Os traços característicos da inacianidade — Segunda parte

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Alfredo Sampaio Costa SJ

3 – Pessoa da maior glória de Deus

Outro traço da pessoa inaciana, que emana do anterior é o da maior glória de Deus, entendendo-se a glória a Deus ao modo de Irineu: Gloria Dei vivens Homo – que a pessoa tenha vida! -. Quem tem esse carisma inaciano não busca o modo bom, mas o melhor, e o que mais toque, o que mais mude, o que faça com que todas as pessoas tenham vida, e vida abundante.

Para isso, quem vive a inacianidade é alguém “excelente” em algum campo. Não é que se queiram classificar as pessoas, porém deve haver uma excelência na pessoa – com o critério mais adequado para cada um. Nos ambientes da Companhia, e nos que a têm rodeado, deu-se sempre muita ênfase à excelência acadêmica e ao comportamento ético irrepreensível; excelência que não se mede nem segue parâmetros humanos, mas se adquire ao se sentir atraído por um Deus sempre maior – Deus sempre maior -. É o que se denominou “virtude e ciência”. Mas obviamente a excelência fundamental é o excedente de humanidade: o que supera a norma, o que vai mais além do lícito, o razoável… se revela através de uma atitude, para com os demais, que se aproxima da incondicionalidade na acolhida. Isto já percebia Inácio, mesmo para a indicação do Geral da Companhia, em que se dizia que, se faltassem outras qualidades humanas, não faltasse “muita bondade (…) e juízo reto com superior erudição” (Const. 735).

Quer dizer que os(as) leigos(as) inacianos(as), saídos da contemplação do Reino, manifestarão uma espiritualidade de tipo ético e não tanto cultual. Interessa-lhes encarregar-se “das coisas de Deus”, à maneira de Mt 25, no Juízo das Nações: as obras de justiça solidária são a avaliação fundamental da ação humana. Isto traz consigo a preocupação correlativa de que o nome de Deus seja reivindicado, fique bem inscrito na história, como tarefa que atrai e seduz primordialmente. Isto supõe a desmistificação das falsas imagens de Deus e a oferta vivencial – a todos e da melhor maneira – do Deus que Jesus nos revela. Isto volta a envolver as coisas do Reino, suas pessoas e a própria natureza. As coisas de Deus para o inaciano, inaciana, estão impregnadas pela Contemplação para Alcançar Amor, onde tudo fala desse Deus que se entrega em todas as coisas, e diante do qual não resta senão devolver tudo, comprometer-se por Ele, da mesma forma que faz “o amado com relação àquele que ama” (EE 231).

Por isto o leigo, a leiga inaciana, tem que estar – física e/ou moralmente, com algum vínculo orgânico – em uma obra “de ponta”, que de alguma maneira atue para fazer as coisas de outro modo, para servir melhor a mais pessoas, estruturalmente. A pessoa inaciana não pode ser do comum, embora esteja no comum, quer dizer, tem que se distinguir, porque realmente vive a busca da excelência, do magis, da maior glória de Deus, com tudo que isso implica de paradoxal.

 

4 – Uma espiritualidade de paradoxos

A pessoa inaciana tem que viver, desde o início, de paradoxos. Viver o paradoxo, que implica sempre o seguimento de Jesus (Deus – homem), porém aqui, tomado como carisma, como modo de ser habitual. Inácio convida a isto, a partir da contemplação da Encarnação onde, por um lado, nos faz ver “como as três pessoas divinas, olhavam toda a redondeza do mundo”; nos faz contemplar a “sua eternidade”, dessas três pessoas (EE 102), mas, num segundo momento, nos faz verificar “em particular, a casa e os aposentos de nossa Senhora, na cidade de Nazaré, da província da Galiléia” (EE 103). Este paradoxo sobressai, também, na insistência de Inácio de que Deus se comunica diretamente com quem faz os Exercícios (EE 15) e, no entanto, se pressupõe que deve recebê-los de outra pessoa, e confrontar com ela o que acontece em seu encontro com Deus1. Quer dizer que a pessoa inaciana tem que ser capaz de colocar-se, a partir de Deus, em toda a sua abertura infinita, e poder estar, ao mesmo tempo, diante de uma pessoa concreta com suas necessidades mais específicas e particulares.

Mas para isso se educa o inaciano, inaciana, quando aprende que, de sua parte, tem que fazer tudo para orar, sendo muito fiel às “adições”2 (EE 73), persuadindo-se depois, na prática, de que “somente Deus pode dar consolação à alma sem causa precedente. Porque é próprio do Criador entrar, sair, causar nela moções, levando-a toda ao amor de sua divina Majestade” (EE 330).

Quem vai viver a inacianidade vai aprender, na escola da oração, a frase que define o modo de Inácio de non coerceri maximo, contineri tamen a mínimo, divinum est3, que se pode traduzir por “não amedrontar-se diante do maior e, no entanto, se ajustar ao menor, isso soa a Deus”. Também ali aprenderá a “fazer todas as coisas como se dependessem de nós, sabendo que, em definitivo, dependem de Deus”. Dois movimentos paradoxais significativos! Um dispõe para a aparente contradição de não conhecer limites para enfrentar o maior e, no entanto, poder estar tranqüilamente ajustado no menor41. O outro, se refere a pôr toda a confiança no Senhor – a tal ponto que não haja o mais ínfimo temor ante o empreendimento de tarefa alguma – e simultaneamente encetar todos os meios humanos para sua consecução, consciente sempre da própria limitação pessoal4.

