 27), emana “do mistério do Deus vivo, revelado em Jesus Cristo como comunhão de Pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo, amor em relação, que se doa reciprocamente e se comunica ao mundo (MH, 49). Esse patrimônio de sabedoria, ensinou Papa Francisco, “brota do coração do Evangelho. Jesus é, em pessoa, a Doutrina Social de Deus” (DOCAT). Bento XVI explicita que ela “está construída sobre o fundamento que foi transmitido pelos Apóstolos aos Padres da Igreja e, depois, acolhido e aprofundado pelos grandes Doutores cristãos. Tal doutrina remonta, em última análise, ao Homem novo, ao último Adão que se tornou espírito vivificante (1 Cor 15,45). (Caritas in Veritate, 12).

A Doutrina Social (DSI), ao atualizar a mensagem de liberdade e de libertação do Evangelho a toda a humanidade, especialmente aos pobres, “é capaz de despertar esperança em meio às situações mais difíceis” (Documento de Aparecida, 395). Obviamente, uma autêntica evangelização inclui entre as suas componentes essenciais o anúncio da doutrina social da Igreja, como orientou João Paulo II (Centesimus annus, 5).

Os cristãos não estão imunes à era da estupidez. Aliás, não são poucos os já contaminados. Como evitar que esse vírus não se propague e se converta em pandemia colocando em risco a identidade da fé cristã? Como Magistério autêntico, a DSI exige a aceitação e adesão por parte dos fiéis batizados. De natureza catequética, ela constitui um extraordinário recurso formativo e um ponto de referência indispensável para uma formação cristã completa (Compêndio da DSI, 528). Portanto, seu ensino deveria ser prioridade pastoral das igrejas locais, de modo que todo discípulo-missionário, sem exceção, esteja capacitado a interpretar criticamente a realidade, protegendo-se da estupidez e da hipocrisia.

Por fim, a doutrina social aponta os critérios fundamentais da ação pastoral no campo social. Como expressão concreta de uma Igreja plenamente consciente da missão evangelizadora das realidades sociais, econômicas, culturais e políticas, toda diocese e paróquia deveria ter uma pastoral social.

Se queremos derrotar a estupidez sem limites da “cultura do poder” (MH, 187), Leão XIV nos desafia a “permanecer profundamente humanos” (MH, 15), “permanecer fiéis à verdade” (MH, 237) e “não se cansar de procurar a justiça!” (MH, 215). Esse é o apelo da Doutrina Social da Igreja na era da Inteligência Artificial.

 

Élio Gasda é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

11/06/2026

Foto: Vatican News

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