Geraldo Luiz De Mori, SJ
“Maria Madalena e a outra Maria estavam ali sentadas, em frente ao sepulcro” (Mt 27,61)
Um detalhe, que pode passar despercebido no evangelho do Domingo de Ramos e no evangelho da Sexta-Feira da Paixão, que faz a transição para os relatos da ressurreição, é a presença de mulheres: Mateus e Marcos dizem que Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde tinham sepultado o corpo morto de Jesus (Mt 27,61; Mc 15,47). Lucas diz que “as mulheres, que tinham vindo da Galileia com Jesus, acompanharam José e observaram o túmulo e o modo como seu corpo ali era colocado. Depois voltaram para casa e prepararam perfumes e bálsamos. E no sábado, repousaram, segundo o preceito” (Lc 23,55-56). João não dá esse detalhe, mas, como os três sinópticos, introduz a cena do primeiro dia da semana com a presença de uma mulher, Maria Madalena (Jo 20, 1). Com efeito, com algumas diferenças, os sinópticos atestam essa presença feminina no Primeiro dia da semana, junto ao sepulcro: segundo Mateus, Maria Madalena e a outra Maria foram ao sepulcro (Mt 28,1); Marcos diz que Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago, e Salomé, “compraram aromas para embalsamar Jesus, e foram bem cedo ao túmulo, antes do raiar do sol” (Mc 16,1-2); Lucas, por sua vez, coloca as mesmas mulheres que tinham acompanhado Jesus desde a Galileia. Segundo ele, de madrugada elas foram ao túmulo levando aromas (Lc 24,1). O que essa presença feminina dá a pensar à fé na ressurreição do Nazareno crucificado?
O fim da vida de Jesus, como narram os quatro evangelhos, é dramático: ele foi traído por um dos Doze e renegado pelo discípulo que parecia ter a maior liderança entre os membros do grupo que ele havia formado. Além do mais, sentiu pavor diante da iminência daquilo que poderia lhe acontecer, como é narrado no episódio do horto das oliveiras, em que, segundo Lucas, chegou a suar sangue (Lc 22,44), situação evocada pela carta aos hebreus (Hb 5,7). Na cruz, ele fez a experiência do supremo abandono, como é atestado por Mateus (Mt 27,46), e igualmente por Marcos (Mc 15,34). Frente aos horrores da traição, do abandono, do julgamento injusto, das torturas dos soldados, de um caminho de cruz feito das atrocidades próprias da prática romana da crucifixão, os textos evangélicos introduzem o detalhe da presença dessas mulheres destemidas, como Maria Madalena, a outra Maria, ou simplesmente, das mulheres que o seguiam desde a Galileia. Diferente dos que ele havia escolhido como apóstolos, elas não temeram possíveis retaliações e muito menos a perda da própria vida, mas permaneceram com ele, mostrando uma capacidade impressionante de solidariedade com seu Mestre.
