Geraldo Luiz De Mori, SJ
“Todos podem, de fato, contribuir através do voto na eleição dos legisladores e dos governantes e, também de outras formas na definição das orientações políticas e das opções legislativas que, no seu entender, melhor promovam o bem comum”.[1]
O Brasil vai às urnas no dia 04/10/2026, para votar em candidatos e candidatas que disputam cargos no executivo nacional (presidência do país) e estadual (governos dos estados), e no legislativo nacional (senado e câmara dos deputados) e estadual (assembleias legislativas). Em regimes democráticos, esse ato de participação cidadã, é algo normal, que conhece as tradicionais disputas ideológicas, em geral entre partidos alinhados a ideologias liberais ou sociais. Porém, nos últimos anos, esse ato tem se revestido de uma acentuada polarização, com o desprestígio “programado” do regime democrático e a atração acentuada por regimes autoritários e populistas. O que se tem visto no país desde as famosas “Jornadas de junho de 2013”, com reivindicações justas de muitos setores da população, que depois se desdobraram na apertada eleição de Dilma Roussef, em 2014, seguida dos movimentos que levaram ao seu Impeachment, em 2016, à eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, e aos ataques às instituições da República, em 2022, não é um fenômeno aleatório, pois em outros países e continentes algo parecido acontece.
Para muitos estudiosos da relação entre política e economia, o desprestígio dos regimes democráticos, que tem levado à descrença no “nós”, representado pela participação cidadã e pelas instituições que asseguram o estado democrático de direito, é resultado da ação concertada de grandes conglomerados do poder financeiro, industrial, comercial e tecnológico mundial. Com as novas possibilidades do mundo digital, sobretudo através dos recursos da inteligência artificial (IA), e seu domínio e manipulação dos dados, através de algoritmos, esse fenômeno se acelerou, ganhando proporções preocupantes. A encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica humanitas, chama a atenção para esse poder quase que ilimitado da IA, manipulado por um pequeno grupo, com pretensões de domínio sobre o conjunto da humanidade. Para isso, é importante “desconstruir” ou “deslegitimar” todas as instituições que nos últimos séculos organizavam a vida comum.
No caso específico das eleições deste ano no Brasil, chama a atenção o volume impressionante de informações que a cada instante é lançado pelos meios tradicionais de comunicação e pelas novas plataformas em que também são veiculadas e replicadas, num frenesi que torna quase impossível acompanhar. É como se a lógica do excesso tivesse como única meta inserir continuamente novos fatos, fazendo com que o “excesso de informação mate a informação”. Essa lógica do excesso mistura desinformação ou Fake News e informação fiel aos fatos. Predomina em muitos casos a criminalização da política, associando políticos e corrupção, explorando pautas de costumes e exacerbando os sentimentos de medo e insegurança, com discursos punitivistas. É como se o sistema todo fosse corrupto, o que legitimaria uma intervenção salvacionista, como a que levou aos ataques do dia 8 de janeiro de 2022. Até a religião é utilizada para respaldar a própria opinião, como se viu no triste episódio envolvendo um dos ícones do catolicismo no Brasil, Nossa Senhora Aparecida, como num jogo de “vale tudo”. Como o excesso de informação impede as pessoas de absorverem o que nela é veiculado, cria-se um vazio no pensamento crítico, e o discernimento sobre quem melhor pode defender o bem comum fica então prejudicado. O que fazer nesse contexto tão complexo? Como definir o voto?
