Marília Murta de Almeida
Sempre que me ocorre a palavra graça, penso em garça e me lembro dos versos de Pedro Casaldáliga em seu poema Testamento:
Enterrem-me no rio,
Perto de uma garça branca.
O resto já será meu.
E aquela correnteza franca
Que eu, passando, pedia,
Será pátria recuperada.
O êxito do fracasso.
A graça da chegada.
São evocações imagéticas que me põem a pensar. A imagem da garça branca na beira do rio possui aquela beleza múltipla que alegra olhos e alma. Estar enterrado ao lado da garça ecoa no poeta a graça da chegada a nosso porto definitivo. A expressão do seu último desejo presenteia o leitor com a beleza dessa imagem. O encontro definitivo da pátria recuperada é, para quem crê no Deus do Amor, o sossego do descanso.
A voz do poema deseja esse encontro e isso parece, à primeira vista, dialogar bem com a ideia tão presente entre nós de que o desejo nasce da falta. O desejo pela correnteza franca expressa a falta da pátria a se recuperar. Entretanto, por nunca ter conseguido me convencer dessa ideia, vivo buscando pensar de outro modo o desejo.
O teólogo bíblico Paul Beauchamp diz que nós, humanos, temos um desafio a mais em relação aos outros seres vivos: não nos basta lutar para sobreviver, precisamos desejar viver. Isso aponta para o fato de que podemos não desejar. E, obviamente, não se trata de uma escolha a ser feita no uso da liberdade. Há ou não há em nós o desejo. E há os que chegam a adoecer por falta de desejo.
Muitas lutas são travadas à procura do desejo, às vezes travestido de força de vontade, capacidade de superação, resiliência, perseverança, entre tantas outras palavras presentes no discurso contemporâneo. Algumas vezes a luta tem sucesso, como quem encontra o lugar certo para cavar o poço artesiano. Procurar pelo desejo é como procurar pela água viva. Quando é encontrada percebemos que ela já estava lá. Gratuita.
O desejo é graça. É pela ação da graça que desejamos. A falta não gera o desejo. A falta, ao contrário, faz gritar a ausência do desejo quando ele não está lá, ou a sua presença quando ele nos põe em movimento. Sim, nos movimentamos para preencher as mais diversas faltas concretas ou a falta simbólica que nos guia, mas sem o desejo esse movimento não se dá.
O desejo é nossa parecença com Deus. Se é Ele a fonte da graça, é Ele também o portador do Desejo que gera o desejo em nós. Aceitamos bem a ideia de que Deus cria na liberdade, ou seja, não é movido por nenhuma necessidade, cria porque assim deseja. Mas não é tão óbvia a consequência disso em relação à compreensão do que é o desejo. Se Deus deseja criar e se o desejo em nós de algum modo se assemelha ao desejo de Deus, o desejo não é fruto da falta. O desejo é dom de Deus em nós. É fruto do excesso de amor e se manifesta em nós como excesso vital, fonte do movimento que nos faz querer viver e querer ser mais do que somos agora. Não porque nos falta algo, ainda que algo nos falte sempre, mas porque portamos em nós gratuitamente esse impulso.
O cardeal e também poeta José Tolentino, ao analisar o encontro de Jesus com a samaritana à beira do poço, quando ele supreendentemente pede a ela que lhe dê de beber, explicitando sua sede, sugere que sua sede é a sede do nosso desejo. Ao olhar de perto para a expressão de Jesus “Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz ‘dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias, e ele havia de dar-te água viva” (Jo 4,10), Tolentino nos faz ver o movimento da ação de Jesus que passa da expressão da própria sede ao apontamento do que seria nossa sede mais intrínseca se soubéssemos quem ele é e o que nos oferece. Jesus deseja que o desejemos; e o que ele tem a nos oferecer é a água viva, aquela que, encontrada, sacia nossas sedes e se torna fonte perene.
A falta de sede gerada pelo encontro da água viva não seria o fim do desejo, seria a fonte constante do movimento em meio à graça. E o encontro dessa fonte só se faz se nosso desejo se voltar para ela. Jesus quer ver essa sede em nós. Deus deseja nosso desejo. E quando conseguimos responder a esse chamado, não há mais o risco de perdermos o desejo. O amor em nós é como um lago que se nutre de um manancial infinito, como diz poeticamente o filósofo Kierkegaard, e isso quer dizer que o Desejo de Deus gera em nós o desejo.
Se nossa capacidade de encontrar a fonte da água viva se deve ao acaso das possibilidades psíquicas, ao acaso da genética, aos acasos da história vivida, a nosso esforço intencional, ou a algum outro fator que não consigo ver, não sei, e isso me causa perplexidade.
Nos cabe pedir, como Pedro Casaldáliga em seu Testamento.
Marília Murta de Almeida é professora no departamento de Filosofia da FAJE
18/06/2026

Foto: Alfred Leung / Unsplash