Fisicamente presente, intelectualmente offline: o drama da atenção na universidade da distração

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Luiz Sureki, SJ

Uma das grandes preocupações atuais no campo da educação é o crescente déficit de atenção em sala de aula. Em muitas instituições de ensino médio, o uso do celular durante as aulas foi restringido ou mesmo proibido. A medida parece razoável, especialmente quando se trata de adolescentes, que ainda estão em processo de amadurecimento e frequentemente não possuem recursos interiores suficientemente consolidados para estabelecer limites a si mesmos.

Mas o problema torna-se ainda mais interessante e talvez mais grave quando olhamos para o ensino superior. O que dizer de universitários adultos, ou ao menos juridicamente adultos, que continuam incapazes de sustentar atenção prolongada diante de uma aula? O que significa estar fisicamente presente na sala, mas mental e espiritualmente ausente?

Provavelmente estamos diante de uma mudança cultural mais profunda do que imaginamos. Boa parte dos estudantes universitários de hoje foi formada em um ambiente digital no qual praticamente todo conteúdo parece imediatamente acessível. Há vídeos curtos, podcasts, canais especializados, aulas online, perfis educacionais nas redes sociais e uma infinidade de pessoas explicando praticamente qualquer tema. Diante disso, instala-se uma convicção silenciosa: “Se eu não prestar atenção agora, depois posso ver isso na internet.” À primeira vista, isso parece até razoável. Mas essa aparente autonomia esconde um problema sério.

A informação disponível nas redes sociais não equivale automaticamente a conhecimento. Menos ainda a formação intelectual. O fato de alguém explicar algo com boa didática, carisma, humor e linguagem acessível não significa que o conteúdo seja rigoroso, completo ou academicamente confiável. Didática e verdade não são sinônimos. Uma pessoa pode explicar mal algo verdadeiro; outra pode explicar muito bem algo superficial, incompleto ou simplesmente errado. E aqui reside um dos grandes desafios da formação universitária contemporânea: o problema dos critérios.

Um estudante iniciante em um curso de graduação, justamente por estar começando, ainda não possui maturidade conceitual suficiente para avaliar criticamente tudo aquilo que encontra em diferentes plataformas. Falta-lhe repertório, vocabulário técnico, familiaridade bibliográfica, visão histórica da disciplina e, sobretudo, capacidade de discernimento epistemológico. Em termos simples: ele ainda não sabe suficientemente para distinguir com segurança o que é sólido do que é apenas sedutor. E isso não é uma falha moral do estudante, é parte natural do processo formativo. Ninguém entra na universidade especialista. Entra-se precisamente para aprender.

Por isso, a relação pedagógica exige algo que nosso tempo parece ter dificuldade em aceitar: confiança intelectual. Isso não significa submissão cega ao professor, como se autoridade acadêmica fosse infalibilidade. Professores podem errar, instituições podem falhar, e o pensamento crítico continua indispensável. Mas também é verdade que não se aprende sem algum grau de confiança inicial em quem ensina. Todo processo formativo pressupõe uma assimetria. O professor não sabe tudo, mas sabe mais, ao menos sobre aquele campo específico, do que o estudante iniciante. Essa assimetria não é autoritarismo, é condição da aprendizagem.

O problema se agrava quando o estudante passa a perceber o professor como apenas mais uma voz entre milhares que disputam sua atenção no feed. Nesse momento, a aula deixa de ser vivida como experiência formativa e passa a ser tratada como simples entrega de conteúdo. Mas uma aula nunca é apenas conteúdo. Ou, ao menos, não deveria ser.

Uma boa aula é também contexto, hierarquização conceitual, problematização, interpretação, articulação entre autores, mediação crítica e discernimento metodológico. O professor não apenas transmite informações; ele ajuda o estudante a aprender a pensar. E isso dificilmente se substitui por vídeos curtos ou recortes fragmentados das redes sociais. A lógica algorítmica das redes favorece aquilo que retém atenção, não necessariamente aquilo que forma intelectualmente.

Há ainda outro aspecto preocupante. Muitos influenciadores educacionais, especialmente jovens, falam com enorme convicção sobre temas altamente complexos sem qualquer preocupação científica ou acadêmica consistente. Seu objetivo principal nem sempre é a formação do público, mas a ampliação de alcance, relevância digital e número de seguidores. Isso altera sutilmente a relação com o conhecimento. O saber corre o risco de tornar-se espetáculo. Quando isso acontece, a autoridade deixa de estar vinculada ao estudo sério, à pesquisa, à produção científica e à responsabilidade intelectual, passando a depender de métricas de visibilidade. Mas seguidores não certificam competência. Likes não substituem pesquisa. Viralização não é critério de verdade. E o choque com a realidade costuma aparecer no momento das avaliações.

Então vem o desastre. Não porque o estudante faltou fisicamente às aulas, mas porque, de fato, não esteve presente. Não ouviu. Não anotou. Não acompanhou o desenvolvimento dos argumentos. Não percebeu distinções conceituais fundamentais. Não se deixou formar. Estava ali em corpo, mas ausente em atenção. E sem atenção não há aprendizagem profunda. Aprender exige presença. Exige disciplina interior. Exige esforço cognitivo. Exige suportar o tédio inicial que acompanha todo aprendizado sério. Nem tudo será imediatamente estimulante. Nem todo conhecimento virá embalado em formatos agradáveis. Há momentos em que aprender implica atravessar dificuldade, repetição, leitura densa e concentração prolongada.

Formar-se nunca foi apenas acumular conteúdos. Formar-se é transformar-se. E isso exige presença integral: corpo, mente e espírito. Em tempos de distração permanente, a atenção é uma das formas mais altas de inteligência. Por isso, o maior risco da universidade hoje não é a falta de informação, mas a incapacidade de discernir entre conteúdo e conhecimento.

 

Luiz Sureki, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE

02/07/2026

Foto: Shutterstock

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