Tornar-se professor

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Sílvia Contaldo

Em 6 de maio de 1989, Paulo Freire (1921-1997) concedeu uma entrevista à revista italiana Terra Nuova, na qual declarou: “Ninguém começa a ser educador numa certa terça-feira às quatro horas da tarde. Ninguém nasce marcado para ser educador. A gente se faz educador, a gente se forma como educador, permanentemente, na prática e na reflexão sobre a prática.”

Frente aos resultados da Prova Nacional Docente (PND), aplicada pela primeira vez em 2025, talvez seja oportuno retomar essa reflexão de Paulo Freire. Mais do que lamentar resultados ou emitir juízos apressados sobre a qualidade dos cursos de Licenciatura, importa refletir sobre a complexa tarefa de formar professores. Setecentos e sessenta mil e cento e dezoito licenciados/licenciandos participaram do exame e nenhum deles nasceu pronto… Todos passaram boa parte de suas vidas nos bancos escolares, do ensino fundamental aos diversos graus da educação superior, assistindo aulas e convivendo com professores que, muitas vezes, também não encontraram condições adequadas para integrar teoria e prática em sua atividade docente. Muitas vezes, permaneceram ilhados e, uma vez – não-prontos – se veem diante de uma das atividades humanas que é, a um só tempo, fascinante e laboriosa.

Desse modo, iniciantes na profissão, numa sala de aula, frente aos jovens colados em seus celulares e interligados em tempo integral às redes sociais, toda a teoria se desfaz. O jovem professor ‒ que continua em processo de formação ‒ vê-se frequentemente diante de situações para as quais nenhuma teoria oferece respostas imediatas. A partir daí, sabemos as consequências. Decepção com a profissão, adoecimentos, danos psicológicos em razão das violências na escola, frustação pessoal e profissional. Por isso, sem prescindir da formação inicial, que obrigatoriamente deve ser ofertada pelos cursos de Licenciatura, a formação continuada, feita no universo escolar e coletivamente, deveria ser obrigatória.

Recentemente tivemos uma das experiências mais desastrosas, promovida pelos órgãos oficiais com o auxílio de coaches da educação. Um ‘aulão’ para os estudantes do ensino médio das escolas públicas, num estádio de futebol, sob a promessa de metodologias inovadoras e do uso intensivo de tecnologias digitais, sem que ficasse suficientemente claro quais aprendizagens efetivas se pretendia promover. Consequentemente, não houve aprendizagens, nem para os alunos, nem para os professores. Apenas a repetição irrefletida e rasa: “os professores têm dificuldades”, “os alunos não são mais os mesmos”, “os professores não querem nada”, “os alunos não têm educação”, “os professores não sabem se impor”. Um parêntese: não se trata de minimizar os graves problemas do cotidiano das escolas públicas, a precarização do trabalho docente e a falta de condições estruturais para que haja ensino e aprendizagem.

A intenção aqui é que não caiamos nas armadilhas dos resultados da PND sem trazer para o primeiro plano a complexidade da formação de professores que não se pode julgar apenas por resultados de um exame em nível nacional.

Esses resultados não nos acontentam. Apenas 492 mil participantes alcançaram o padrão proficiente. Sob o prisma da estatística poderíamos até nos alegrar. Viva! 65 por cento estão prontos para ser professores. Mas não basta, na profissão docente, a proficiência confirmada em um exame. A profissão docente é aprendizagem contínua com a presença, o apoio e a colaboração de outros professores, no universo escolar, tal como o educador português Antônio Sampaio da Nóvoa tem repetido à exaustão.

Há ainda uma outra questão que nos faz pensar. Quem são os professores formadores? Que lugar ocupam nos ambientes acadêmicos? Quem são os professores responsáveis pelas disciplinas que compõem a grade curricular? Por que razão criam-se distâncias artificiais entre a licenciatura e o bacharelado? Por que os licenciados são injustamente rotulados como não vocacionados à pesquisa acadêmica? E, ainda, há, de fato, na formação inicial, um propósito e um investimento pedagógicos-institucionais para que o licenciando se forme também no espaço escolar?

Infelizmente, muitos jovens professores, recém-formados, escutam de colegas veteranos: “esquece tudo que você aprendeu”, “na prática a teoria é outra”, “desista enquanto é tempo”, “coitado, você não viu nada”. Essas e outras são falas recorrentes de professores há muito desiludidos com sua própria profissão e que, infelizmente, esperam, em seu inacabamento, pela aposentaria. Triste sina, triste país que desvaloriza professores e os desqualifica, inclusive pelo piso salarial de sua profissão. O caso é que nenhuma profissão se fortalece quando seus próprios membros desacreditam publicamente o conhecimento que a sustenta.

A docência é uma das poucas profissões em que o iniciante costuma assumir, desde o primeiro dia, responsabilidades semelhantes às de um profissional experiente. Um médico residente, um advogado recém-formado ou um engenheiro em início de carreira contam, em geral, com acompanhamento sistemático. Na educação, porém, frequentemente se entrega ao jovem professor uma turma inteira e espera-se que esteja pronto. E aí está uma das maiores contradições de nossos sistemas educacionais.

Se a PND revelou fragilidades, revelou também a urgência de repensarmos a formação docente em todas as suas etapas. Por isso, não devemos esquecer a lição freireana (2001, p. 203) da Pedagogia dos sonhos possíveis: “a força da educação está na sua fraqueza; não podendo tudo, pode alguma coisa. Alguma coisa historicamente possível agora ou possível amanhã”.

Seja agora, seja amanhã, convém recordar a lição de Jankélévitch em seu Tratado das Virtudes: “não perder a coragem dos começos”.

Silvia Contaldo é professora no Departamento de Filosofia da FAJE

03/06/2026

Foto: Shutterstock

 

 

 

 

 

 

 

 

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