Elton Vitoriano Ribeiro, SJ
A fecundidade dos estudos hegelianos pode ser facilmente verificada pela profusão das pesquisas sobre o autor e pela grande influência de Hegel na formação intelectual dos mais importantes pensadores contemporâneos. Especialmente nos estudos de Filosofia Social, Hegel é incontornável. A percepção de Charles Taylor de que a importância de Hegel se deve à grande influência dele em todos os campos do pensamento filosófico é correta. Mas, especialmente, porque Hegel fornece os termos com os quais refletimos sobre alguns problemas contemporâneos. A maneira de Hegel pensar conceitos como reconhecimento, dialética e liberdade, por exemplo, ainda possui incidência na forma com a qual muitos pensadores contemporâneos, e cada vez mais pensadoras, interpretam nossas sociedades atuais.
Acabei de ler nestes dias o excelente trabalho de Emmanuel Nakamura intitulado “Escalas da Liberdade: Hegel e a questão social do nosso tempo” (2025). Neste trabalho, o autor apresenta a relevância do pensamento hegeliano para a discussão sobre a liberdade como conceito central para pensar as questões sociais de nossas sociedades contemporâneas. O livro herda a concepção de Filosofia Social que tem como objetivo construir uma ponte entre a reflexão filosófica e a pesquisa social empírica. Os dilemas de nosso tempo, nossos problemas sociais, devem ser examinados filosoficamente. O livro se propõe, assim, a ser uma reflexão filosófica que funcione como diagnóstico crítico da nossa época.
A proposta do autor é audaciosa, tal como o próprio pensamento hegeliano: interpretar e criticar a organização dos frames (quadros referenciais) que condicionam nosso modo de pensar e agir. Mais ainda, esses frames condicionam nossas instituições, o reconhecimento interpessoal, a compreensão dos direitos sociais, a própria liberdade e os critérios de justiça social. Em suma, o livro desenvolve uma robusta filosofia social de cunho hegeliano. Para tal, o autor reconstrói aspectos fundamentais da filosofia social e do método dialético hegeliano. O ponto de partida filosófico é claro: “a questão da justiça [social] só pode ser compreendida para Hegel no âmbito da história, isto é, enquanto progresso na consciência da liberdade”.
Um ponto crucial da análise reside na articulação entre o método dialético e a ideia de liberdade em Hegel. A hipótese é que, a partir dessa relação, é possível edificar uma crítica imanente das relações e das questões de justiça social. O foco principal é elucidar o frame da liberdade como quadro referencial para a linguagem e o pensamento social, seguindo a máxima de que “a maneira como compreendemos o mundo condiciona a maneira como o próprio mundo é organizado”.
Nessa perspectiva, o autor interpreta a Liberdade como o vínculo social que estrutura e condiciona nossas relações pessoais de reconhecimento. É fundamental lembrar que os frames influenciam a maneira como organizamos nossos pensamentos, percepções, avaliações, ações e orientações sociais e políticas. Para desenvolver a ideia de liberdade, Hegel parte dos valores e bens presentes na sociedade histórica e busca uma compreensão mais abrangente e conceitual. Para ele, o princípio moderno da liberdade emerge historicamente com o Cristianismo, sendo a ideia da igualdade humana (presente na representação cristã) crucial para a edificação dos vínculos sociais, da vontade livre moderna, do desenvolvimento do direito e da concepção do Estado de Direito.
Aqui emerge de forma robusta a ideia de reconhecimento recíproco, não de forma abstrata, mas encarnada na história e em contextos sociais. Nesta altura da leitura fica cada vez mais claro porque para a Filosofia Social Contemporânea o conceito de reconhecimento é o princípio crítico-normativo que possibilita teoricamente analisar e reconstruir o frame contemporâneo de nossas relações sociais e instituições.
A tese fundamental do livro é que a Liberdade deve ser interpretada como o frame institucional de uma concepção de Justiça Global. O autor estrutura sua reflexão hegeliana sobre Justiça Global a partir de três eixos: (1) Dimensão Econômica da Distribuição, (2) Dimensão Cultural do Reconhecimento e (3) Dimensão Política da Representação. O texto revisita a dinâmica contraditória do Mercado Capitalista, o frame da luta por Direitos e o paradoxo do Estado Social-Democrata. Cada releitura é discutida de forma robusta, conduzindo o leitor à conclusão de que “o progresso na consciência da liberdade é o critério para determinar o que é justo dentro de um ordenamento sociopolítico vigente”. Daí a tese de que a Justiça Global deve ser entendida como progresso na consciência da liberdade. O livro conclui com um balanço do percurso, enfatizando que o reconhecimento de direitos pessoais não deve ser dissociado do reconhecimento de direitos sociais e políticos.
Em conclusão, trata-se de um excelente trabalho, de grande valor para a atualização do pensamento hegeliano e sua incidência na reflexão contemporânea em Filosofia Social. A bibliografia é muito bem selecionada e atual, respeitando os clássicos da área. As notas de rodapé são um valor à parte: perspicazes e instrutivas. O texto é didático e bem escrito, sendo altamente recomendado tanto para quem inicia os estudos na filosofia social hegeliana quanto para os pesquisadores mais avançados.
Elton Vitoriano Ribeiro é professor e pesquisador no departamento de Filosofia, e reitor da FAJE
05/03/2026