E como se não bastasse, elas não só atravessaram com ele “o vale tenebroso da morte” (Sl 23,4), mas acompanharam de longe os rituais fúnebres que rapidamente foram feitos para assegurar que seu corpo não ficasse na cruz no sábado e prepararam aromas para embalsamar seu corpo, gesto ritual de cuidado com o corpo dos mortos, que, sob muitos pontos de vista, faz parte dos processos próprios ao luto. É interessante notar que graças a essa resiliência e aos cuidados próprios para com os corpos mortos, é que elas serão as primeiras a fazerem o encontro com o Ressuscitado. A diferença da experiência é reveladora. Segundo Mateus, elas são as primeiras a receberem, de um anjo vindo do céu, o anúncio de que o Crucificado tinha ressuscitado. O mesmo anjo as reenvia aos discípulos, para dizer-lhes que eles o encontrariam na Galileia (Mt 28,2-8). Em seguida, o Ressuscitado vem ao seu encontro e as convida à alegria, a não terem medo e a anunciarem aos irmãos que eles o encontrariam na Galileia (Mt 28,9-10). Marcos, não é um anjo, mas um jovem que lhes anuncia que o Nazereno ressuscitou, enviando-as aos discípulos e a Pedro para dizer-lhes que ele os precedia na Galileia. Elas, porém, “trêmulas e fora de si, fugiram do túmulo e não disseram nada a ninguém” (Mc 16,6-8). No relato de Lucas, são dois homens com vestes resplandecentes que lhes perguntam “por que buscar entre os mortos o vivente?”. Ele lhes recorda ainda o que ele havia dito sobre sua morte e ressurreição, e elas vão anunciar aos apóstolos que ele estava vivo (Lc 24,4-10), mas eles não acreditaram nelas. Em João, após encontrar o túmulo vazio e ir contar a Pedro e ao discípulo amado, Maria Madalena fica nos arredores do túmulo chorando. Encontra-se em seguida com dois anjos que lhe perguntam por que ela chorava, e, após responder-lhes, ela vê o próprio Jesus, que a interroga por que ela chorava, e após ele dizer seu nome ela o reconhece (Jo 20,11-16).
O túmulo, nas cenas do sepultamento, recorda o fim de tudo, não só da vida de Jesus, mas também de toda a esperança que ela havia suscitado em seus seguidores e na multidão. Recorda ainda a finitude da vida humana que, como o próprio Deus sentencia após interrogar Adão no Jardim do Éden, é “pó e voltará a ser pó” (Gn 3,19). A realidade da morte, que não poupa ninguém, desperta, desde as origens da história humana, o fatalismo, pois lembra que todo ser que vive um dia morre, mas também pode suscitar a esperança, como no mundo judaico, ao redor da ressurreição. A presença das mulheres na morte e na sepultura de Jesus é como que a assinatura de uma presença solidária com aquela realidade da qual ninguém escapa, e, no caso dele, provocada por um julgamento iníquo, que redobra a pergunta feita por todo ser humano: por que a sorte do justo tem que passar por tamanha crueldade e maldade? No fundo desta solidariedade encontra-se, escondida, a tênue esperança de que Deus pode ressuscitar seu justo, que sua morte não é a última palavra divina, que Deus é mais.
O túmulo, nas cenas das aparições, recorda não só a vitória da vida sobre a morte e o mais de Deus frente à morte de seu justo, mas também o poder que brota do que aparentemente é nada, ou, como proclama Paulo, na carta aos Coríntios, “óh morte, onde está tua vitória? Óh morte, onde está teu aguilhão?” (1 Cor 15,55). Da mesma forma que a fé de Abraão é vista já na bíblia hebraica como um “esperar contra toda esperança” (Rm 4,18), quem melhor atesta essa fé a toda prova no albor da nova criação são as mulheres. Elas experimentam a vida nova que brotou de uma vida fiel a Deus, que não reteve nada de si, mas entregou-se totalmente, fazendo-se não só semelhante aos humanos, mas tomando a condição do escravo, ou seja, a do ser humano em sua maior humilhação, como afirma o mesmo Apóstolo na carta aos filipenses (Fl 2,6-11).
Celebrar a ressurreição de Jesus é, certamente, deixar-se surpreender pela intervenção de Deus diante do impossível. É também converter-se diante Daquele que ele coloca como o amém dele para toda a humanidade e o amém da humanidade para ele (2Cor 1,20). Mas a conversão supõe a capacidade que tiveram essas mulheres que acompanharam Jesus até o momento final, o que as habilitou para que o testemunhassem vivo no mundo novo que iniciou com sua vitória sobre a morte. É da fé dessas mulheres que depende grande parte do anúncio que deu origem à fé cristã. Até que ponto somos capazes de acolher e percorrer o mesmo caminho que elas, tornando-nos solidários com sua morte, e habilitados a testemunhar sua vitória da morte?
Geraldo Luiz De Mori, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE
09/04/26
