Relações familiares: entre o amor e o limite

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Luiz Sureki, SJ

Falar de relações familiares hoje é entrar em um terreno complexo. Muitos pais têm a sensação de que algo mudou profundamente ‒ e, de fato, mudou. As formas de educar, os ritmos de vida, as exigências do trabalho, a presença constante das tecnologias, tudo isso alterou o modo como pais e filhos convivem. Mas, no meio dessas mudanças, uma questão permanece essencial: quem educa?

Educar não é apenas transmitir conhecimentos, nem delegar tarefas. Educar é introduzir alguém no mundo ‒ ajudá-lo a reconhecer limites, a lidar com frustrações, a respeitar o outro, a assumir responsabilidades. E essa tarefa, por sua natureza, não pode ser terceirizada. A escola ensina, orienta, complementa. Mas não substitui os pais, a família. Quando os pais transferem para a escola aquilo que deveria começar em casa, cria-se um vazio. Professores são chamados a exercer funções que não lhes pertencem plenamente: estabelecer limites básicos, ensinar formas elementares de convivência, lidar com comportamentos que já deveriam ter sido trabalhados no ambiente familiar. O resultado é uma sobrecarga ‒ e, muitas vezes, um conflito.

Algo semelhante acontece dentro da própria casa. Em muitas famílias, a presença dos pais é reduzida, seja por exigências profissionais, seja por outros fatores. Outras pessoas passam a ocupar o espaço cotidiano ‒ cuidam da casa, acompanham as crianças, garantem a organização. Sua função é importante e digna, mas não é a de educar. Educar implica autoridade ‒ e autoridade não se delega facilmente. Não se trata de autoritarismo, nem de imposição violenta. Trata-se de algo mais profundo: a capacidade de orientar, de dizer “não” quando necessário, de sustentar decisões que nem sempre agradam, mas que ajudam a formar. E aqui surge uma dificuldade muito atual.

Muitos pais desejam ser próximos dos filhos, compreensivos, abertos ao diálogo ‒ o que é, em si, positivo. Mas, em alguns casos, essa proximidade se transforma em dificuldade de estabelecer limites. O medo de frustrar, de desagradar ou de perder o vínculo leva a uma atitude mais permissiva. Cede-se mais do que se deveria. Atende-se a desejos que ainda não foram amadurecidos. Confunde-se amor com concessão contínua. Mas o amor, para ser verdadeiro, precisa incluir o limite. Sem limites, a criança ou o adolescente não encontra referências claras para orientar suas escolhas. A liberdade, então, não se torna um espaço de crescimento, mas de dispersão. Faz-se o que se quer ‒ mas sem saber, de fato, o que se quer. E isso tem consequências.

Adolescentes que não aprenderam a lidar com frustrações tendem a reagir mal diante de qualquer contrariedade. Podem desenvolver uma relação utilitária com os pais, como se estes existissem apenas para prover, satisfazer, atender. A gratidão diminui, a exigência aumenta. Cria-se uma inversão sutil: quem deveria ser educado passa a ditar as regras. Não se trata de culpa, mas de um processo que precisa ser reconhecido. Educar exige presença, coerência e, sobretudo, responsabilidade. Não basta amar, é preciso saber como amar. E, muitas vezes, amar significa dizer “não”, sustentar um limite, suportar a insatisfação momentânea do filho ou da filha em vista de um bem maior.

Isso não significa retornar a modelos autoritários ou violentos, que marcaram outras épocas. A violência não educa; ela apenas reprime e, frequentemente, gera novas formas de desordem. O desafio atual é outro: educar com firmeza sem perder a humanidade, estabelecer limites sem romper o vínculo. Educar é um equilíbrio delicado entre proximidade e autoridade. Nem distância fria, nem permissividade total. Presença. A criança e o adolescente precisam perceber que há alguém que responde por eles, que orienta, que acompanha. Precisam também aprender, gradualmente, a responder por si mesmos. A responsabilidade não surge de um dia para o outro; ela se forma ao longo do tempo, em pequenas experiências, em limites claros, em escolhas acompanhadas.

Num mundo que valoriza tanto a liberdade, corre-se o risco de esquecer que a liberdade precisa ser educada. Sem isso, ela se torna apenas impulso. E o impulso, quando não encontra direção, pode se voltar contra aqueles que, no início, tudo ofereceram. O ponto mais importante a considerar é este: educar não é controlar a vida do outro, mas prepará-lo para viver a própria vida com responsabilidade. E isso exige tempo, paciência, presença e coragem. Coragem de não ceder sempre. Coragem de não buscar aprovação imediata. Coragem de assumir, como pai e mãe, o papel que cabe ao pai e à mãe.

Amar um filho não é apenas protegê-lo ou satisfazê-lo, mas prepará-lo para a realidade ‒ e isso só é possível quando o amor tem a coragem de estabelecer limites. Sem limites, não se forma liberdade, mas dependência; não se constrói maturidade, mas fragilidade. E, nesse caso, o que falta não é amor ‒ é a coragem de amar de verdade.

Luiz Sureki, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE

10/09/2026

Foto: Shutterstock

 

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