Na hora de eleger, ter uma intenção reta

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Pe. Alfredo Sampaio Costa, SJ

Às vésperas de uma das eleições mais disputadas e importantes de nossa época, trago um tema fundamental para nossa reflexão. Trata-se de considerar como anda nossa intenção na hora de tomar uma decisão tão importante como a defesa do regime democrático e da soberania de nosso país. Na espiritualidade inaciana, o lugar que a intenção ocupa é fundamental. Santo Inácio se preocupará sempre pela retidão da intenção, como condição indispensável para poder buscar em modo justo e poder encontrar a vontade divina. Tal retidão de intenção é o mais necessário e ao mesmo tempo o mais difícil de alcançar.

Sabemos o quanto nas horas em que temos que tomar a responsabilidade sobre nós não só do nosso destino, como de toda uma nação, vão atuar sobre nós muitas interferências: dúvidas, pressões, paixões, sentimentos desordenados, o que exigirá de nós um esforço grande para não se deixar arrastar por eles.

Nos Exercícios Espirituais vemos como Inácio repete tal advertência de verificar como anda nossa intenção por toda parte, como se temesse que se o exercitante se esquecesse disso no seu discernimento, tal discernimento seria fadado ao fracasso[1]. Assim já no primeiro número dos Exercícios onde Inácio descreve o que são os Exercícios Espirituais, ele determina que neles se trata de “tirar de si todas as afeições desordenadas” para poder assim “buscar e encontrar a vontade divina” (EE 1). Em outras palavras, ele inicia seu livrinho dizendo que as afeições desordenadas serão um obstáculo para encontrar a vontade divina!

Também a quinta anotação se refere a esta pureza de intenção com que cada pessoa deveria começar o seu caminho nos Exercícios, “com grande ânimo e generosidade para com seu Criador e Senhor, oferecendo-Lhe todo o seu querer e liberdade” (EE 5). A anotação seguinte reafirma que “a causa de desejar ter uma coisa ou outra seja somente o maior serviço, honra e glória da sua divina majestade” (EE 16). Na mesma linha vai o Princípio e Fundamento dos Exercícios, quando afirma para que o homem é criado e que uso deve fazer das criaturas.  A chamada “indiferença inaciana” que é melhor entendida como “liberdade interior” é, em outras palavras, a retidão de intenção, o permanecer livre diante de todas as coisas até que se manifeste a vontade divina.

Talvez seja essa o maior entrave para eleger bem: permanecer livres diante das opções que teimam em se impor e forçar a nossa liberdade de escolha!

Em todo o processo dos Exercícios até chegar o momento culminante da eleição (isto é, de buscar qual é a vontade de Deus para nós), Santo Inácio não cessa nem um instante de formar, de radicar e de aperfeiçoar na alma do exercitante a intenção de tal fim. Podemos ver isso de uma forma ainda mais explicita na oração preparatória que deverá preceder a cada um dos momentos de oração particulares: “Pedir graça a Deus nosso Senhor, para que todas as minhas intenções, ações e operações sejam ordenadas puramente ao serviço e louvor de sua Divina Majestade” (EE 46). Essa ordenação de todas nossas atividades (intenções, ações e operações) é exigida sempre em cada momento!

O termo “eleição” tão caro a Santo Inácio ressoa, às portas do segundo turno das eleições, aos nossos ouvidos. De fato, muitas considerações que dizem respeito às eleições nos Exercícios podem iluminar e orientar a todos nós no cumprimento de nosso dever como cidadãos nas urnas.

O P. Orlandis, clássico comentador dos Exercícios, explica-nos que “a eleição é um ato da vontade, que considera os meios e supõe um outro ato da vontade que se dirige ao fim: a intenção. Por intenção se entende um amor e desejo eficaz do fim, isto é, um amor e um desejo do fim tal, que move a vontade a buscar os meios para atingir tal fim”[2].

O que move a pessoa nesse momento tão importante deve ser somente o AMOR. Jamais o ódio, o ressentimento, o desejo de poder, de dominar. E o DESEJO DO FIM, que é o que deve mover a vontade. Mais do que definir a votação por interesses pessoais, centralizar em pessoas e ideologias, é preciso manter a intenção reta focada no que queremos e acreditamos ser o melhor para todos!

Uma vez tendo claro quais os fins que buscamos, trata-se de discernir que meios mais nos ajudarão a alcançar ou ao menos caminhar para tal direção desejada. A intenção poderá influir de dois modos na eleição dos meios: a) um grau maior de bondade, de nobreza, de elevação no fim buscado e, portanto, na intenção, normalmente dará por resultado que os meios condizentes e elegíveis para tal fim sejam em sim mesmo mais nobres e elevados; b) quanto mais enérgica e absoluta for a intenção do fim, tanto mais o entendimento se sentirá urgido a buscar os meios mais condizentes para o fim e tanto mais a vontade se sentirá necessitada a abraçar-se com eles.

