Vida além do trabalho… Vida além do sábado…

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Priscila Cirino Teixeira, fmvd

Às vésperas do Dia Mundial do/a Trabalhador/a, gostaria de propor uma reflexão iluminada pela Luz da Páscoa, que ainda nos acompanha e inspira, especialmente, neste Tempo Pascal, celebrado pelo calendário litúrgico católico até a Solenidade de Pentecostes.

Nos últimos tempos, vemos a discussão sobre a alternância entre trabalho e descanso se apresentar em diversos palcos da sociedade brasileira. Desde conversas no recentemente finalizado “Big Brother Brasil” até os debates no Congresso Nacional, passando por campanhas pró e contra em redes sociais, o embate entre a escala 6×1 e a escala 5×2 ganha crescente atenção neste ano eleitoral.

Na tradição judaico-cristã, o descanso semanal tem sua inspiração bíblica no descanso que, segundo a narrativa simbólico-mítica de Gênesis 1, o próprio Deus tomou para si após concluir os seis de trabalho nos quais criou o céu e a terra e tudo o que neles contém. O decálogo – tanto no livro do Êxodo (20,7-11) quanto no Deuteronômio (5,12-15) – apresenta o “sétimo dia” como dia em que não se deve fazer nenhum trabalho, consagrando o dia do “repouso sabático” a Deus e à memória da libertação da escravidão. A própria tradição bíblica, porém, atesta o descumprimento dessa lei em contextos de injustiça (Am 8,4-8).

Os meandros da história humana nos mostram como o direito ao descanso semanal depois de longos dias de trabalho foi uma conquista árdua, adquirida com muito empenho de movimentos sociais organizados em prol de uma vida mais digna para trabalhadores e trabalhadoras. Somente no século XX essas conquistas foram se firmando progressivamente. Não seria então suficiente o que já foi alcançado? Por que pedir mais descanso? Por que desejar mais descanso?

Na busca de respostas a essas perguntas, voltemo-nos para o simbolismo do sábado no contexto pascal – que não deixa de ter relação com o sábado da criação. Os relatos evangélicos nos falam daquele dia seguinte à morte de Jesus como um dia de cumprimento do “repouso prescrito”, como era de se esperar. Aquele sábado, porém, não foi somente isso:

“Era o dia da Preparação, e o sábado começava a luzir. As mulheres, porém, que vieram da Galileia com Jesus, haviam seguido José; observaram o túmulo e como o corpo de Jesus fora ali depositado. Em seguida, voltaram e prepararam aromas e perfumes. E, no sábado, observaram o repouso prescrito” (Lc 23,54-56).

Quando o sábado está prestes a se iniciar, luzes são acesas nas casas. Aquela luminosidade crescente dispõe corações, corpos, mentes… para a restauração que vem com o repouso. Tendo testemunhado bem de perto a morte, tendo observado o túmulo com seus sinais de finitude inexorável, as mulheres, seguidoras de Jesus desde a Galileia, preparam aromas e perfumes. Naquela quase noite, suas mãos cansadas elaboraram o frescor da vida. Seus silêncios foram terreno onde a esperança talvez começasse a despontar lentamente. Naquele sábado, o repouso foi também o início da restauração de possibilidades perdidas. Ainda que isso fosse apenas germe, apenas semente à espera de brotar.

E então, veio o domingo! Somente o repouso prescrito não foi suficiente para o despontar pleno da vida nova. Foi preciso que chegasse o primeiro dia da semana para que aquelas mulheres fossem ao túmulo com seus aromas e perfumes. Provavelmente conversando pelo caminho, “elas se lembraram de Suas palavras” (Lc 24,8) e deixaram de procurar entre os mortos Aquele que está vivo. Voltaram para junto da comunidade e com o anúncio da ressurreição, reacenderam não apenas luzes nas casas, mas esperanças nos corações. Naquele domingo, o germe de restauração pôde brotar e é possível que tenham começado a se reestabelecer as relações rompidas pelas desconfianças mútuas, surgidas em meio aos abandonos e traições que acompanharam a morte do Mestre.

Em meio a jornadas de trabalho extenuantes, deslocamentos que supõem horas, enormes desafios das maternidades solo, precarização das condições trabalhistas, salários insuficientes para cobrir os mínimos necessários, e tantas outras situações desgastantes, será mesmo que baste apenas o “repouso prescrito”? Ou será que o prescrito é tempo suficiente somente para os inícios, para os germes, para os “quase”: quase descansei, quase arrumei a casa, quase brinquei com as crianças, quase consegui completar a renda com mais um trabalho extra. O que precisa ser restaurado não são apenas as forças físicas extenuadas pelo trabalho, mas também as relações, os vínculos, as redes de apoio. E, para isso, já nos ensinam as discípulas de Jesus, não basta somente o “sábado”!

Priscila Cirino Teixeira, fmvd é professora e pesquisadora no departamento de Teologia da FAJE

30/04/2026

Foto: Shutterstock

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