Esta espiritualidade de paradoxo se expressará em poder ser contemplativos na ação, em realizar as coisas espirituais, a partir da “passiva atividade”, nunca pedindo diretamente estar sob a bandeira de Jesus, mas suplicando “ser colocados” com o Filho. “E se sua divina Majestade for servido e me quiser escolher e receber” (EE 147). É viver a tarefa – em suma eficácia, mas sempre como um presente não merecido. É estar sozinha a criatura com seu Criador, mas em discernimento com as regras de sentir com a Igreja (EE 352ss), a sós, mas sempre acompanhado(a) por uma pessoa, testemunha da obra de Deus…

Mais uma vez a experiência de ser pecador(a) perdoado(a) dá um matiz específico a este traço: é a grande mola da contínua conversão. Captar isto é requisito para fazer os Exercícios e, portanto, para viver a inacianidade. É captar a própria essência do Evangelho, na qual, quem é mais amado(a) é o(a) pecador(a)… É o grande paradoxo de sentir-se até mesmo “lixo” e por vezes necessitado(a) para a missão, para a tarefa do Reino (Cfr. 1 Cor 1,25ss).

Este traço da espiritualidade favorecerá a que a pessoa inaciana realize tarefas de fronteira e de perigos extremos, abraçando, por exemplo, coisas que podem soar contraditórias em si mesmas: a inculturação em seu grau máximo, a partir da máxima fidelidade ao Evangelho – como escandalosamente atuaram os primeiros jesuítas missionários, na China, Japão e na Índia -; que possa ser revolucionário(a) e cristão(ã), que seja capaz de criticar a Igreja e, ao mesmo tempo, sentir-se seu filho(a) amante…

O paradoxo, para a pessoa inaciana leiga, pode ser experimentado, de maneira especial, em determinados âmbitos. Por exemplo, o do prestígio profissional e o melhoramento econômico inerente a este, a necessidade de assegurar-se um futuro econômico, a procura do Magis que convida a querer melhorar, a buscar pontos chaves de influência e, ao mesmo tempo, o fato de ir sempre “para baixo”, na direção das maiorias espoliadas, rumo ao encontro dos mais pobres. É ajudar o pobre a crer no pobre, o paradoxo social e político máximo.

Outro paradoxo, outra aparente contradição, é a da primazia do agir, da participação na vida social do mundo e, por vezes, a busca de espaços de silêncio, deserto e oração, e a opção pela austeridade no modo de vida, mas sem regatear a excelência dos meios. Outro grande paradoxo, que vêm enfrentando os leigos, reside na incompreensão afetiva de seu parceiro, quando apenas um deles iniciou e vive o itinerário da espiritualidade inaciana, sendo obrigado a vivê-lo, à maneira de Nicodemos, em uma espécie de vida oculta, com o consubstancial conflito interior que isto traz; ou a dificuldade para conciliar o tempo que exige a família com o tempo que exige – ou que se quer dar – ao trabalho apostólico.

Somente quem assumiu, como carisma, o paradoxo no qual implica o seguimento de Jesus, pode viver, em equilíbrio e suavidade – chave do Espírito de Deus em Inácio (EE 334, 3) -, a aparente contradição.

 

Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

 

1 CODINA, Victor. La paradoja Ignaciana. Em: Manresa, Vol.61, 1991. Pp. 277.

2 Recomendações que faz Inácio para que, quem está fazendo Exercícios, se disponha melhor para a experiência e colabore com a ação de Deus. Têm que ver com a preparação da oração e o ambiente físico e psicológico propício para ela.

3 Gaston Fessard, SJ, em “La Dialectique des Exercices Spirituales de Sainte Ignace de Loyola”, inseriu, no final do tomo I, um anexo com o “Elogio Sepulcral S. Ignatii” que contem a máxima citada. No mesmo volume estabelece que é atribuída por Hölderlin a um jesuíta anônimo, que compôs o dito Elogio Sepulcral de Santo Inácio, no ano de 1640. Pensou-se erradamente que era uma lápide tumular mas, na realidade, parece ser uma poesia latina, na qual aquele jesuíta quis caracterizar, com a memória de Inácio, a espiritualidade inaciana. Esta documentação sobre a origem da frase foi investigada e compilada por Javier Osuna, SJ. A ele agradecemos o enriquecimento deste texto.

4 Cfr. RAHNER; Hugo, SJ. Ignacio de Loyola y su histórica formación espiritual”, Sal Terrae, 1955, p. 14.

5 Cfr. WALSH, James. “Work as if Everything Depends on – Who?” The Way Supplement 70 (1991), pp. 125-136. Citado por TALBOT,John. “Como se tudo dependiera de… quien?” Noviciado Jesuíta, Puerto Rico. [s.p.i.]

 

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