Tal reta intenção ou simplicidade de coração em um sentido positivo: significa uma integração da afetividade em um modo tal que a pessoa consiga unificar o seu amor e os seus desejos. Somente um fim é desejado e tudo o mais é subordinado a este fim, a maior glória de Deus (cf. EE 76 e 155). A fonte ou motivo para este desejo é o amor por Deus (EE 184), a tal ponto que a pessoa é de tal modo inflamada de amor por Deus “que nenhuma coisa criada sobre a face da terra pode amar em si, a não ser no Criador de todas elas” (EE 316). Em um sentido negativo, ter uma reta intenção significa libertar-se de todas as afeições desordenadas, que não vão na direção de uma maior glória de Deus[3]. O P. Calveras precisa: “É pôr em ordem a vida da pessoa em toda a sua atuação, interna e externa, privada e na sua relação com os demais, em tudo o que direta ou indiretamente depende da sua vontade própria[4].  Inácio insiste que a presença das afeições desordenadas perturba a busca da vontade divina: é preciso primeiro eliminá-las para “depois de afastadas, procurar e encontrar a vontade divina na disposição da vida para a salvação da alma” (EE 1). A afeição desordenada impedirá a pessoa de ter a intenção reta e puramente ao serviço divino (EE 169), poderá falsear as razões pró e contra em ordem a conhecer sem engano o que mais agrada a Deus (EE 179-182) ou poderá também privar a vontade da prontidão e diligência em cumprir exatamente a vontade de Deus conhecida (EE 91), se a afeição se opõe aos interesses da eleição.

Os documentos onde aparece mais claramente como se joga com a intenção nos Exercícios são os seguintes: o preâmbulo para considerar os estados de vida (EE 135), o preâmbulo para fazer eleição (EE 169) e os dois modos de fazer eleição pelo Terceiro Tempo (EE 178-183; 184-188). Vejamos em que modo Inácio toca a questão da intenção nestes números dos Exercícios.

No Preâmbulo para considerar os estados de vida (EE 135), Inácio pede ao exercitante que quando começa o seu discernimento da vocação, tenha uma abertura total da sua liberdade, retificando a sua intenção de modo a não buscar outra coisa que a perfeição em qualquer estado de vida ao qual o Senhor o quiser chamar e escolher.

No Preâmbulo para fazer eleição (EE 169) se trata diretamente da intenção do exercitante: “O olhar de nossa intenção deve ser simples, visando somente ao para que sou criado, isto é, para louvor de Deus Nosso Senhor e salvação de minha alma. E assim, qualquer coisa que eu escolher deve ser tal que me ajude para o fim para que sou criado, não subordinando nem sujeitando o fim ao meio, mas o meio ao fim” (EE 169).

Na hora de votar, é fundamental refletirmos como está nossa intenção: Duas perguntas nos ajudarão para isso: o que significa ter uma intenção simples e o que significa ter uma intenção ordenada?

Uma “intenção simples” é aquela que se propõe um único fim, excluindo não somente outros fins opostos ou divergentes, mas também outros fins concomitantes. E uma “intenção ordenada” é agir da seguinte forma: “Em primeiro lugar, temos de tomar por objetivo querer servir a Deus, o que é fim, e, em segundo lugar, aceitar um benefício ou casar-me, se mais me convém, o que é meio para o fim. Pelo que nenhuma coisa deve mover-me a tomar tais meios ou privar-me deles, senão somente o serviço e louvor de Deus Nosso Senhor e a salvação eterna de minha alma” (EE 169). Trata-se de um voltar o nosso olhar para a direção do fim e a partir deste escolher os meios justos.

Chegado o momento decisivo de fazer eleição, a primeira coisa que Inácio busca é que o exercitante se encontre em uma atitude de liberdade interior: “que não esteja mais inclinado nem apegado a tomar a coisa em questão que a deixá-la, nem mais a deixá-la que a tomá-la, mas que me encontre em equilíbrio como o fiel de uma balança, para seguir aquilo que sentir ser mais para a glória e louvor de Deus nosso Senhor e a salvação de minha alma” (EE 179).

É no Terceiro tempo de fazer eleição que aparece de modo mais claro a importância de trabalhar inicialmente a intenção do exercitante para poder assim assegurar o bom êxito da eleição. Depois de propor diante de si o objeto sobre a qual se quer fazer eleição, antes de proceder à deliberação, Inácio afirma que “é necessário visar ao fim para que sou criado, que é louvar a Deus Nosso Senhor e salvar a minha alma, e, consequentemente, achar-me indiferente, sem afeição alguma desordenada” (EE 179).

