Quem não quer sou eu

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Patrícia Carvalho Reis

Dias atrás, assisti ao filme brasileiro A melhor mãe do mundo (Dir: Anna Muylaerte, Brasil, 2025), no auditório da FAJE. Gostei de estar lá. Fiquei surpresa de muitos alunos e funcionários também estarem presentes. Os comentários de Karen Colares e Ana Paula Gonçalves Silva fecharam a noite com chave de ouro. A chuva estava  forte e alguns disseram que saíram de longe para comparecer ao local. A protagonista é a atriz Shirley Cruz – que atua muito bem – e o filme conta com a presença do cantor Seu Jorge. Algumas cenas me pareceram um pouco idealizadas, uma espécie de romantização da miséria, mas outras me fizeram pensar em algo que há tempos vem me inquietando: a violência contra a mulher.

Os atos de violência física não são explícitos no filme. Mas, logo no início, a protagonista – catadora de reciclagem e mãe de dois filhos – está numa delegacia com o olho roxo e afirma que foi violentada pelo seu companheiro, não pela primeira vez. Num outro momento, a câmera registra o revólver do marido (personagem interpretado por Seu Jorge) na sala de televisão, como se fosse um objeto qualquer, um abajur, ou um cinzeiro. Também aparece uma ocasião em que um suposto amigo dela tenta assediá-la. Os comentários de outra amiga também apresentam ideias machistas: “É assim mesmo, meu marido faz a mesma coisa…Temos que aguentar…”.

É consenso que a violência contra a mulher nos parece mais evidente hoje. Não saberia dizer, com certeza, as causas disso. Talvez pelo emprego do termo “feminicídio”, palavra que não existia antes. Talvez pelo fato de que isso passou a ser noticiado com mais frequência nos jornais e na imprensa. Talvez pelo próprio aumento da violência doméstica ou pelo fato de muitas mulheres não aceitarem mais ficar no lugar que ocupavam antes.

Também não podemos esquecer que há violências e violências contra a mulher. A violência física é mais fácil de se ver e o seu ato extremo é a morte da mulher, em razão, principalmente, de ela ser mulher. Isso ocorre, principalmente, em ambientes domésticos em decorrência de ciúmes, traição, alcoolismo, entre outros inúmeros motivos de discórdias entre os casais. Não questionamos que muitos desses motivos podem ter como causa atos das próprias mulheres. O que discordamos veementemente são os métodos utilizados pelos homens para lidar com essas desavenças. Lembramos, ainda, que nem sempre a violência física é a que mais faz alguém sofrer. A violência moral e psicológica, em diversos contextos, traz efeitos a longo prazo, chegando a mudar a personalidade das pessoas.

Não era tão nova quando percebi o machismo estrutural na nossa sociedade. Para ser mais precisa, já tinha feito graduação, estava no mestrado em filosofia. Foi quando meu orientador me sugeriu escrever um capítulo, na minha dissertação sobre Montesquieu, sobre as mulheres. Fiquei desconcertada com essa ideia, achei tão descabida, cheguei a balbuciar: “Para que falar disso? É assunto tão antigo… Acho que esse tema já está superado…”. Mal sabia eu que o machismo estava (ainda está?) introjetado em mim.

Lembro-me de que, quando procurava algum profissional ou orientador de trabalhos acadêmicos, procurava por professores, e não professoras. Achava que elas já tinham muitas atividades e, talvez, não seriam aptas a orientar tão bem quanto professores. Quando lia uma autora, julgava-a com mais censura do que quando lia um homem. Meses antes do meu casamento, ouvi amigas dizerem que não viam sentido em mudar os seus sobrenomes e inserir o dos maridos. Nunca tinha ouvido algo assim, por pouco não segui a tradição. Esses são pequenos exemplos que consigo lembrar com mais nitidez. Mas há outros…

Já no doutorado, estudei um autor do século XVIII, Condorcet, que, para a minha alegria, era feminista. Ele afirmava que defendia os direitos das mulheres, apesar de muitas delas acharem que ele não as protegia, tão diferente, na época, era o seu discurso. Alegava que um casamento sem amizade não se justifica; que as mulheres poderiam ocupar os mesmos cargos – referentes a atividades intelectuais – que os homens; que, de modo geral, é a educação que pode fazer com que os seres humanos se tornem aptos a assumir determinadas funções, e não o fato de ser homem ou mulher…

