Papa Leão XIV: Davi enfrenta Golias

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Pe. Jaldemir Vitório, SJ

As recentes declarações grosseiras do presidente dos Estados Unidos contra o Papa Leão XIV trouxeram-me à mente a cena bíblica do pequeno Davi enfrentando e vencendo o gigante Golias, narrada no capítulo 17 do Primeiro Livro de Samuel. Num momento em que israelitas e filisteus estavam em guerra, certo filisteu de nome Golias, um soldado gigantesco, como mais de 2,80m de altura (17,4), armado até os dentes (17,5-7), pôs-se a destratar e a humilhar as tropas israelitas, como se fossem um bando de “escravos do rei Saul”, desafiando-as a lhe apresentar alguém capaz de lutar com ele (17,8-10). O pavor se apoderou dos israelitas, que se puseram em fuga (17,11.24). A bravata do gigante durou quarenta dias (17,16). Eis que entra em cena o ousado pastorzinho Davi, que diz ao rei: “que ninguém perca a coragem por causa desse filisteu; teu servo irá combatê-lo” (17,32). Então, o rei tentou vestir Davi com a própria armadura que, de tão pesada, impedia-o de se locomover. Deixando tudo aquilo de lado, Davi pegou cinco pedrinhas de um riacho, colocou-as em seu bornal e, com um estilingue na mão, avançou contra o filisteu (17,38-40). Ao ser zombado pelo gigante, respondeu-lhe: “tu vens contra mim armado de espada, lança e dardo; eu, porém, venho a ti armado com o nome do Senhor do universo, o Deus das fileiras de Israel, que desafiaste. […] E todos aqui saberão que não é pela espada, nem pela lança que o Senhor concede a vitória” (17,45.47). Então, Davi tirou uma pedrinha de seu bornal e, com o estilingue, cravou-a na testa do Golias e o fez tombar por terra” (17,49). O narrador bíblico faz uma observação importante: “não havia espada nas mãos de Davi” (17,50).

Pois bem, o prepotente líder estadunidense publicou em suas redes sociais (12/04): “o Papa Leão é fraco em relação ao crime e péssimo em política externa”; que ele se preocupe “em ser um grande papa, e não um político”, pois “está prejudicando a Igreja Católica”. “Não quero um papa que ache estar bem o Irã ter arma nuclear. Não quero um papa que considere terrível que os Estados Unidos tenham atacado a Venezuela. E não quero um papa que critique o presidente dos Estados Unidos, quando estou fazendo exatamente aquilo para que fui eleito”. E, mais, “Leão devia se dar ao trabalho de ser um grande papa, usar o bom senso, deixar de agradar a esquerda radical e se concentrar em ser um grande papa, não um político”. Mais recentemente (05/05), voltou à carga: “acho que ele está colocando em perigo muitos católicos e muitas outras pessoas. Mas suponho que, se depender do papa, ele acha perfeitamente normal o Irã ter uma arma nuclear”. Se não bastasse, publicou uma imagem blasfema, feita por inteligência artificial, onde se apresenta vestido como se fosse Jesus Cristo no ato de curar um doente, num cenário com ilustrações do imaginário estadunidense e suas bandeiras, águias, Estátua da Liberdade, aviões de guerra.

Todo esse destempero verbal se deve à pregação de Leão XIV, desde o início de seu pontificado, centrada no tema evangélico da paz e da importância do diálogo, como caminho de solução dos grandes conflitos da humanidade. No Domingo de Ramos, o Papa referiu-se a Jesus de Nazaré, na condição de Príncipe da Paz, “um Deus que rejeita a guerra; que ninguém pode usar para justificar a guerra; que não escuta, mas rejeita a oração de quem faz a guerra, dizendo: ‘podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não as atendo. É que as vossas mãos estão cheias de sangue’ (Is 1, 15)”. E, também: “quem tem armas nas mãos, que as deponha! Quem tem o poder de desencadear guerras, que opte pela paz! Não uma paz conseguida com a força, mas com o diálogo! Não com a vontade de dominar o outro, mas de o encontrar!”. E lamentou que “estamos a habituar-nos à violência, resignamo-nos a ela e tornamo-nos indiferentes. Indiferentes à morte de milhares de pessoas. Indiferentes às repercussões de ódio e divisão que os conflitos semeiam”. Quando o megalomaníaco estadunidense declarou, falando do Irã, que “uma civilização inteira vai desaparecer” (07/04), Leão XIV, com firmeza rebateu-o, declarando ser “inaceitável”.

De sua parte, Leão XIV, como o pastorzinho de outrora, na conversa com os jornalistas que o acompanhavam no voo a caminho da Argélia (13/04), de maneira firme, aludiu ao tema. Não se considerou político, tampouco com intenção de bater boca com políticos. Simplesmente, se apresentou como mensageiro da paz, dirigindo-se, indistintamente, a todos os líderes mundiais, sem visar um de modo especial, com a intenção de promover a paz e a reconciliação, com o fim das guerras. Com todas as letras declarou, em inglês: “não tenho medo – I have no fear – nem da administração Trump, nem de proclamar em alta voz a mensagem do Evangelho – é nisso que eu acredito. Sou chamado a fazer o que a Igreja é chamada a fazer. Não somos políticos, não queremos fazer política externa como ele diz, com a mesma perspectiva que ele possa compreender, mas eu acredito na mensagem do Evangelho. ‘Bem-aventurados os promotores da paz’ é a mensagem que o mundo precisa ouvir hoje”.

O Papa Leão XIV se recusa a vestir as armaduras dos Golias de sempre e suas armas nucleares de destruição em massa, pois suas armaduras são outras, aquelas descritas em Ef 6,10-17, sugeridas para os discípulos do Reino: “revistam-se de toda a armadura de Deus, para estarem firmes contra as astutas ciladas do diabo. Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. Portanto, tomem toda a armadura de Deus, para que possam resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes. Estejam, pois, firmes, tendo cingidos os lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça; e calçados os pés na preparação do evangelho da paz; tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual poderão apagar todos os dardos inflamados do maligno. Tomem também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus”. São essas as armas que o permitirão vencer o perverso e arrogante Golias redivivo e outros tantos!

Pe. Jaldemir Vitório, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

Foto: Vatican News

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