Pe. Jaldemir Vitório SJ
As eleições, em nível federal e estadual, estão se aproximando. E seremos bombardeados com toda espécie de informações, propostas, discursos e, de modo especial, promessas. Já se encontram no “mercado digital”, aquecido pelos algoritmos, uma gama de candidatos e candidatas que se dão ares de messias, capazes de solucionar os mais graves problemas sociais – “se você votar em mim!” –, com a aparência de serem éticos e preocupados com a sorte dos pobres e dispostos a fazer tudo para ajudá-los. Nessas horas, sobem os morros, adentram as favelas, entram nos tugúrios dos pobres, atendem as necessidades imediatas das pessoas, comem pastel com café em bares populares, dão tapinhas nas costas das pessoas e se mostram muito próximos, quando não íntimos de quem encontram – “seu pai foi meu grande amigo!” Vocês, leitores e leitoras, conhecem muito bem esse papo de político em tempos de eleições!
Por outro lado, seremos desafiados a decidir, num extenso espectro político, que vai da extrema direita à extrema esquerda, entremeado por uma gama de opções político-ideológicas, cada qual com suas propostas, às vezes, estapafúrdias, para solucionar os problemas que os cidadãos e as cidadãs enfrentam no dia a dia. Quanto maior a cidade, tanto maior a quantidade de desafios, em diferentes âmbitos e com distintos graus de gravidade. Quando se pensa em termos nacionais, tudo se agiganta, considerando-se as dimensões continentais do nosso país. Para todos eles, os “salvadores da pátria” tentam convencer os incautos eleitores de terem o remédio adequado.
No universo político-eleitoral, se produzem posturas variadas. Existem os desanimados com a política por terem sido decepcionados ou traídos por candidatos que, uma vez eleitos, revelaram sua identidade de corruptos, defensores dos interesses pessoais e os de sua “panelinha”. Outros votam nos candidatos que, por ocasião da campanha, lhe fizeram algum favor, ajudando-o a pagar alguma conta, a terminar a construção da casa, a comprar uma dentadura ou lhe fizeram alguma promessa “caso eu seja eleito”. Outros fazem sua escolha, no dia da eleição, recolhendo, aleatoriamente, pela rua algum “santinho” de candidato. Outros recorrem à indicação de amigos ou amigas, que lhes sugerem “um candidato da minha confiança”. Outros votam nos candidatos do partido de sua preferência, não se dando ao trabalho de verificar de quem se trata. A tendência mais difundida consiste em exercer a cidadania pelo voto, sem o devido discernimento e responsabilidade, não se dando conta de se defrontar com algo que o toca de cheio e definirá seu futuro próximo, mas, também, o de sua família, de seu bairro, de sua cidade, de seu estado e, por fim, do seu país, numa vergonhosa falta de patriotismo! Se, deveras, amamos nossa pátria, donde vem a palavra patriotismo, e queremos o melhor para ela, não podemos desperdiçar a chance representada pelo direito – mais que obrigação! – de votar.
Um percentual pequeno de cidadãos e cidadãs exerce, com lucidez e discernimento, sua condição de eleitor. Esses se dão ao trabalho de avaliar os candidatos a quem darão seu voto, e se guiam por critérios objetivos. O histórico do candidato o recomenda? As bandeiras do seu partido e as das respectivas coligações têm como horizonte o bem-estar de todos, com especial atenção às classes sociais mais baixas? O candidato se distingue por sua postura ética, capacidade de dialogar, preparação para o exercício do cargo ao qual concorre; tem propostas claras em benefício de todos; sabe apresentá-las com clareza e defendê-las, respeitando o contraditório; ao longo da vida, se mostrou acessível e próximo? Tem interesse e preocupação com as causas dos mais pobres, das minorias, dos marginalizados? Esses exemplos de critérios de discernimento serão completados com outros, a depender das múltiplas situações em que o cidadão-eleitor consciente se encontra.
Em se tratando de quem tem compromisso com a fé cristã e deseja ser fiel ao compromisso batismal, para além de suas igrejas e grupos religiosos, a eleição assume um caráter distinto: torna-se ato de fé, de amor e de esperança. Seu ato de eleger – escolher, optar, decidir – não se limita à dimensão político-ideológica, pois se coloca num patamar teologal. Deus está implicado na eleição que fará! Votar de maneira irresponsável e inconsequente se torna pecado gravíssimo, já que as primeiras vítimas e os mais penalizados serão os mais necessitados, por quem Deus mais se interessa, em consonância com a fé evangélica (Mt 25,31-46).
Votar: um ato de fé. O cidadão e a cidadã compromissados com Deus e seu Reino exercem sua cidadania em perfeita sintonia com o querer divino, pelo qual se pautam. E o querer de Deus não compactua com a injustiça, a corrupção, o nepotismo, a mentira, a truculência, a fraude, a falsidade, a hipocrisia, as segundas intenções e tantos outros desvios de conduta, encontradiços na classe político-partidária. A luz da fé os desmascara e faz com que o oculto se torne patente e a cara do falso político se revele em toda sua fealdade. A fé verdadeira possibilita ao cristão e à cristã acertarem em sua decisão, na hora de votar, mesmo que seu candidato não seja eleito. Diante de Deus, terá a consciência tranquila de ter votado, se pautando pelos critérios decorrentes de sua fé.
Votar: um ato de amor. O cidadão e a cidadã cristãos, ao votarem, superam os interesses pessoais ao focarem a sorte e o destino dos últimos na escala social. São os diretamente afetados pela corrupção política, vitimados por políticas que beneficiam as classes altas, insaciáveis na sede de dinheiro e de benesses com o que pertence a todos (res publica). Ao votar, tendo-os em mente, movidos por compaixão e misericórdia, se decidem pelos candidatos e candidatas cujas trajetórias políticas carregam sinais convincentes de preocupação com as causas populares. “Cristãos e cristãs” egoístas, autocentrados, fechados em suas bolhas sociais, desprovidos de amor, quando votam, sem peso na consciência, tornam a vida dos preferidos de Deus cada vez mais dura e pesada!
Votar: um ato de esperança. Quando os cristãos e as cristãs rezam, dizem ao Pai-Nosso: “venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu” (Mt 5,10), como expressão de esperança de ver o Reino de Deus acontecer. E o Reino de Deus se torna verdade, quando todos e todas, sem exceção, têm acesso aos bens que são de todos; a compaixão se torna a pauta das relações sociais, de modo que o braço da misericórdia alcance os vitimados pela injustiça; o shalom supere as guerras que destroem, matam, geram sofrimento; cessa toda forma de conflito religioso, étnico, cultural, geracional e outros, que dividem e levantam muros; enfim, a justiça e a paz despontam no horizonte. Como reza o salmista: “justiça e paz se beijam” (Sl 85,11). O voto em cada eleição carrega o anseio de ver acontecer a utopia do Reino de Deus profundamente fincada no coração dos discípulos e das discípulas de Jesus de Nazaré.
Na hora de votar, pensemos: meu compromisso batismal está em jogo! E peçamos a graça de exercer nossa cidadania de cristãos e cristãs, em total sintonia com a “vontade” de Deus, com fé, amor e esperança.
Pe. Jaldemir Vitório SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
20/08/2026

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