O meu encontro com Hume: Em continuidade ao texto de Luiz Sureki sobre os 250 anos da morte de Hume

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Bruno Pettersen

No último dia 25 de agosto, recordamos os 250 anos da morte de David Hume, e aqui no Palavra e Presença tivemos a bela publicação do professor Luiz Sureki, com o artigo “A coragem de pensar a experiência: uma sóbria homenagem a David Hume (1711–1776)”, que retoma algumas das ideias fundamentais do pensamento de Hume. A partir do texto do Sureki, eu fiquei profundamente movido a escrever também sobre Hume, mas o farei sob outra perspectiva: a minha relação pessoal com Hume.

Deixe-me contar uma breve história dos meus primeiros dias da graduação em Filosofia. Entrei no curso de Filosofia com pouca ou quase nenhuma leitura de Filosofia. Ainda no primeiro período, tive uma disciplina chamada “Epistemologia e Filosofia da Ciência”, lecionada pelo professor Ricardo Fenati, que é um dos professores mais importantes da minha vida. Ele apresentou o debate filosófico a partir de vários filósofos clássicos, passando pelo Teeteto, pelo Discurso do Método e, especialmente, pela Investigação acerca do Entendimento Humano, de David Hume. A minha vida pode ser medida por antes e depois dessas aulas.

Eu cheguei à faculdade sendo um apaixonado por física e matemática. Para mim, tudo teria uma resposta no interior dessas disciplinas. As respostas da Filosofia poderiam nos ajudar a fundamentar essas respostas, mas seria a física a disciplina a contar sobre o mundo, não a Filosofia. O professor Fenati apresentou a famosa Seção IV da Investigação, “Dúvidas céticas sobre as operações do entendimento”. Foi uma aula impressionante. O ponto dessa seção é discutir como chegamos ao conhecimento de questões de fato e, especialmente, o papel da relação de causa e efeito nesse conhecimento. Hume sustenta que nosso conhecimento das relações causais não é obtido por raciocínio a priori, mas pela experiência. Isso quer dizer que mesmo uma teoria tão poderosa quanto a newtoniana não fornece uma demonstração racional necessária de que a natureza tenha de funcionar exatamente daquele modo. Quando o professor Fenati nos apresentou isso, lembro-me perfeitamente da minha indignação. Fiquei furioso com aquele argumento. Ao final da aula, fui questionar o professor sobre como o argumento de Hume era ingênuo. Lembro-me claramente de que Fenati me disse apenas: leia o texto de Hume, entenda o texto e depois me diga o que você acha.

Fui à biblioteca e peguei o livro de Hume. Chegando em casa, abri o livro e comecei a ler a Seção IV. Não entendi nada. Li uma segunda e uma terceira vez. Na quarta vez, eu já estava admirando a beleza da escrita de Hume, algo que nunca mais deixei de ver. Pouquíssimos filósofos escrevem tão bem quanto Hume, com um texto que é sério, irônico, aguçado, melancólico e profundamente questionador. Depois de ter lido a Seção IV, eu nunca mais parei de ler Hume. Ele é ainda o filósofo mais importante da minha vida. Sem sombra de dúvidas.

Mas o que tinha de especial realmente nessa seção? O argumento de Hume é muito interessante. Deixe-me recompô-lo aqui. Segundo Hume, nossos raciocínios sobre questões de fato que ultrapassam aquilo que percebemos imediatamente estão fundamentados na relação de causa e efeito. Eu sei, por exemplo, que a água alivia a sede não porque consiga descobrir a priori, apenas examinando a água, que ela produzirá esse efeito, mas porque a experiência me ensinou a associar repetidamente esses acontecimentos. Hume utiliza exemplos semelhantes, como o do pão que nos alimenta: nada nas qualidades imediatamente percebidas do pão permite demonstrar, apenas pela razão, que ele terá propriedades nutritivas.

Inclusive, se nunca tivéssemos experimentado determinado fenômeno, saberíamos descobrir apenas pelo raciocínio qual efeito seria produzido? Para Hume, não. A experiência nos mostra que certos acontecimentos aparecem regularmente associados, mas não percebemos nos próprios objetos uma conexão necessária que obrigue a causa a produzir aquele efeito. É justamente esse problema que Hume desenvolve mais detidamente na Seção VII, quando afirma que, ao observarmos uma ocorrência causal isolada, vemos apenas um acontecimento suceder a outro, não uma força ou conexão necessária ligando os dois.

O que acontece conosco é que, diante da repetição constante desses eventos, criamos o hábito de passar mentalmente de um ao outro. A ideia de conexão necessária surge, então, dessa transição habitual da mente, produzida pela conjunção constante de acontecimentos semelhantes. Se a natureza não nos ensinasse por meio dessa repetição e desse hábito, não seríamos capazes de orientar nossa vida cotidiana.

Além disso, não há uma demonstração racional de que aquilo que se repetiu no passado continuará necessariamente a se repetir no futuro. Hume oferece aqui seu célebre exemplo do Sol: a proposição de que “o Sol não nascerá amanhã” não contém, para ele, qualquer contradição lógica. O fato de o Sol ter nascido todos os dias até agora não constitui uma demonstração de que continuará a nascer. Da mesma forma, não podemos demonstrar, sem pressupor aquilo que está em questão, que o curso da natureza continuará no futuro exatamente como ocorreu no passado.

O argumento de Hume da Seção IV é tão impactante que me lembro de ficar completamente obcecado com ele. Percebi o quão frágil é o nosso conhecimento e que, embora as ciências sejam extraordinariamente capazes de descrever, prever e explicar os processos do mundo, não somos capazes de demonstrar racionalmente que as regularidades observadas na natureza tenham de continuar necessariamente do mesmo modo. Hume não está dizendo que a física não funciona ou que suas explicações não possuem fundamento empírico. O ponto é outro: a passagem daquilo que observamos repetidamente para aquilo que esperamos que aconteça no futuro não pode ser demonstrada pela razão sem circularidade.

Assim, podemos saber, no interior da física newtoniana, que a força resultante sobre um corpo de massa constante é expressa pela relação , e essa formulação permite explicar e prever uma enorme quantidade de fenômenos. O problema humeano aparece quando perguntamos por que estamos racionalmente autorizados a supor que as regularidades observadas até aqui continuarão necessariamente a valer nos casos futuros. É justamente esse salto entre experiência passada e expectativa futura que Hume coloca sob investigação.

Depois de ter lido, voltei à aula. O professor Fenati continuava a apresentar de forma impecável a filosofia de Hume, mas eu não era a mesma pessoa. A partir desse dia, minha forma de ver a racionalidade nunca foi a mesma. Passei a tentar compreender quais são os limites da razão. Nessa minha busca, que se mantém até o presente, conheci várias filosofias, acabei conhecendo a minha esposa, Anice, que também estudou Hume, até muito mais do que eu, e a minha orientadora, uma superespecialista em Hume, a professora Lívia Guimarães. Hume, para mim, não é apenas um filósofo: ele é parte essencial da minha vida acadêmica e pessoal. Uma das minhas grandes falhas pessoais é que eu nunca me dediquei a estudá-lo de modo sistemático, mas não há qualquer dúvida de que ele é o maior filósofo da minha vida e sem dúvidas um dos filósofos obrigatórios.

Bruno Pettersen é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE

17/09/2026


Imagem: Wikipédia

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