Elton Vitoriano Ribeiro, SJ
A filósofa estadunidense Nancy Fraser é uma das mais vigorosas e originais vozes da Filosofia Social contemporânea. Seu pensamento redirecionou os debates sobre justiça social, feminismo e capitalismo, apresentando interpretações criativas, novas e perspicazes. Em obras como Capitalismo Canibal e Benjamin Lectures – Three Faces of Capitalist Labor, ambas de 2022, Fraser apresenta uma redefinição radical do conceito de trabalho no capitalismo atual. Com isso, demonstra como a fragmentação e a subordinação dessa atividade estruturam as múltiplas crises sistêmicas da sociedade contemporânea e incidem diretamente na produção da injustiça social.
Para começar, ao definir o capitalismo, Fraser propõe que ele seja compreendido como uma ordem social institucionalizada ou uma forma de vida, rejeitando a visão puramente econômica do sistema. Essa ordem estabelece fronteiras sistêmicas artificiais entre a esfera central da economia, onde ocorre a produção de valor, e as esferas não econômicas de suporte que lhe dão sustentação, como a cultura, a ecologia e a política. Sob essa perspectiva, o capital possui uma natureza intrinsecamente canibal, ele se sustenta devorando de forma predatória as suas próprias pré-condições de fundo, exaurindo a natureza (gerando a crise ecológica), esvaziando a democracia (corroendo o poder político) e espoliando o trabalho de reprodução social.
Nas Benjamin Lectures, a autora argumenta que o trabalho assalariado fabril formal é apenas a ponta visível de um imenso iceberg. Sob a superfície, ocultam-se formas de dominação mais profundas e indispensáveis à acumulação. Fraser conceitua, então, o que chama de “as três faces do trabalho capitalista”, a saber, o trabalho explorável, o trabalho expropriável e o trabalho domesticável ou reprodutivo.
A primeira face, o Trabalho Explorável (The Exploitable), constitui o foco tradicional das análises operárias. Refere-se ao trabalhador formalmente livre que vende sua força de trabalho no mercado sob o amparo de um contrato jurídico, cuja dinâmica central é a extração da mais-valia no ponto de produção. Contudo, a grande inovação teórica da autora consiste em apontar que essa face depende inteiramente das outras duas dimensões que operam nos bastidores da ordem institucional.
A segunda face é o Trabalho Expropriável (The Expropriable). Enquanto a exploração atinge trabalhadores livres protegidos por direitos, a expropriação consiste no confisco violento de capacidades corporais, populações e recursos territoriais sem qualquer contraprestação ou pagamento integral de seu valor. Historicamente vinculada ao colonialismo, à escravidão e ao imperialismo, a expropriação permanece ativa no capitalismo atual por meio da precarização absoluta de comunidades racializadas, localizadas tanto no Sul Global quanto nas periferias e guetos urbanos do Norte Global. Através do conceito de capitalismo racial, Fraser demonstra que o sistema opera uma cisão estrutural, estabelecendo quem possui o status de sujeito de direitos (passível de exploração contratual) e quem é convertido em sujeito vulnerável à pilhagem e à violência expropriatória.
A terceira face é o Trabalho Domesticável ou Reprodutivo (The Domesticable), voltado à reprodução social. Esta dimensão engloba as atividades de cuidado, manutenção do lar, educação e suporte emocional. Historicamente invisibilizadas, não remuneradas e delegadas majoritariamente às mulheres, essas tarefas compõem a própria condição de possibilidade para a existência do trabalho assalariado. O trabalhador só pode comparecer à fábrica ou ao escritório porque houve um gasto massivo de energia reprodutiva invisível para alimentá-lo, vesti-lo e regenerá-lo. Na era contemporânea, o capital canibaliza essa esfera ao demandar tempos de trabalho produtivo cada vez mais exaustivos, desestabilizando os arranjos familiares e gerando a atual crise do cuidado.
Essa fragmentação tripartite do trabalho repercute de maneira determinante na reflexão de Fraser acerca da justiça social. Para a autora, a justiça exige o cumprimento simultâneo de uma tríade integrada de condições, articuladas sob o princípio normativo da paridade de participação: a redistribuição justa (dimensão econômica), o reconhecimento de status (dimensão cultural) e a representação política (dimensão democrática). A injustiça social contemporânea decorre diretamente do modo como o capitalismo segmenta as faces do trabalho para ocultar e perpetuar sua dominação.
A reflexão filosófica tradicional falha ao postular que a justiça seria alcançada apenas resolvendo a opressão do proletariado industrial na chave da redistribuição econômica. Fraser evidencia que a injustiça se prolifera de forma multidimensional. A desvalorização do trabalho reprodutivo manifesta-se como uma injustiça de reconhecimento e se expressa, por exemplo, na subordinação de gênero baseada no status doméstico, o que afeta diretamente a paridade participativa das mulheres. Simultaneamente, a expropriação do trabalho de populações periféricas e imigrantes combina a espoliação econômica com o não reconhecimento de sua humanidade e com a exclusão de sua representação política. Trata-se de um problema de escala, já que as fronteiras dos Estados-nação não conseguem mais conter ou solucionar injustiças que são intrinsecamente globais e transnacionais.
Consequentemente, a superação desse cenário de espoliação e a garantia de uma justiça social efetiva demandam uma profunda transformação na estratégia das forças de resistência. Fraser defende a urgente necessidade de superar as divisões corporativistas por meio da articulação das chamadas lutas de fronteira e lutas de emancipação. Para fazer frente ao capitalismo contemporâneo, as dinâmicas de contestação não podem se limitar à luta de classes tradicional do ambiente fabril assalariado. É preciso convergir as demandas contra a exploração econômica com as lutas feministas (contra a crise da reprodução social), as lutas ecológicas (contra a destruição predatória da natureza) e as lutas antirracistas e anti-imperialistas (contra a expropriação racial e a pilhagem global).
Portanto, ao descortinar as três faces do trabalho e integrá-las à sua teoria tridimensional da justiça, Nancy Fraser oferece um diagnóstico preciso das patologias do capitalismo atual e uma gramática para compreendê-lo. Ela demonstra que o capital não apenas explora o assalariado, mas sobrevive ocultando domesticamente o cuidado e pilhando colonial e racialmente as populações vulneráveis. A justiça social deixa de ser uma aspiração setorial e passa a exigir um projeto político integrado de transformação sistêmica, transfeminista, antirracista e ecológica. O diagnóstico da autora é cirúrgico! Contudo, nas sociedades capitalistas contemporâneas, diante dessa nova gramática do trabalho, a organização e a realização dessas lutas de fronteira e de emancipação, as únicas capazes de promover uma transformação real, enfrentam o desafio urgente de unificar a classe trabalhadora. Mas, essa já é uma outra história.
Elton Vitoriano Ribeiro, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE
25/06/2026

Foto: Crianças trabalhadoras em Mumbai, India
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