Somente a pessoa que de fato se encontre nestas condições poderá chegar a ver plenamente as razões que objetivamente militam em ambas as partes e tirar a resultante segundo a maior moção racional e não por moção alguma sensual[5]. Também no terceiro ponto que é uma súplica a Deus, colocando-se nas Suas mãos, quer pedir a Deus que retifique a nossa intenção: “Pedir a Deus Nosso Senhor queira mover a minha vontade e pôr em minha alma o que devo fazer, no tocante à coisa proposta, que seja mais para seu louvor e glória. Refletindo bem e fielmente com minha inteligência e escolher conforme sua santíssima vontade e beneplácito” (EE 180). Só então se passará à deliberação. Isso já nos revela o quão importante era para Inácio a reta intenção do exercitante.

O segundo modo de eleição pelo Terceiro Tempo segue a mesma dinâmica, tanto assim que a primeira regra dirá: “Que o amor que me impele e me faz escolher determinada coisa, desça do alto, do amor de Deus, de modo que quem escolhe sinta primeiro em si que o amor maior ou menor que tem pela coisa que escolhe, é unicamente por seu Criador e Senhor” (EE 184).

Inácio ao longo de todos os Exercícios se preocupa também por fazer-nos considerar qual é a intenção de Nosso Senhor Jesus Cristo (EE 135) e qual é por outra parte a intenção do demônio, que lhe é contrária. A intenção do “inimigo da natureza humana” vem descrita principalmente na meditação das Duas Bandeiras (EE 142) e nas regras de discernimento (EE 325-326; 331-334).

Também nas Constituições da Companhia de Jesus, onde Inácio trata do que ajuda a Companhia a progredir no Espírito, lemos no número 288:

“Todos se esforcem por ter a intenção reta, não somente quanto ao estado de vida, mas também quanto a todos os seus pormenores, pretendendo sempre puramente servir a divina Bondade, e agradar-lhe por causa de si mesma, e por causa do amor e benefícios singulares com que nos preveniu, (…) e sejam exortados a procurar em todas as coisas a Deus Nosso Senhor, arrancando de si, quanto possível, o amor de todas as criaturas para o pôr no Criador delas, amando-O em todas, e amando a todas Nele, conforme a sua santíssima e divina Vontade. A intenção deve ser reta em tudo: nos estudos, no ensino e nos ministérios”.

Em muitas de suas cartas, Inácio também insiste nesta importância da reta intenção:

“Quanto à intenção, queria que todos a tivessem muito reta, buscando a glória de Deus na sua alma e corpo e em todas as operações, e buscando muito ajudar às almas, alguns com um meio, outros com outro, outros ajudando a outros que o façam, mirando sempre o bem mais universal que o particular”[6].

“Todos mantenham reta a sua intenção, de modo que de tal modo busquem não os seus próprios interesses, mas os de Jesus Cristo, e se esforcem por fazer grandes propósitos e cobrar iguais desejos de serem verdadeiros e fiéis servos de Deus, e dar boa conta de si em tudo o que lhes será encarregado, com verdadeira abnegação de sua própria vontade e juízo…”[7].

A importância da pureza de intenção está pois naquilo que ela quer indicar: a referência primordial por Deus. Por meio dela, o homem reafirma que todas as suas ações, intenções e operações querem ter a Deus por seu único fim[8]. Deus jamais pode ser um meio na nossa vida! É a pureza de intenção que faz com que a pessoa de fé reconheça que a sua vocação vem sempre de um Outro, a quem deverá sempre ordenar toda a sua vida.

Peçamos essa graça da intenção reta que coloca o fim como norma para eleger para todo o povo brasileiro. Que sejam vencidas as barreiras do ódio, da busca do poder e das ameaças à democracia e que o Amor aos mais pobres seja o que nos mova sempre!

Pe. Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquiador no departamento de Teologia da FAJE

22/10/2026

 

[1] Cf. Alfredo SAMPAIO COSTA, “Intención”, em: GEI, Diccionario de Espiritualidad Ignaciana, Santander/Bilbao:  Mensajero/ Sal Terrae 2007, 1042-1046.

[2] Ramón ORLANDIS, De la elección y de la intención previa a ella. Manresa 11 (1935) 102-103.

[3] Cf. EE 1, 16, 157, 172, 179. Ver ainda os números 150, 153-155.

[4] José CALVERAS, Qué fruto se han de sacar de los Ejercicios de San Ignacio, Librería Religiosa, Barcelona 1951, 2ª. Ed., 108.

[5] Cf. J. CALVERAS, Buscar y hallar la voluntad divina por los tiempos de elección de los Ejercicios de San Ignacio, Manresa 15 (1943) 267.

[6] Carta de Inácio ao P. Urbano Fernandes. Roma, 1° de junho de 1551. Epp. 3, 503.

[7] Carta de Inácio ao P. Juan Pelletier. Roma, 13 de junho de 1551. Epp. 3, 542.

[8] Cf. Jesús LUZÁRRAGA, La pureza de intención desde la espiritualidad bíblica. Manresa 57 (1985) 35.

 

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