Um pequeno escândalo da vida: as baratas!

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Luiz Sureki, SJ

Das muitas e variadas criaturas que se movem pelas frestas do mundo ao nosso redor, poucas suscitam tanta repulsa quanto as baratas. Aparecem de súbito, rápidas, furtivas, com suas antenas inquietas e o brilho escuro do corpo achatado. São, para muitos, o próprio símbolo do asco: associadas à sujeira, à contaminação, à desordem. Uma reação quase visceral nos atravessa ao vê-las surgir na cozinha ou no banheiro ‒ como se algo profundamente inadequado tivesse invadido nosso território. Mas o que significa esse nojo instintivo? E o que dizer de um ser vivo que, apesar da repugnância, cumpre uma função discreta e importante no equilíbrio natural?

Biologicamente, as baratas pertencem à ordem Blattodea, a mesma dos cupins, seus parentes evolutivos mais próximos. Seus ancestrais mais remotos – blatodeanos primitivos – surgiram há mais de 300 milhões de anos, no Período Carbonífero, muito antes dos primeiros dinossauros. Embora as linhagens de baratas que conhecemos hoje tenham se diversificado mais tardiamente (há cerca de 140 milhões de anos), esse extenso histórico evolutivo ajudou a consolidar um plano corporal de sucesso: corpo achatado e resistente, hábito noturno, antenas extremamente sensíveis e metabolismo eficiente, capaz de sobreviver longos períodos em jejum. Poucos seres atravessaram tantas extinções em massa com tão poucas alterações morfológicas. Ela não evoluiu para ser bonita; evoluiu para persistir.

No entanto, a maioria das espécies de baratas vive longe das cidades e dos humanos. Das cerca de quatro mil espécies conhecidas, apenas uma pequena fração convive conosco e desperta o nosso nojo cotidiano. Por ironia, são justamente essas que melhor aproveitaram os nichos criados pelo modo de vida humano: ambientes úmidos, quentes, com acesso a restos orgânicos. A repulsa, então, não nasce do simples fato de serem baratas, mas do tipo de relação que estabelecemos com elas. Onde percebemos “sujeira”, elas veem apenas alimento; onde vemos uma intrusa, a biologia vê apenas uma espécie que encontrou condições de sobrevivência.

É evidente que a repugnância não é totalmente injustificada. Algumas espécies podem carregar microrganismos patógenos, favorecendo a transmissão indireta de doenças. A rapidez com que se movem, o hábito de surgir no escuro, o aspecto segmentado do corpo e das pernas: tudo isso ativa em nós respostas ancestrais de defesa. A barata ocupa, assim, um lugar simbólico peculiar: não apenas “causa nojo”, mas encarna o que preferimos não ver: o que se arrasta, o que prolifera, o que escapa ao nosso controle sanitário.

Mas seria um erro concluir, por isso, que nada nelas merece consideração. No ecossistema natural, as baratas exercem um papel fundamental como decompositoras. Alimentam-se de matéria orgânica em decomposição ‒ folhas, madeira, restos vegetais ‒ e, ao fazê-lo, reciclam nutrientes, permitindo que o solo permaneça fértil. Funcionam como pequenas engrenagens invisíveis de um grande ciclo vital que, sem elas (e sem tantos outros organismos “desprezíveis”), simplesmente entraria em colapso. Em outras palavras: elas fazem parte do trabalho sujo que mantém o mundo limpo.

Essa função ecológica devolve às baratas uma dignidade discreta, quase humilde. Elas não pedem nossa simpatia; apenas cumprem sua tarefa. Se nos causam repulsa quando invadem nossas casas, isso se deve ao desvio de um papel ecológico que originalmente não tinha nada a ver conosco. O problema não é que existam baratas, mas que nós criamos ambientes perfeitos para certas espécies prosperarem em demasia. A barata doméstica é, nesse sentido, um sintoma de hábitos humanos e de infraestrutura urbana ‒ não um erro da natureza.

E talvez seja aí que se esconda o aspecto mais provocador: a barata funciona como um espelho invertido. Ela nos lembra daquilo que preferimos esquecer: que a vida é maior do que nossas normas estéticas, que o mundo não se organiza segundo a nossa ideia de limpeza, que a ordem na qual confiamos pode ser atravessada por criaturas que não se importam com nossas categorias de “agradável” e “desagradável”. O nojo que sentimos é, muitas vezes, a reação à quebra dessa ilusão de controle. A barata é um lembrete de que a vida não precisa de nossa aprovação para florescer; de que até o que consideramos desprezível tem seu lugar na economia do cosmos; de que a existência é tecida tanto pelo sublime quanto pelo rasteiro. Ao esmagarmos uma barata, talvez eliminemos momentaneamente o desconforto, mas não eliminamos o enigma que ela nos apresenta: a pergunta sobre o valor dos seres independentes da nossa simpatia por eles.

Reconhecer isso não significa idealizar baratas, tampouco conviver complacentemente com elas em nossas casas. Significa apenas situá-las no lugar que lhes corresponde: nem monstros, nem heroínas; apenas criaturas que ocupam uma função no tecido vivo do planeta. Se nos causam nojo, isso é humano; mas se existem, isso é da ordem da vida, e a vida, em sua extravagante diversidade, raramente se ajusta ao gosto humano. O mundo não se sustenta apenas sobre o que nós admiramos.

Luiz Sureki, SJ é professor e pesqusiador no departamento de Filosofia da FAJE

03/09/2026

Imagem: Roman Elfimov – Shutterstock

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