“Não fiquem olhando para o céu” (At 1,11): a missão da Igreja como presença de Cristo na história

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Márcia Eloi Rodrigues

A solenidade da Ascensão do Senhor, celebrada pela Igreja Católica no próximo domingo (17/05), muitas vezes compreendida como despedida, revela-se, à luz de Atos 1,1-11, como um momento decisivo de redefinição da presença de Cristo e da missão da Igreja. Longe de significar ausência, a Ascensão inaugura um novo modo de presença: Cristo, exaltado, continua sua obra na história por meio do Espírito e da comunidade dos discípulo e das discípulas.

Lucas abre o livro dos Atos dos Apóstolos com uma afirmação teologicamente densa: seu primeiro escrito tratava de “todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar” (At 1,1). O verbo “começar” é decisivo para compreender a narrativa lucana sobre a missão de Jesus e, consequentemente, a missão da Igreja. Ela nasce, portanto, não como uma instituição que substitui Jesus, mas como o lugar concreto onde sua ação continua. A missão da Igreja é, em essência, a continuidade da missão do próprio Cristo. Essa perspectiva questiona profundamente a forma como muitos vivem a fé cristã na atualidade. Para quem tende a privatizar a religião ou reduzi-la a experiência individual, Atos recorda que a fé tem uma dimensão histórica e comunitária: ela se encarna em práticas, relações e compromissos com as realidades que tocam a vida cotidiana. A Igreja não existe para si mesma; ela existe para tornar visível, na história, a presença viva de Cristo.

A Ascensão, celebrada na liturgia dominical, marca a passagem da presença física de Cristo à presença no Espírito. O Cristo ressuscitado não está mais limitado a um espaço geográfico, mas acompanha sua Igreja em todos os lugares. Essa realidade é decisiva para compreender a missão: a Igreja não anuncia uma memória do passado, mas testemunha a presença atual de Cristo que continua a caminhar com a humanidade. No contexto contemporâneo, marcado por solidão existencial, virtualização das relações e sensação de vazio, essa verdade ganha especial relevância. A missão da Igreja consiste em testemunhar que Deus não está distante nem indiferente, mas profundamente presente na história humana. Essa presença não aparece em coisas grandiosas ou espetaculares, mas se manifesta no testemunho simples das pessoas, na vida em comunidade e nos gestos concretos de amor e solidariedade.

Por isso mesmo, o texto de Atos insiste que tudo acontece pela ação do Espírito Santo (At 1,2), indicando que a missão não nasce da capacidade ou da organização dos discípulos, mas da ação de Deus. A promessa do Espírito (At 1,5.8) não é algo secundário, mas é o que sustenta e dá sentido à missão da Igreja, que só pode testemunhar Jesus Cristo porque é conduzida pelo próprio Deus. Essa palavra também nos alerta para um dos riscos mais evidentes da Igreja na atualidade: fazer muitas coisas e esquecer o essencial. Inserida em uma cultura orientada por resultados, eficiência e produtividade, a comunidade cristã pode ser tentada a medir sua missão pelo que aparece ou pelos resultados que consegue alcançar. No entanto, Atos recorda que a fecundidade da missão não vem do esforço humano, mas nasce da docilidade ao Espírito Santo. Por isso, a Igreja é chamada a ser um lugar onde se aprende a escutar a Deus, acolher sua vontade e responder com fidelidade à sua ação na vida e na história.

Ao mesmo tempo, o texto bíblico nos alerta para outro risco: o de poder. Em At 1,6, a pergunta dos discípulos sobre a restauração do reino de Israel revela a persistência de uma mentalidade marcada pelo desejo de poder político e domínio histórico. Mas Jesus muda completamente essa visão. Ele não fala de poder, mas de testemunho (At 1,8). A missão da Igreja não consiste em dominar nem impor, mas viver e anunciar o Reino com a própria vida. Essa distinção é crucial em um contexto marcado por polarizações ideológicas e instrumentalizações da religião. Ainda hoje, a fé cristã corre o risco de ser reduzida a projeto cultural ou ferramenta de influência social. No entanto, o Reino de Deus não se realiza pela imposição, mas pela força silenciosa do testemunho: vidas transformadas, relações reconciliadas, comunidades que vivem a lógica do Evangelho.

Jesus também amplia o horizonte da missão (At 1,8). Ele envia os discípulos e discípulas a todos os lugares, mostrando que o Evangelho é para todos e todas. A Igreja primitiva teve de aprender a acolher aqueles que antes eram excluídos: samaritanos, gentios, pobres. Esse processo continua sendo um dos maiores desafios da missão hoje. Em uma sociedade marcada por desigualdades, preconceitos e fragmentações, a Igreja é chamada a ser espaço de encontro e comunhão. O texto inspira uma crítica atual: é mais fácil proclamar universalidade do que vivê-la. A missão cristã exige não apenas discurso inclusivo, mas práticas concretas de acolhida, escuta e partilha, especialmente junto aos mais vulneráveis.

Um momento muito significativo do texto de Atos é quando os discípulos ficam olhando para o céu enquanto Jesus sobe. A exortação dos anjos: “por que ficais parados olhando para o céu?” (At 1,11), denuncia a tentação de uma fé alienada, de uma religiosidade que se refugia no espiritualismo desligado da realidade. A esperança cristã não legitima a fuga do mundo, mas fundamenta o compromisso com ele. A palavra propõe um caminho diferente: viver com os olhos voltados para o céu e os pés firmes na terra. A missão da Igreja consiste, portanto, em testemunhar, no presente, a soberania de Deus por meio da justiça, da reconciliação e da esperança. Isso implica engajamento nas realidades concretas: defesa da dignidade humana, promoção da paz, cuidado com os mais frágeis.

Por fim, o relato da Ascensão do Senhor também aponta para o futuro: “esse Jesus voltará” (At 1,11). A Igreja vive entre a Ascensão e a promessa da vinda final de Cristo. Essa tensão escatológica não deve gerar ansiedade ou medo do futuro, mas esperança. Mesmo em um mundo marcado por guerras, polarizações, crises sociais e perda de sentido, a esperança cristã torna-se um testemunho profundamente necessário. Não se trata de otimismo ingênuo, mas da convicção de que a história está nas mãos de Deus. A missão da Igreja, portanto, não é anunciar catástrofes nem calcular o fim dos tempos, mas testemunhar esperança, mostrando, com gestos concretos, que o Reino de Deus já está presente em nós.

A Ascensão, em suma, não encerra a história de Jesus; ela a amplia. Cristo sobe ao céu, mas sua presença se difunde na história por meio daqueles e daquelas que acolhem sua Palavra e se deixam conduzir pelo Espírito. Diante de uma sociedade fragmentada, inquieta e sedenta de sentido, a Igreja é chamada a assumir com coragem sua missão: ser presença de Cristo onde Ele parece ausente, ser voz de esperança onde predomina o silêncio, e ser sinal de reconciliação em um mundo ferido. Assim, a pergunta dos anjos continua ressoando hoje: por que ficar olhando para o céu, quando a missão nos espera na terra?

Márcia Eloi Rodrigues é professora e pesquisadora no departamento de Teologia da FAJE

14/05/2026

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