Carlos Barth
Há algum tempo, Natália Beauty, colunista da Folha de São Paulo, publicou um texto com o título “Meus textos usam inteligência artificial; meu pensamento, não”. Seu objetivo era duplo: admitir e defender o uso de IA em publicações anteriores. O caso gerou alguma controvérsia, mas a discussão se concentrou na suposta falta de transparência (i.e. não deixar claro aos leitores que os textos foram produzidos com IA), e em possíveis limites de uso dessas ferramentas para jornalistas, colunistas e criadores de conteúdo. São debates importantes, mas proponho tratar aqui de um aspecto menos discutido, que envolve a relação entre pensamento e escrita, particularmente em textos argumentativos.
A argumentação da colunista supõe que pensar e escrever são atividades independentes, ideia que o senso comum parece aceitar com facilidade. Essa distinção certamente captura algo de verdadeiro, como atesta a grande quantidade de excelentes pensadores que são péssimos escritores, hoje e ontem. Porém, ainda que escrever e pensar sejam habilidades distintas, ao contrário do que supõe a colunista, o seu exercício não é isolado.
Podemos perceber como essa interação ocorre a partir de experiências familiares. A primeira delas se mostra no desenho ou pintura. Desenhar não é “imprimir” na tela uma imagem já formada na mente. Antes, é um processo interativo. A cada traço feito, a opção pelo que fazer em seguida toma como ponto de partida o estado atual da tela, não raro explorando possibilidades que só se mostraram durante esse processo. Não faz sentido, portanto, pedir a uma IA que “complete” os traços em nossos rascunhos e considerar o resultado final como a expressão do que tínhamos em mente desde o início.
Algo análogo acontece no processo de escrita. Ao escrever, é comum que emerjam incertezas, lacunas e até inconsistências. Esse efeito não ocorre necessariamente por um conhecimento esparso do tema, (ainda que isso possa contribuir), mas porque a escrita exige que articulemos esse conhecimento de novas formas. Conforme a escrita avança, o modo como tratamos do assunto escolhido pode se mostrar impróprio ao público alvo; o escopo pode se mostrar amplo ou restrito demais; a estruturação do argumento pode fazer emergir caminhos imprevistos; aspectos que pareciam irrelevantes podem se mostrar salientes; o que se considerava essencial pode aparecer como descartável.
Talvez o escritor acredite, por exemplo, que Michelangelo é um dos maiores artistas da história e que a apreciação artística é uma questão de puro gosto pessoal, mas a tensão entre estas ideias nunca tenha ficado evidente até explicitá-las num mesmo texto. O que fazer quando algo assim acontece? Qualquer que seja decisão do escritor, ela deve levar em conta não apenas suas ideias embrionárias, mas também o estado em que o texto se encontra.
Essas experiências ilustram um desafio à ideia de que escrever é apenas explicitar pensamentos pré-existentes. O texto é também um laboratório em que submetemos nossas ideias a testes e exigências que não encontramos em outros lugares. O esforço para articular nosso pensamento por meio de estruturas linguísticas não é apenas de tradução, pois envolve reflexão, refino e mesmo descoberta. Em síntese, escrever é, também, um modo de pensar.
Quando uma IA formula um texto bem delineado, preciso e legível a partir de nossos rascunhos ou prompts, é tentador imaginar que ela apenas deu vazão ao que já pensávamos. Contudo, as IAs não emulam o pensamento humano. Elas não vasculham o espaço de possíveis desdobramentos e desenvolvimentos como nós o faríamos. Os resultados tendem a ser aceitáveis porque conseguimos enxergar a conexão entre o que pedimos e o resultado final. Mas não estamos diante de um sistema que expressa o modo como nós desenvolveríamos essa conexão, e sim de um sistema que a completa ao seu próprio modo. Tomar o resultado como nosso nos coloca na mesma posição do desenhista que rascunha uns poucos traços e submete-os a uma IA para que a obra seja finalizada. A obra final existe por causa de seus rascunhos e de sua iniciativa, sem dúvida, mas ela não é um trabalho do desenhista, ao menos não no mesmo sentido em que seria caso ele tivesse percorrido todos os passos por si mesmo.
Há ainda uma consequência adicional que a analogia com o desenho nos ajuda a enxergar. Se o desenhista toma o resultado produzido pela IA como um desdobramento do seu trabalho, é possível que ele tome o estilo imposto por ela ao trabalho final como se fosse seu. Supondo um uso frequente da ferramenta, não teríamos uma IA capaz de completar as obras do desenhista com fidelidade cada vez maior aos seus objetivos, mas sim um desenhista cujos objetivos e anseios são crescentemente condicionados pela ferramenta que utiliza. Ainda que algo assim seja improvável no caso do desenho, esta parece ser a regra no caso da escrita. Um escritor que tome o resultado produzido pela IA como uma expressão direta de suas próprias ideias está efetivamente submetendo seu modo de escrever (e nessa medida, de pensar), ao estilo e aos limites daquele sistema.
Esse cenário acomoda algumas possibilidades. Talvez queiramos insistir na manutenção da escrita como um modo de pensar, ou talvez já estejamos caminhando para um futuro que prescinda dela. O que não podemos é ignorar que essa decisão seja nossa pra tomarmos.
Carlos Barth é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE
16/04/2026

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