Um convite ao discernimento
A Igreja católica e um grupo importante de igrejas evangélicas têm uma larga experiência de reflexão sobre a relação entre religião e política. O cristianismo dos primeiros séculos, com a chamada “paz constantiniana”, a partir da qual a fé cristã foi aos poucos se tornando a religião do império romano, num regime chamado de cristandade, tendeu durante séculos a identificar sociedade política e civil com sociedade cristã. Esse sistema durou séculos, mas, com o advento da era moderna, foi aos poucos sendo questionado e, na Revolução Francesa, teve uma primeira forma de separação entre Igreja e Estado. Essa separação tornou-se aos poucos a forma fundamental a partir da qual o mundo ocidental moderno começou a pensar a relação entre religião e política. Com o Vaticano II, o catolicismo reconheceu a “autonomia das realidades terrenas”, renunciando a toda forma de tutela do estado e da sociedade pela Igreja. Isso não significa que os fiéis deveriam se desinteressar da política. Pelo contrário, eles deveriam estar presentes nela e transformá-la desde dentro, através de princípios que são caros à fé, como os que se articulam ao redor da Doutrina Social da Igreja. Algumas Igrejas evangélicas também têm clareza disso, mas, nas últimas décadas, certos setores do evangelismo aderiram à assim chamada “teologia do domínio”, que incentiva não só a candidatura de pastores, bispos e apóstolos, mas também retomam a ideia da tutela do Estado pela religião. Isso explica a grande presença dos evangélicos na política e o envolvimento de políticos com lideranças importantes do evangelismo, numa espécie de neocristandade. Fenômeno parecido tem surgido em setores do tradicionalismo católico anti-Vaticano II.
A complexidade do momento presente levanta muitas questões em quem deve participar das eleições no dia 04/10/2026. Muitas pessoas escolhem inclusive não escolher, por conta da dificuldade de entender o que acontece, ou por identificar tudo o que está sendo proposto a corrupção, igualando os lados, renunciando ao discernimento. A Igreja do Brasil, que foi acusada de disseminar Fake News com relação ao ícone de Aparecida, já tinha dado vários critérios para o bom discernimento dos fiéis católicos e de quem quer exercer seu dever de cidadão e cidadã. Como tem sido sempre sua orientação, ela não diz em quem votar. Isso compete ao cada eleitor e eleitora. Ela oferece princípios éticos. Ela convida ao discernimento. Para isso, é importante conhecer quem se candidata, sua história de vida, seu compromisso ou não com o bem comum, com a justiça, com os mais vulneráveis e pobres, com a defesa da vida e do meio ambiente. O punitivismo não é critério de discernimento. Votar em candidato que promete mais segurança porque vai prender os bandidos, vai distribuir armamento, não é a solução. E isso já foi mostrado de forma trágica em candidatos que recentemente propuseram isso.
Eleger alguém é uma grande responsabilidade. É contribuir para que essa dimensão fundamental da vida humana seja assegurada. De fato, só somos humanos em sociedade, é da sociedade que aprendemos a língua, os valores. É nela que nos humanizamos. Todo ataque aos princípios básicos da sociedade não produz sociedade. Por isso, o Papa Francisco, vendo como em todo o mundo os discursos contra certos setores e grupos sociais se exacerbavam, convidou a humanidade a criar pontes e não muros. O Papa Leão XIV colocou todo o seu pontificado ao serviço da paz. Ora, a paz não se constrói com incentivo ao ódio, à violência, ao revanchismo. A paz é fruto da justiça, já diziam os antigos profetas. Os construtores da paz são chamados de bem-aventurados por Jesus, como também os que lutam pela justiça. Quando renunciamos à construção da paz, renunciamos ao que torna possível todo convívio humano. Nesse sentido, mais do que nunca é necessário voltar a acreditar no “nós”. Toda sociedade baseada somente na autorreferencialidade do eu é condenada à ruína e à destruição. Esse é o exemplo de Babel, tão bem colocado como símbolo da lógica que domina hoje muitos setores da sociedade. Para se construir o “nós”, é preciso voltar a crer no bem comum, na interdependência a partir da qual toda sociedade é construída, bem ilustrada pela reconstrução dos muros de Jerusalém, proposta como imagem da construção do “nós” pelo Papa Leão XIX em sua encíclica. Oxalá as eleições deste ano contribuam para um despertar, não sobre o melhor político escolhido, mas sobre a melhor política, que é a que não raciocina pela lógica da polarização, mas busca por todos os meios construir o “nós”.
[1] Congregação para a Doutrina da Fé. Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política. Roma: Editora Vaticana, 20º2, n. 1
Geraldo Luiz De Mori, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

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