Silvia Contaldo
Alemanha, 1784, mês de dezembro. O periódico intitulado Berlinische Monatsschrift publicava, em sua edição mensal, um texto ímpar, motivado por um artigo da edição anterior, de autoria do clérigo Johann Friedrich Zöllner, o qual fazia parte de uma sociedade secreta e seus membros autointitulavam-se Amigos do Iluminismo. No texto publicado, o clérigo levantava questões relacionadas ao vínculo entre casamento e religião, o que para ele contrariava os ideais iluministas. Além dessas questões, Zöllner também questionava o que seria aquela tal época de pessoas esclarecidas. Para ele, matéria da maior importância, de estatura metafísica.
Muitos filósofos, professores e intelectuais responderam à provocação filosófica: Friedrich Schiller, Gotthold Ephraim Lessing, Johann Gottfried Herder, Moses Mendelssohn, Immanuel Kant. Isso mesmo, Immanuel Kant, aquele jovem que ingressou na Universidade de Königsberg com apenas 16 anos.
Por ocasião dessa querela, Kant já tinha 60 anos e uma obra filosófica consolidada. Mas não lhe escapou o desafio de explicar, isto é, de desdobrar ‒ ao contrário de plicare – dobrar ‒ de passar a limpo, tirar as dobras…. Empreitada nada fácil, praticada pelo menos há mais de dois mil anos, com alguns poucos êxitos.
O texto de Kant ‒ Resposta à pergunta: ”Que é esclarecimento?” ‒ publicado naquele jornal, tem sido, desde então, amparo conceitual para explicar ‒ o mais claro possível ‒ os efeitos danosos de permanecer, por vontade própria, na menoridade, de “não fazer uso do seu próprio entendimento sem a direção de outrem”, de ser, no século XXI, um seguidor… Claro, Kant não usou esse termo, tal como é entendido hoje, embora o apelo de Kant tenha sido dirigido àquelas pessoas que se deixam ser tuteladas, que aceitam de boa vontade que lhes coloquem antolhos. Ou pior, que se tornam porta-vozes justamente daqueles que irão mantê-los iludidos e felizes em sua menoridade.
O professor de Königsberg ali apontava as causas dessa menoridade consentida: preguiça e covardia são mantenedoras dessa recusa ao pensamento, recusa à atitude reflexiva, recusa explícita de pensar por si mesmo: “É tão mais fácil ser menor”, escreveu Kant. É tão fácil ser seguidor, diríamos hoje. Para que pensar se há um coach, um influencer, um pastor endinheirado que pensam por mim? Para que se dar ao trabalho de refletir sobre os destinos e soberania de uma nação se “os tutores já tomaram para si de bom grado a supervisão de nossa razão?”. Para que andar por conta própria se os modernos tutores já estabeleceram ‒ para nós e por nós ‒ a comodidade de não sair dos trilhos digitais, servindo-lhes de dormentes para sustentar seus vagões vips? Para que esforçar-se e progredir no conhecimento? Basta seguir, não fazer perguntas, não enxergar para além do que está sombreadamente posto. Basta estar bem acomodado no redil. E seguir.
Todo o esforço kantiano foi justamente para que se percebesse os perigos de vidas submissas aos tutores, às mídias artificiais, a influenciadores e a não desistir da “nossa tendência e vocação para o pensamento livre”, pelo qual podemos exercer a liberdade.
Em tempos de vigília permanente pela liberdade de pensar e de agir, sejamos eleitores e não seguidores, fazendo ainda valer a advertência de Mestre Hugo (1096-1141) da Escola de São Vitor, em Paris, margem esquerda do Sena. Mestre Hugo, a cada início de um período letivo, gostava de reunir os estudantes para os esclarecimentos. Em setembro de 1127, Mestre Hugo apresentou à comunidade discente o seu Didascalicon ou A arte de ler. Lembrando o salmista (36) “Não quiseram entender, para não ter que agir retamente”, ele ‒ no Prefácio de sua obra ‒ advertia os estudantes: “Não saber e não querer saber são de longe duas coisas bem diversas. Não saber é questão de incapacidade, mas detestar o saber é perversidade da vontade!
Felizmente ainda existem aqueles que amam o saber. Sejamos eleitores.
Silvia Contaldo é professora do departamento de Filosofia da FAJE
01/10/2026

Foto: Matheus Câmara da Silva – Unsplash