Em conversas com amigas, às vezes, surge o assunto de violências relacionadas com o machismo. Algumas trazem memórias mais diretas, mais marcantes. Outras sentiram o machismo de modo mais ameno. Algumas guardaram, por anos, algum trauma e, somente bem mais tarde, conseguiram verbalizar isso. De qualquer modo, acredito que todas as mulheres (independentemente da classe e da raça) já sentiram o machismo de um modo ou de outro, consciente ou não, delas próprias ou de terceiros… Mas a violência sofrida pela mulher dependente financeiramente do cônjuge é mais cruel, pois ela não consegue sair dessa relação. A das mulheres negras também, pois elas já sofrem outro tipo de violência, a do racismo.

Notícias recentes em jornais demonstram esse problema, como: “A cada seis horas uma mulher é assassinada no Brasil, vítima de violência de gênero”; “Brasil registra 227 estupros por dia”; “4 entre 10 mulheres afirmam não perceber agressões vividas como violência de gênero”; “Nos 10 meses de 2025, ocorreu 23% de alta de feminicídio em São Paulo, em comparação aos mesmos dez meses de 2024”; “Metade das mulheres no Brasil se sente desrespeitada”; “Mulheres exercem mais trabalhos domésticos do que homens”; “Mulheres têm menos chances de exercerem cargos de chefia”; “Mulheres recebem menos do que os homens”…

Alguns estudiosos afirmam que a violência de gênero pode ser evitada de dois modos: prevenção e punição. Pela prevenção, programas educativos sobre gênero e relacionamentos dentro de escolas podem ser criados. Pela punição, leis como a “Maria da Penha” podem ajudar a combater o machismo. De qualquer modo, o combate contra esse tipo de violência deve envolver diversas esferas. A Lei Mariana Ferrer, por exemplo, promulgada há quatro anos, visa proteger as vítimas de certos crimes contra a mulher, por parte das instituições, durante o processo judicial. No meu caso, por exemplo, deixei de ser machista lendo livros, convivendo com mulheres fantásticas no meu curso de filosofia e no meu círculo de amizades, estando em contato com homens mais feministas do que eu mesma… Mas conseguir olhar criticamente essa cultura machista na qual estamos imersos não foi fácil. Concordo com Tati Bernardi quando ela afirma que uma das coisas que pode nos salvar do meio precário em que nascemos é o livro. Precisamos saber mais para morrer menos. Não somente nós, mas todos, principalmente os homens.

Há pouco tempo, um ato inesperado me deixou alegre: um aluno fez o seguinte comentário quando leu a ementa do meu curso: “Professora, nas suas referências bibliográficas, não há mulheres”. Logo percebi isso e alterei a ementa. Já há um tempo que tomo esse cuidado, mas, por questões diversas e, também, por falta de atenção, tinha me esquecido de fazer isso. Como foi bom conhecer pensadoras como Hannah Arendt, Martha Nussbaum, Nancy Fraser, Cecília Meireles…

Fico pensando em outros países, em que o machismo e, como consequência, a violência contra a mulher são bem mais elevados…Logo me lembro do Irã, em que as mulheres não podem andar às ruas sem véu… Nos países em guerra, em que o estupro, desde que o mundo é mundo, passa a ser “normalizado”.

Lembrando-nos de Adélia Prado, podemos afirmar que esse assunto poderia ser “desdobrável” de muitas maneiras, mas, apenas para finalizar, acredito que o filme mencionado pode trazer uma boa reflexão sobre o tema da violência contra as mulheres. Espero que, como a protagonista, quando nos sentirmos ameaçadas nas nossas relações conjugais, ou mesmo quando não nos sentirmos mais felizes com nossos parceiros, possamos lembrar de Seu Jorge – o cantor. Mais especificamente, o refrão da sua música mais famosa.

Patrícia Carvalho Reis é professora e pesquisadora no departamento de Filosofia da FAJE

09/04/26

Foto: Divulgação

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